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De garrafa a garrafa – Não é de hoje que se tenta trazer para o Brasil a tecnologia que permite reutilizar 100% de PET reciclado na produção de novas garrafas para bebidas. No segundo semestre de 2000, um especialista americano da Coca-Cola proferiu palestra no País, garantindo por a mais b que um novo processo de superlavagem assegurava ao reciclado o mesmo nível de pureza da matéria-prima virgem. Também afirmava que o FDA (Food and Drug Administration), dos Estados Unidos, aprovava seu uso. Despertou interesse, mas não muito. Afinal, a legislação brasileira proíbe o contato direto de material reciclado com alimentos.
A Coca-Cola voltou à carga no ano passado, durante o Recicle Show, realizado em outubro, em Porto Alegre-RS. Mais uma vez, seus representantes tentaram convencer o mercado brasileiro que, mesmo contaminado, o PET pós-uso readquire características e pureza de resina virgem. Aos interessados, a transnacional oferecia financiamentos para instalações inteiras e garantia a compra da produção. Mas a legislação brasileira continua proibindo o uso de reciclado no contato com alimentos.
Empresa de porte bem conhecida no ramo de preformas e com poder de fogo para brigar por mudanças, a Bahia Pet resolveu apostar no negócio e investiu US$ 5 milhões numa fábrica em Aratu-BA, onde pretende produzir 7.500 toneladas/ano de PET reciclado. A tecnologia empregada provém de uma empresa alemã, chamada OHL, que batizou seu processo de Stehing Bottle-to-Bottle. O princípio é o mesmo do divulgado pelo especialista da Coca-Cola, com promessas de restituir à resina reciclada as propriedades do material virgem.
É a primeira investida da empresa no ramo de reciclagem. A nova fábrica deve revalorizar principalmente garrafas pós-uso, mas também pós-industrial, informa o diretor industrial da Bahia Pet Roberto Carlos de Souza. Segundo ele, a intenção é fornecer material de qualidade para aplicações não alimentícias, como embalagens para o segmento de limpeza (detergente, desinfetante, etc.), óleo lubrificante, e também para a injeção de peças, extrusão de chapas de usos diversos, e ainda na indústria têxtil.
Intenção de concorrer com o produto virgem na fabricação de embalagens para alimentos e bebidas até há. Porém esse consiste no segundo passo, diz o diretor. O primeiro é colocar a fábrica em pé. Após instalada e produzindo, a Bahia Pet planeja correr atrás da liberação para abastecer também o mercado de embalagens de alimentos e bebidas. Afinal, será mais fácil convencer as autoridades com o produto em mãos. “Depois que a unidade estiver pronta, pretendemos submeter o processo à aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária”, admite o diretor.
Não será fácil alterar a legislação brasileira quanto ao assunto, visto que nem a pendenga da tributação sobre o reciclado plástico foi resolvida (veja boxe a respeito). Na opinião de Marçon, da Recipet, o mercado de embalagem se mostra curioso a respeito da nova tecnologia bottle to bottle (garrafa a garrafa), mas a maioria ainda a considera inviável no País, por ora. Há até fabricante de embalagem achando que basta colocar as garrafas usadas de PET num lado da máquina e retirar novas do outro lado. Parece piada, mas não é. Há muita desinformação.
“Muitos interessados desistiram, pois perceberam os riscos”, diz Marçon. Segundo ele, o FDA não deu carta branca para o uso do material. Apenas fornece uma carta de não-objeção. “É total responsabilidade do fabricante da embalagem e de quem usá-la”, comenta.
Na opinião do diretor da Recipet, a qualidade da matéria-prima ofertada no País hoje é muito inferior à dos países onde o novo processo está sendo testado. Para ele, a qualidade da nova garrafa seria sofrível. “Além disso, o processo para obtenção de flakes com a qualidade requerida para fazer novas garrafas provoca perdas de até 30% de matéria-prima, o que pode inviabilizar investimentos em equipamentos importados”, pondera.
Esses maquinários foram desenhados para devolver aos flakes limpos de PET a pureza do material virgem.
| Mas os níveis de descontaminação exigidos para esse processo são, obviamente, muito rígidos e, portanto, há pouca disponibilidade de matéria-prima desse nível no País, opina Marçon.
