FATURAMENTO SOBE MAS ENCOMENDA CAI

Simone Ferro e Renata Pachione

 

A Brasilplast ocorre num momento importante para os fabricantes de máquinas para plástico. Depois de aumentar o faturamento em 18% no ano passado, a redução no volume de encomendas compromete os futuros resultados do setor. A feira ganha assim a grande responsabilidade de ajudar reverter esse quadro. As expectativas também são grandes para as marcas estrangeiras que viram suas margens de participação serem reduzidas em mais de 20% em 2002.

Apesar das dificuldades relativas à crise de energia elétrica, desvalorização cambial e eleições presidenciais, o setor cresceu e conseguiu investir na produção. Com quatro fábricas instaladas – Romi, Sandretto, Jasot e Himaco –, e a italiana Negri Bossi em fase de implantação, o segmento de injetoras assiste à redução da demanda, quando 70% das 25 mil máquinas instaladas no País superam uma década de uso. Embora o volume de importações tenha caído, os fabricantes estrangeiros têm forte atuação no mercado nacional, muitos com filiais estruturadas e eficiente serviço de pós-venda.

Merece destaque o empenho da indústria de sopradoras em aperfeiçoar o perfil da rosca e a tecnologia do cabeçote para receber resinas que conferem mais brilho e transparência ao produto transformado. Ou seja, entre as novidades reservadas para o setor neste ano é certo o avanço do consumo do polipropileno sobre o do polietileno. Quanto às extrusoras, a efetiva disposição do setor continua a favorecer a aquisição de máquinas de coextrusão de três e de cinco camadas. O processo sintetiza um dos principais mandamentos da indústria: o de ampliar e melhorar a capacidade produtiva do transformador.

Nas próximas páginas, o leitor terá um fiel balanço do panorama econômico do setor, a partir de informações inéditas da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq). A entidade, que sempre divulgou os números globais das indústrias de bens de capital mecânico, apresentou informações exclusivas dos fabricantes de máquinas para plástico. Na seqüência, representantes das indústrias de injetoras, sopradoras e extrusoras comentam as principais tendências, inovações e resultados comerciais de suas áreas de atuação.

 

INDÚSTRIA NACIONAL VENDE MAIS NO BRASIL E EXTERIOR

 

Os resultados surpreenderam. A indústria nacional de máquinas e equipamentos para o processamento de plástico fechou 2002 com faturamento nominal de R$ 482 milhões, alta de 18% em relação ao período anterior. Os números divulgados em fevereiro pela Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) apontam ainda a evolução das exportações, discreto aumento do nível de emprego, maior participação dos fabricantes locais no mercado interno, expressivo crescimento do volume de investimentos e a retração das importações.

O único aspecto negativo refere-se à queda de mais de 12% no volume de pedidos em carteira, passando de 13,4 semanas para 11,7. Na avaliação da presidente da Câmara Setorial de Máquinas e Acessórios para a Indústria do Plástico da Abimaq, Maristela Simões esse resultado deve interferir nas projeções de faturamento do setor já no primeiro semestre do ano. A tendência, no entanto, é de reversão. Com o aumento das encomendas, a partir do segundo semestre, o setor deverá crescer 15% em 2003.

A Brasilplast representa importante aliada para a efetivação das previsões. “Certamente vai alavancar mais negócios que a edição anterior”, afirma Maristela. Em 2001, segundo informações divulgadas pela Alcântara Machado, só os fabricantes de máquinas garantiram em média seis meses de produção, com volume de negócios da ordem de R$ 100 milhões fechados na feira. Ressalta ainda a importância da participação das instituições financeiras no evento, oferecendo linhas de crédito com condições especiais em taxas, prazos e carências.

Em fevereiro, membros do Comitê da Brasilplast viajaram para Portugal e Espanha com o objetivo de divulgar a feira e atrair novos expositores e visitantes para a edição de 2005. Composto por representantes da Abimaq, da Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast) e do Sindicato das Indústrias de Resinas Sintéticas do Estado de São Paulo (Siresp), o comitê é presidido por Maristela. É a primeira vez que a missão atua fora do calendário de feiras do setor. A participação de Portugal na Brasilplast é mais expressiva que a espanhola. “Em 2005, a feira vai contar com novo pavilhão, podendo aumentar expressivamente o número de expositores”, diz Maristela.

