MODERNIDADE SEM DISPENSAR MÃO-DE-OBRA

Conciliar tecnologia de ponta com muita mão-de-obra é a festejada característica da Med-e-Med Produtos Técnicos Medicinais, que instalou no Centro Industrial de Aratu a segunda maior fábrica de bolsas de sangue e de plasma do mundo. Para isso, está investindo 36 milhões de dólares, com apoio de bancos suíços, e já criou 289 postos de trabalho, 90% para mulheres. Na segunda etapa, prevista para três anos, criará mais 1.110 postos.

A maior parte dos postos de trabalho existe por causa da pormenorizada montagem das bolsas, atividade que é manual, à prova de robotização. Além da bolsa padrão, são montados sistemas de bolsas duplas, triplas e quádruplas. Sinal da forte presença da mão-de-obra é a creche que está sendo construída para 750 crianças, já prevendo a ampliação. “A qualidade da mão-de-obra baiana já foi aprovada”, atesta o executivo José Luiz Corujeira. 

Antes de ser aprovada, a mão-de-obra passou por exaustivo programa de treinamento e assimilação de rigorosos procedimentos. Ao chegar, o funcionário da produção passa pela área negra, onde toma banho, troca de roupa e submete-se a detalhado ritual de assepsia; depois entra na área cinza, onde descontamina-se em uma câmara de oxigênio com pressão negativa; finalmente vai para a área branca, onde não há interruptores de luz e o ar é trocado vinte vezes por hora. “Somos uma empresa da quarta geração de plásticos, mas somos também do ramo farmacêutico”, ressalta Corujeira. O processo de esterilização, explica, “garante a máxima segurança biológica, está em conformidade com o padrão internacional ISO 9001/2000”. 

A Med-e-Med, que começa produzindo 12 milhões de bolsas/ano – 70% para exportação e o restante para o mercado interno –, não desembarcou na Bahia por causa da oferta de matéria-prima, e sim por causa da mão-de-obra farta e dos incentivos. A matéria-prima, grãos de PVC grau médico para extrudar as peças rígidas das bolsas, e também filmes do mesmo PVC para produzir a parte flexível mediante soldagem, é importada da Alemanha e Holanda. O PVC grau médico, que requer plastificantes especiais, ainda não é produzido no Brasil. 

Avaliando que a demanda potencial do mundo é de 230 milhões de bolsas de sangue e são produzidas atualmente apenas 70 milhões, a Med-e-Med aposta na rápida expansão. No mercado interno, apenas parcialmente suprido, antes da Med-e-Med, por duas fábricas com “capacidade de produção muito pequena”, a estratégia é vender diretamente para os cerca de cem bancos de sangue. Cabe aos bancos repassar para hospitais e para os 3.200 postos de coletas. Há também planos de desenvolver fornecedores locais para os grãos e filmes de PVC.

A Med-e-Med revela que o acionista majoritário e diretor-presidente, Reinhard Schhorst, inclui em seus 26 anos de experiência a “implantação bem sucedida de projetos de fabricação de bolsas de coleta de sangue em países como Alemanha, Holanda, Coréia e Turquia”. Na Bahia, ele resolveu instalar a sua própria fábrica. 

 

PROGRAMA PROPÕE DILAÇÃO FISCAL

Em vez do velho e combatido incentivo baseado na renúncia fiscal explícita, que tanto irritou o falecido governador Mário Covas e desencadeou guerra fiscal entre estados, agora, para atrair indústrias, o governo da Bahia oferece a “dilação fiscal”, chamariz que consiste em possibilitar à empresa beneficiada, se for da cadeia petroquímica recolher à vista apenas 10% do ICMS e adiar o recolhimento do restante para o sexto ano, a contar do começo da produção, quando então recolherá o montante de uma só vez, com acréscimo da TJLP menos 20%. A dilação fiscal é oferecida no âmbito de um programa denominado Desenvolve, criado no ano passado para substituir o Bahiaplast e outros programas setoriais baseados na renúncia fiscal, ou nos “diferimentos de ICMS e crédito presumido”, como diziam os técnicos.

Os critérios que os projetos devem atender para habilitar-se aos incentivos do Desenvolve exigem: 1) caso seja de expansão industrial, deve corresponder a pelo menos 35% da produção dos 12 meses anteriores ao pedido; 2) Se for de reativação de indústria, deve ser comprovado que a paralisação perdura há pelo menos 12 meses; 3) Tratando-se de modernização, deve incluir a incorporação de novos métodos e processos de produção ou inovação tecnológica que resultem em aumento significativo da competitividade, na melhoria da relação insumo-produto, ou na redução do impacto ambiental; 5) 
Em nenhuma situação deve incluir a transferência de ativos de outra indústria, da mesma empresa, ou de terceiros, situados em qualquer dos estados no Nordeste – exigência destinada a impedir que fábricas da região migrem para a Bahia depois de usufruírem benefícios onde estavam. 

