RECICLAGEM

PET ABRE O LEQUE PARA NOVOS USOS

Depois das roupas, as garrafas usadas agora viram insumo para tintas, e até inusitado tubo para esgosto predial, além de revestimento


Maria Aparecida de Sino

Variedade de plástico mais procurada para revalorização, o PET descobre novas vocações num ritmo acelerado. Consolidado em diversos segmentos de mercado, o de vestuário inclusive, o PET reciclado avança agora na fabricação de tintas, tubos, pisos e revestimentos. 

Medida pela Associação Brasileira dos Fabricantes de Embalagens de PET (Abepet), a reciclagem do PET pós-uso cresce muito. Dentre todas as resinas, é a que mais se expande, a despeito de toda dificuldade para obtenção de matéria-prima de qualidade, ou seja, sucata com baixo índice de contaminação. “Cresce cerca de 30% ao ano e deve prosseguir nesse patamar nos próximos três anos”, prevê o presidente da associação Alfredo Sette. Em suas estimativas, o mercado revalorizou cerca de 120.000 toneladas de embalagens de PET no ano passado, contra 89.000 t em 2001 e 67.000 em 2000. Cuca Jorge
Sette: reciclado de PET sobe 30% ao ano

Com criatividade, o brasileiro descobre aplicações inéditas para o material reciclado, ousando, inclusive, contradizer certos dogmas. 

Cuca Jorge É o caso da novidade mais “quente” do mercado: os tubos para esgoto de prédios, fabricados pela Empresa Brasileira de Reciclagem (EBR), de Diadema-SP, com PET revalorizado. Batizados de Tubopet, estão à venda desde abril. “Teoricamente, é impraticável produzir tubo de PET”, diz o diretor da empresa Guido F. Nigra.

Até provar o contrário, ele ouviu de acadêmicos e especialistas em máquinas que nunca se fabricou antes tubos de PET porque a resina não permite. A idéia do projeto começou há cerca de um ano e ganhou corpo nos últimos meses, até se concretizar em abril, com a produção dos primeiros lotes. “Foi uma brincadeira de temperaturas que levou a esse resultado”, brinca. 

Nigra: tubos contradizem a teoria

O material consiste numa blenda de plásticos reciclados, com teor acima de 75% de PET pós-uso.

Até sair da extrusora, o projeto passou por diversas mãos: IPT; Falcão Bauer, onde a EBR buscou as especificações necessárias para produzir seus tubos; Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), onde contou com o conhecimento de renomados professores, como Elias Hage; e também LGMT, fabricante brasileiro de extrusoras; e Granoplast, fornecedora dos equipamentos periféricos.

“Iniciamos com uma linha convencional de extrusão para tubos e a modificamos de acordo com as necessidades técnicas”, conta Nigra. Além dos diferenciais no maquinário, a produção desses tubos também requer ferramentais especiais. 

Tubos de material reprocessado exibem alta resistência ao impacto e à pressão

Os professores da UFSCar o ajudaram a definir os melhores parâmetros do processo. Finalizado o projeto, a EBR demandou mais de dois meses em testes, que surpreenderam pelos resultados acima do esperado.

Relatório técnico emitido pelo DEMa/UFSCar, com ensaios físicos e térmicos aprovaram a família de tubos, composta por diâmetros de 40 mm, 50 mm, 75 mm e 100 mm. Os tubos passaram por análises de classe de rigidez, ensaios de temperatura de amolecimento Vicat, e resistência ao impacto por queda de dardo. Os resultados isentam os produtos de delaminação, trinca, rasgo ou ruptura nas amostras para análise de classe de rigidez, e também comprova que os tubos atendem às exigências da norma NBR 5688-99 para resistência ao impacto, sem qualquer falha.

Os tubos são fabricados com base nas especificações da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) para os dimensionais, ou seja, diâmetros interno e externo, e espessura; para resistência à temperatura; e também para pressão interna e resistência ao impacto. A surpresa veio com os testes para pressão interna e resistência ao impacto, com resultados que superam as determinações da norma, assegura Nigra. 
Segundo ele, outra vantagem dos tubos de PET é a sua leveza em relação aos de PVC nas mesmas espessuras. Também permitem adesão convencional, de PET com PET, PET com PVC, e PET com anel. Além de superar o PVC em algumas características técnicas, o novo produto ainda é 15% mais barato.

A EBR opera hoje com capacidade para produzir entre 100 e 120 toneladas mensais desses tubos. De acordo com as previsões do diretor, a empresa deve operar no limite já no segundo mês de produção. No primeiro, vendeu cerca de 80 t do produto. Ele ainda tem na gaveta outros quatro desenvolvimentos para complementar sua linha de produção, todos relacionados à extrusão de PET reciclado. “Pretendo manter a capacidade atual de tubos e diversificar com outros produtos, usando a sinergia de distribuição dos produtos no mercado de materiais de construção civil.” 

Nigra planeja adquirir outras duas linhas de extrusão no prazo médio de um ano e meio, quando pretende atingir capacidade total de 400 toneladas mensais. Até agora, ele investiu R$ 3 milhões. “Nosso maior esforço, hoje, é montar a rede de distribuição”, diz. Mesmo assim, a EBR já colocou o produto em vários pontos do País. Para tanto, ele conta com a experiência de seu sócio Sérgio Dias, que atuou na Tigre por cerca de dez anos como diretor comercial, e depois na Medabil. O ineditismo brasileiro já foi devidamente patenteado no País. O pai da criança também providenciou o registro na Europa, México e Estados Unidos.


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