PLÁSTICOS ESPECIAIS

FORMULAÇÕES APRIMORAM O DESEMPENHO DAS RESINAS

A incorporação de reforços, aditivos e cargas assegura propriedades bem superiores às do polímero puro


Maria Aparecida de Sino Reto

Nem mesmo os plásticos de alto desempenho, caracterizados por propriedades excepcionais, chegam puros aos equipamentos de transformação. Por mais bem dotado seja o polímero, sempre é possível melhorar suas propriedades, adicionando reforços, aditivos e cargas minerais. A mistura propicia um balanço de propriedades quase impossível de ser encontrado na resina pura, como aumentar sua estabilidade dimensional, ou manter as propriedades mecânicas numa ampla faixa de temperatura de uso. A indústria descobriu nessas formulações a receita para atender à exigência crescente por materiais de melhor desempenho, sem precisar dispor dos pesados investimentos e tempo requeridos no desenvolvimento de novas resinas. 

A modificação dos polímeros já existentes, com a incorporação de reforços, cargas e aditivos possibilita a criação de novos materiais em tempo bem mais curto e a custos bem inferiores, visando necessidades específicas de um cliente, ou de um segmento de mercado. Elaborar essas formulações, porém, requer de seus autores conhecimento profundo das propriedades de todos os componentes e tecnologia adequada para seu processamento.

“Sem estudo, pesquisa e atualização permanente é impossível atender às exigências cada vez mais sofisticadas do mercado”, acredita Zoé A. Moncorvo, diretora superintendente da Pepasa, de Santos-SP, tradicional produtor de compostos especiais. “A maioria dos novos produtos desenvolvidos pela Pepasa ao longo de seus 34 anos resultou da necessidade de obter materiais com propriedades diferenciadas e que atendessem à determinada aplicação de um cliente”, diz. 
Segundo ela, cada novo desenvolvimento adiciona informações ao seu banco de dados, suporte para a formulação de novos materiais. Entre os últimos desenvolvimentos, Zoé menciona compostos com cargas metálicas, caracterizados por elevada densidade, bem como excelente condutividade térmica e elétrica.

Cuca Jorge
Zoé: produzir formulações exige pesquisas constantes

As composições mais corriqueiras no mercado brasileiro das resinas de engenheria ainda são as baseadas nas poliamidas. No entanto, vale lembrar que os reforços, aditivos e cargas fazem milagre com o PP – polímero do grupo das commodities –, elevando suas propriedades a níveis bem próximos de alguns plásticos de engenharia, e a custos bem atrativos. As exigências da aplicação serão os fatores determinantes na escolha dos plásticos de engenharia e de alto desempenho.

Cuca Jorge Reconhecimento do mercado – “O mercado brasileiro está, aos poucos, absorvendo as vantagens dos compostos especiais, o pacote de benefícios oferecido dentro do composto”, atesta Glauco Ricardo de Moraes, da LNP Mixcim, empresa produtora de compostos especiais pertencente à GE Plastics, ambas de Campinas-SP.

O diretor para a América do Sul da Ticona Mark Noatsch compartilha de opinião semelhante. Na avaliação dele, o mercado brasileiro de especialidades tem crescido muito, com a indústria buscando se adequar às exigências mundiais, além de procurar desenvolver produtos diferenciados.

Moraes produz sem variáveis no processo

A diretora da Lati Eva Fernandez concorda: “Há três anos, o mercado não compreendia e não aceitava um investimento tão alto em um plástico, mas hoje a mentalidade mudou e o mercado não só se demonstra informado sobre os benefícios desses materiais, como visualiza negócios proveitosos com eles, inclusive visando acesso ao mercado externo, muito exigente por qualidade e certificações”, comenta. Na opinião dela, os principais usuários dos compostos de alto desempenho se encontram nos setores médico, odontológico, petrolífero, aéreo, eletroeletrônico e alimentício.

Além de conhecer a fundo as propriedades de cada componente da formulação, os produtores desses materiais investem, e muito, em máquinas e equipamentos, em tecnologia de processo. “O investimento representa bem menos do que o exigido para a construção de uma planta destinada à polimerização de uma nova resina. Não é, porém, um investimento insignificante”, pondera Zoé.