“Não queremos estas fábricas, porque entendemos que o incentivo é destinado ao fomento industrial, e não à transferência”, anuncia o coordenador de Indústria da Secretaria de Indústria e Comércio, Guilherme Furtado Lopes. “Esperamos que os outros estados do Nordeste atuem da mesma forma”.

A mudança de Bahiaplast para Desenvolve foi o artifício legal para driblar a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), que impõe restrições à renúncia fiscal.

Luiz Poy
Lopes: Novo programa é mais moderno

 “Agora que essa Lei está vigendo, o governo seria obrigado a lançar no orçamento um volume de recursos suficiente para dar cobertura à renúncia fiscal”, explica Guilherme. Ele garante que além de não contrariar a LRF, o Desenvolve “é mais moderno e igualmente competitivo”. Admite, entretanto, que poderá sofrer modificações, para adaptar-se a uma possível política de industrialização do Governo Lula, que favoreça a desconcentração industrial e o fim das disparidades regionais. 

O Bahiaplast foi lançado em 1998, 20 anos depois da partida do II Pólo, com o propósito de, em cinco anos, atrair empresas de transformação suficientes para assegurar mercado local a 40% das resinas. Incluía, além dos incentivos e vantagens do governo, a contrapartida de sete produtoras de resinas (OPP, Politeno, Polialden, EDN, Proppet, Polibrasil e Trikem): destinar às fábricas de transformação, por dois anos, bonificação correspondente a 3% do volume da resina comprado por estas fábricas. Apenas a Politeno, que é controlada pelo Grupo Suzano, admite que manteve a bonificação no âmbito do Desenvolve. Outras empresas passaram a considerar o benefício inadequado. “A relação da Braskem é cliente-a-cliente, programas são realizados por órgãos governamentais”, justifica o vice-presidente para Assuntos Institucionais, Alexandrino Alencar. 

As fábricas movidas pelo Bahiaplast que se instalaram ou ampliaram a capacidade de produção para transformar polietileno elevaram de 30 mil t/ano para 60 mil t/ano a parcela da produção da Politeno transformada na Bahia, revela o presidente, Jaime Sartori. Estas 60 mil t/ano correspondem a um sexto da produção. A maior das fábricas de transformação é a Citec do Brasil, que procede da Alemanha, mobilizou 35 milhões de dólares e criou 200 postos de trabalho para produzir contêineres para lixo e outros artefatos. 
Outras, já em produção ou quase, são a Rotacaxa, do Grupo Unigel, (tanques e reservatórios por rotomoldagem); Tecnoval NE (filmes para sacaria); Cromex Bahia, (masterbatch); TRM (masterbatch); Aleplast (plástico bolha) e Fly Pack (filmes para fraldas). Há também fábricas como a Rosiplast que “faz brinquedo com pouco polietileno e muita mão-de-obra”, enaltece Sartore. E outras duas, do mesmo ramo, que vieram do Sudeste para constituir no município de Lauro de Freitas o que o governo espera seja o núcleo de um pólo de brinquedos populares. 

O Bahiaplast foi fundamental para a Proppet, ativo incorporado à Braskem, alcançar a condição de primeira fábrica de resinas a dispor de mercado local para toda sua produção: as cinco fábricas de pré-formas de garrafas instaladas ou em instalação na Grande Salvador – Engepack, Embahia, Bahiapet, Norpet e Lorenpet – precisarão de mais matéria prima do que as 60 mil t/ano de PET produzidas na Proppet. Será assim pelo menos até a prevista duplicação.

O Grupo Unigel apresentou também o projeto da Cardinali, com previsão de transformar 30 mil t/ano de PVC e polietileno em tubos para telefonia, gás e saneamento.

Independente da LRF, antes de ser substituído pelo Desenvolve, o Bahiaplast sofreu as incertezas que se abateram sobre a economia no segundo mandato do presidente Fernando Henrique, que teriam motivado adiamentos ou cancelamentos de projetos importantes, como os da Zaraplast (22 mil t/ano de filmes de barreira para embalar alimentos) e Isso Filmes (8,5 mil t/ano de filmes especiais para fraldas e absorventes higiênicos). “Estes dois projetos estão sendo reavaliados, talvez venham, talvez não venham”, aponta Jaime Sartori. Há também os que deram meia volta definitivamente, a exemplo de um projeto de polipropileno biorientado (BOPP), plástico usado em embalagens para batata frita. A Polibrasil, que desde sua partida inaugural produz as mesmas 150 mil t/ano, não assegurou a matéria-prima e o projeto, que também é do Grupo Unigel, foi para o Rio Grande do Sul.
O Bahiaplast, informa Guilherme Furtado Lopes, aprovou 48 projetos – 32 referentes à implantação de novas empresas e 16 de ampliação de empresas já instaladas –, um investimento total de 271 milhões de dólares que está abrindo 3.462 postos de trabalho. 

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