Além de toda problemática referente à contaminação do PET pós-uso, ainda há outra questão a pesar. Não há fiscalização eficiente capaz de controlar o uso do reciclado nas embalagens destinadas à indústria de alimentos e bebidas. Caso aprovado seu uso, há riscos de reciclados de origem duvidosa acabarem nas prateleiras dos supermercados, acreditam especialistas da área, como o consultor José Carlos Froes, da Recicláveis, de São Paulo, e Auri Cesar Marçon. |
Cuca Jorge |
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| Froes: PET atrai mais porque é o mais visível
nas ruas e lixos |
O fenômeno – Quem acredita que o fenômeno PET se justifica na rentabilidade e já pensa em abrir uma empresa de reciclagem, cuidado. De acordo com o especialista no tema, o consultor José Carlos Froes, as garrafas de PET recicladas rendem bem pouco aos empreendedores e muitos deslumbrados já fecharam as portas. Por que, afinal, a maioria dos interessados em reciclar corre logo atrás do PET, embora outras resinas, como os polietilenos ou o poliestireno, têm demanda bem superior, e, claro, oferta também, e ainda requerem investimentos menores? A produção de brasileira de PET no ano passado ficou em torno de 350.000 toneladas, contra 811.000 de PEAD, 890.000 t de PP, ou ainda 314.000 t de PS.
A resposta salta aos olhos. São as garrafas de PET as mais visíveis, se avolumando nas calçadas, nos lixões, nos aterros, nos rios. É o material mais caro para compra. Prensado e separado por cor nos sucateiros, não sai por menos de R$ 0,55 o quilo. Revalorizado em flake é vendido em torno de R$ 1,00 a R$ 1,10 o quilo. A apertada margem deve pagar os custos fixos e de processo e ainda render alguma coisa. Os investimentos mínimos em uma linha adequada de reciclagem são da ordem de R$ 200.000,00, estima Froes. Além disso, a oferta de matéria-prima constitui outro entrave à atividade. Aparentemente disponíveis, as garrafas de PET visíveis nas ruas ainda têm como principal destino o lixão.
A falta de coleta seletiva está na base do problema. Sem ela, a reciclagem vai continuar derrapando. Iniciativas espontâneas da sociedade, como a implantação de coleta seletiva em condomínios e empresas, associadas com medidas do poder público, prometem dar novo impulso à atividade no País, acredita o presidente da Abepet Alfredo Sette. “A indústria opera com 40% de ociosidade”, pondera.
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PENDENGA DO IPI CONTINUA EM PAUTA |
Isentar a reciclagem de plástico do pagamento de IPI é uma reivindicação antiga do setor. Após anos de luta para equiparar a atividade a outros materiais que nada pagam, como vidro e alumínio, entre outros, o Governo Federal assentiu em reduzir a zero a alíquota do IPI das aparas, resíduos e desperdícios de plástico, por meio do decreto 4.441, de 25/10/2002. Mas a alegria durou pouco. Ainda se comemorava a medida, quando o Governo voltou atrás, com novo regulamento (decreto 4.544) e tabela do IPI (decreto 4.542), ambos de 26/12/2002, estipulando o pagamento de 15% para o PET e 5% para as demais resinas. E é isso que vale hoje, explica o coordenador da Plastivida Antonio Riera Costa.
Mas há uma compensação. O reciclador que pagar essas alíquotas na compra de aparas, resíduos e desperdícios, poderá se creditar delas aos vender produtos feitos com esse plástico reciclado. “Isso significa que as empresas que operam na formalidade, na prática, têm ressarcidos os gastos efetuados na aquisição de matéria-prima para produtos feitos com plásticos reciclados”, pondera Riera.
Portanto, para ele, mesmo pagando IPI, as mudanças devem estimular a reciclagem de todos os plásticos, inclusive o PET. De qualquer modo, a Plastivida e outras entidades do setor continuam a luta junto ao Ministério da Fazenda a fim de baixar definitivamente para zero a alíquota do IPI para os plásticos reciclados, medida que contribuiria para reduzir a informalidade do setor.
Cerca de três anos depois de iniciar o mapeamento da reciclagem no País, com o propósito de trabalhar com números reais, palpáveis, a Plastivida estima índice médio de reciclagem em torno de 17,5%. As pesquisas concluídas mostram a quantas anda a reciclagem de plástico na Grande São Paulo, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Bahia e Ceará. O líder é o Rio Grande do Sul, com índice de 27,6%. Já se encontra em fase final de tabulação a radiografia de Minas Gerais.
Riera acredita que a taxa do lixo instituída pela prefeitura de São Paulo deve contribuir para estimular de modo indireto a coleta seletiva. A fim de reduzir o volume de lixo levado pelos caminhões de coleta, os moradores devem separar os materiais recicláveis para que os catadores os recolham antes, pressupõe o coordenador da Plastivida. Para ele, também o programa de instalação de Centros de Triagem pela prefeitura deve estimular o mercado da reciclagem.
A Plastivida participa de um grupo coordenado pela Força Sindical e pela CUT no Fórum de Competitividade da Cadeia do Plástico no Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. O objetivo é propor medidas que favoreçam a inclusão social dos catadores. Também entra na pauta da Plastivida a reivindicação de um código sobre a disposição dos resíduos sólidos. Na opinião de Riera, o projeto hoje em fase de elaboração não atende aos diferentes segmentos da indústria. “Ainda precisa ser amplamente discutido”.
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