Pormenores como a forma de alimentar o polímero com cargas e fibras, o tipo e a configuração da rosca, o controle de processo, são aspectos muito importantes da tecnologia de produção desses compostos. Preocupada em eliminar variáveis no processo e garantir constância nos produtos, a LNP decidiu padronizar globalmente os equipamentos e materiais. “Até as máquinas que fazem corpos de prova são padronizadas”, informa Moraes.

Cuca Jorge
Eva: mercado visualiza os benefícios

Com a aquisição da LNP em nível mundial, em 2001, a GE Plastics se fortaleceu no setor de compostos de alto desempenho. O foco da LNP é a modificação de plásticos de engenharia, visando à produção de compostos de alto desempenho. Sua linha inclui termoplásticos amorfos e cristalinos, reforçados com fibras de vidro, fibras de carbono, fibras longas e produtos de alto peso específico, além de materiais condutivos, entre outros. A empresa só não produz no País os compostos com fibras longas. “A demanda interna ainda não justifica.”

Os produtos de maior procura são os eletricamente condutivos e autolubrificados, variando a resina base, informa Moraes. “São desenvolvidos de acordo com as necessidades dos clientes.” Segundo ele, tornar o plástico eletricamente condutivo consiste numa tática para dissipar carga estática e permitir seu uso em aplicações de segurança em substituição ao metal.

Já peças produzidas com os compostos autolubrificados apresentam menor desgaste. O emprego de aditivos propicia baixo coeficiente de atrito, reduzindo o desgaste entre as peças e por conseqüência os ruídos. Esses produtos encontram larga aplicação em engrenagens.

Para conferir melhor resistência mecânica aos compostos, a LNP lança mão de fibras de vidro, fibras aramidas, de carbono, e até mesmo fibras de carbono condutivas. O papel de lubrificante cabe, em geral, a aditivos como PTFE (politetrafluoretileno) ou silicone, ou até mesmo a combinação de ambos.

A LNP responde na GE pela produção de compostos com balanço de propriedades diferenciadas e bem específicas. Além dos já citados, oferece materiais com condutividade elétrica e térmica, e também com altíssima resistência à abrasão, com altas resistências térmica e mecânica simultaneamente, de altíssimo peso específico (de 2 até 11), bem como produtos de estabilidade dimensional muito estreita. Em geral, incorporam até oito componentes.

Cuca Jorge Já as formulações da GE consistem no máximo de uma carga e um aditivo, além da resina base. “A GE está mais focada no desenvolvimento de tecnologia de polimerização de resinas e blendas”, atesta o diretor de marketing Edson R. Simielli. A GE também visa o balanço de propriedades, porém, com o emprego de aditivos e cargas mais usuais, como fibra de vidro e aditivos para conferir à resina propriedades antichama, para melhorar a estabilidade térmica, ou atuar como lubrificantes internos. Os produtos mais procurados têm por resina base o PBT, o PPO e o ABS. O desenvolvimento mais recente da empresa consiste num grade do Noryl (PPO/PPS) lubrificado. “Os compostos já estão prontos e em algumas aplicações experimentais”, relata Simielli. As aplicações experimentais referem-se a uma peça interna de máquinas de costura e a rotores de bomba.
Simielli: maior foco para resinas e blendas

Sintonia com as tendências – A experiência em fazer compostos soma quase 60 anos na italiana Lati, dez deles presente no mercado nacional. Pioneira na Europa a incorporar fibra de vidro nos polímeros, a empresa contabiliza desenvolvimento de mais de 16.000 tipos de compostos, baseados em mais de 20 tipos de polímeros. De olho nas tendências de crescimento do mercado, a empresa está concentrando seus esforços no desenvolvimento de compostos termicamente condutivos, autolubrificados, com fibras aramídicas e autoextingüíveis isentos de halogênio, entre outros.

Preocupação recente em suprir uma nova necessidade do mercado resultou no desenvolvimento de uma linha específica de produtos para atender à norma IEC 60335-1/695-2-1 para eletrodomésticos, que exige aprovação em teste de fio incandescente (Glow Wire Ignition Temperature – ICE 695-2-1/3), onde são simuladas as mais críticas condições de risco de incêndio. O composto para esse fim tem por base o náilon 6.6, com incorporação de fibra de vidro e outros aditivos. Atende ao teste de fio incandescente a 850 ºC e ainda confere às peças boa estabilidade dimensional, boas propriedades mecânicas, além de propriedade autoextingüível, de acordo com a classificação VO – UL’94.


<<< Anterior

Próxima >>>