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Baús de PVC fincam o pé na estrada

Consagrado pelo uso na construção civil e no revestimento de fios e cabos, o PVC se depara com um novo filão à espera de investimentos. Depois de cobaias para aulas de anatomia e casas construídas na medida do plástico, surgem os baús de PVC, conhecidos nos Estados Unidos e na Europa mas até então inéditos no Brasil. A nova aplicação surgiu da iniciativa de três empresas do Rio Grande do Sul perante o dilema de alguns clientes de transportarem alimentos em longas distâncias, tarefa comum em um país com as dimensões do Brasil. O objetivo é substituir o compensado naval, utilizado em 90% dos baús de caminhões graneleiros, e o alumínio, nos baús de carga seca e nos caminhões refrigerados – nestes revestido com chapas de poliuretano, para reduzir a propagação de calor pelas paredes. 

Os materiais tradicionalmente usados apresentam alguns inconvenientes. O compensado naval tem o viés ambiental, produto que é de extrativismo vegetal. E quando pintado, resiste às intempéries por dois ou três anos antes da repintura ou substituição. O alumínio, com alta condutividade térmica, transforma em eficiente estufa o baú de carga seca, um paralelepípedo fechado com faces de alumínio que pode elevar a 60o C a temperatura interna quando exposto à temperatura ambiente de 30o C (também comum no País). Se o caminhão transporta alimento refrigerado, o baú é feito com chapas de alumínio, duas por face, em cujo interstício é injetado poliuretano. É necessária garantia da qualidade do processo para evitar bolhas de ar e assegurar densidade uniforme na placa de resina. Mesmo assim, as arestas do paralelepípedo, as regiões de contato entre as faces do baú, são descontinuidades, e potenciais rotas de entrada para o calor. Além disso, as chapas de alumínio são presas na estrutura da câmara frigorífica, por sua vez presa no acabamento interno do baú, por meio de rebites. Estas peças metálicas acabam funcionando como pontes térmicas, um meio de menor resistência à transferência do calor que provoca alteração do perfil de temperatura desejado dentro da câmara. 

O baú de PVC, entretanto, pode contornar esses impecilhos. Segundo Leonardo Casagrande, engenheiro mecânico da Rodovale, uma das parceiras na empreitada, e responsável pelo projeto e adaptação do implemento rodoviário, a construção é feita com perfis co-extrudados longitudinais, vazados e com encaixes do tipo macho e fêmea nas laterais.  Cuca Jorge
Casagrande: PVC evita pontes térmicas nos baús refrigerados

No caso de caminhões graneleiros, os perfis são fixados externamente em um esqueleto metálico, e como o PVC não precisa de pintura e resiste às intempéries por sete ou oito anos, os custos de manutenção são evidentemente menores. Além disso, o uso de PVC implica menor massa da carroceria e maior capacidade de carga para o caminhão. Em baús de carga seca, utilizar-se-ia o mesmo perfil longitudinal montado em estrutura metálica, mas com o baú totalmente fechado. “A estrutura totalmente lisa, sem rebites e parafusos, necessários quando se usa alumínio, é mais adequada para a aplicação de adesivos de propaganda”, disse. Devido ao tipo de perfil empregado, há completa estanqueidade do produto. É necessária apenas uma camada de silicone no teto do baú, onde o acúmulo de água é mais provável. 

Outra vantagem decorrente do design dos perfis é o melhor isolamento térmico. O PVC por si só possui baixa condutividade térmica, mas como os perfis são vazados, o colchão de ar no interior de cada um deles aumenta ainda mais a resistência à passagem de calor, mesmo sem revestimentos adicionais, como o de poliuretano. Isso previne a elevação indesejada de temperatura dentro dos báus de carga seca.

A propriedade também é importante para os baús refrigerados. Se construídos em PVC, esses baús também são revestidos com PU, mas diferentemente de quando se usa alumínio. Segundo Casagrande, após a montagem dos perfis de PVC, o PU é “projetado” de maneira análoga a uma tinta spray, formando uma estrutura de celas fechadas uniforme em toda a superfície interna do baú, sem descontinuidades na região das arestas. “Toda a superficie de PVC fica ligada ao isolamento, como se fosse um único corpo”, afirmou. Além de prevenir as trocas de calor nas arestas, a estrutura em PVC também evita as pontes térmicas dos rebites e parafusos. 


Baú de plástico é montado com perfis longitudinais de PVC encaixados (abaixo)

Tecnologia já em uso – Apesar de inédito no País, o emprego de PVC em baús de caminhões já existe na Argentina, onde são confeccionados os perfis pela Royal Technologies, empresa canadense com dez filiais ao redor do globo dona da patente do modelo de utilização. Ela se uniu com a S.Com do Brasil, distribuidora exclusiva da Royal na divisão Cargo, responsável pelos baús de PVC – o projeto é denominado Royal Cargo by S.Com. Já a Rodovale foi a responsável pela montagem do equipamento e o processo de fabricação. 

Segundo o gerente geral da unidade brasileira da Royal Technologies Carlos Eduardo Torres, o PVC utilizado no projeto Cargo possui características particulares. Os perfis coextrudados e aditivados com produto desenvolvido pela Royal possuem boa proteção aos raios UV, que é o requisito mais importante da aplicação. Se inflamada, a resina não produz gotejamento – é classificada como produto não-inflamável de classe A – e possui garantia mínima de 20 anos contra intempéries. Além disso, com base em caminhões já na estrada, Torres garante que o plástico resiste bem tanto no inverno rigoroso do hemisfério norte, com temperaturas de até -30o C, quanto nas savanas africanas, com seus tórridos 45o C. Por isso, adaptações do produto ao clima brasileiro, bem menos severo, não foram necessárias. 

Claúdio Salgado, diretor presidente da S.Com, acredita que o uso do PVC ainda agrega outras vantagens. “Um caminhão baú normalmente demora 15 dias para estar pronto. O de PVC, apenas quatro. Essa diferença representa cerca de 30% do custo do baú em PVC, e também proporciona redução de mão-de-obra e do tempo de trabalho de até 60%”, afirmou. O PVC também é estratégico para o rastreamento dos veículos, pois o material não bloqueia os sinais utilizados para a localização e acompanhamento da carga. 

Apesar das vantagens, a aplicação ainda vai custar mais aos bolsos dos clientes – entre 5% e 7% –, pois apenas dois ou três baús em PVC são comercializados mensalmente. Mas, caso as projeções otimistas de Salgado se confirmem e a meta de alcançar, em 2003, o fornecimento para 15% dos caminhões graneleiros, de carga seca e frigoríficos se concretizar, o número pode chegar a 15 caminhões equipados com PVC por mês. Os planos de expansão também contemplam parcerias com pequenos fabricantes nacionais para distribuição dos perfis longitudinais e assistência na engenharia construtiva, de modo a reduzir ainda mais o tempo de entrega e facilitar a manutenção dos baús. Marcio azevedo



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