Exportações – As vendas externas de máquinas para plástico superaram em quase 5% os US$ 32,5 milhões de 2001, ficando em mais de US$ 34 milhões. O desenvolvimento de novos mercados na Europa, Estados Unidos, Ásia e países do Oriente Médio contribuíram para o resultado, já que o comércio com a Argentina sofreu grande retração.

Por outro lado, as importações encolheram 22,2%, passando de US$ 217 milhões para US$ 168 milhões. Na avaliação de Maristela, a tendência de baixa das importações e alta das exportações será mantida ao longo do ano.

No ano passado, as importações globais ficaram quase 15% abaixo na comparação com 2001. Passaram de US$ 7,243 bilhões para US$ 6,181. Com isso, o setor reduziu seu déficit comercial para US$ 1,3 bilhão, contra US$ 3,7 bilhões do ano anterior. “A participação das indústrias nacionais no consumo aparente saltou de 56% para 64%”, diz o presidente da Abimaq, Luiz Carlos Delben Leite. Os bons resultados, no entanto, não eliminam os reflexos da ameaça de guerra no Oriente Médio e da transição no governo federal. “O volume de pedidos em carteira acumula queda de 20%”, afirma. Com isso, estima redução de 2% no faturamento global nos primeiros seis meses. A partir do terceiro trimestre prevê alta entre 5% e 6%. n

 

DISPUTA TECNOLÓGICA FICA MAIS ACIRRADA

 

Considerada a terceira maior feira do mercado de plásticos, atrás apenas da K, de Düsseldorf, na Alemanha, e da NPE, de Chicago, nos Estados Unidos, a Brasilplast reúne a cada dois anos as principais empresas do setor, tanto nacionais quanto estrangeiras. Embora apresente novidades tecnológicas em diversos segmentos, as máquinas são, sem dúvida nenhuma, suas principais vedetes. Expostos em pleno funcionamento, os mais variados modelos permitem ao transformador comparar tecnologias, avaliar desempenhos e definir aplicações com precisão e agilidade. Dentro desse contexto, as injetoras ocupam posição de destaque, como uma espécie de Fórmula 1 do mercado, responsável pelo pontapé inicial de inúmeras inovações, algumas delas aplicadas posteriormente em outros segmentos.

As feiras tornam-se assim, a “largada do campeonato mundial”. A disputa esquenta no decorrer do ano. Em 2003, a briga entre as tecnologias hidráulica, elétrica e híbrida, que combina acionamentos hidráulicos e elétricos, promete ficar mais acirrada. O diretor da Arburg do Brasil, Roberto Schaefer destaca ainda o avanço da injeção de múltiplos componentes, principalmente na indústria de autopeças, além do aumento de demanda por equipamentos de grande porte e alta tecnologia. Cuca Jorge
Schaefer planeja investimentos no País

A edição de 2001 da Brasilplast marcou o início das operações da filial brasileira da Arburg, antes com escritório de representação no País. “O objetivo era apresentar a empresa e os seus produtos, tornando-os mais conhecidos no mercado sul-americano.” Em 2003, no entanto, espera atrair maior número de visitantes. A Arburg planeja ainda série de investimentos no País, como a construção de sede própria até meados de 2004. No local será instalado show room para até cinco injetoras, além de espaço para apresentações e treinamentos técnicos, testes de moldes e estoque de peças de reposição, priorizando o atendimento pré e pós-venda.

Assim como os demais importadores, a Arburg sentiu a pressão da desvalorização cambial, das eleições e da crise de energia elétrica. “Mesmo com todos as dificuldades da economia, conseguimos novos clientes, líderes em seus setores de atividade, o que nos permite uma visão positiva do futuro.” Com relação às metas traçadas, 2002 deixou a desejar. “As expectativas não foram alcançadas, já que o ano foi de maneira geral fraco de investimentos. A empresa participa de aproximadamente 60 feiras por ano. Em 2003 já confirmou presença na NPE, em Chicago, nos Estados Unidos, e na Plast, em Milão, na Itália. 

CICLO RÁPIDO TAMBÉM AVANÇA EM PEÇAS TÉCNICAS

A Brasilplast 2003 deve consolidar algumas tendências, tais como as máquinas elétricas, de ciclo rápido e multimaterial. Estes serão os principais destaques da exposição, na opinião do gerente comercial da Battenfeld do Brasil, Inácio de Morais. “A mostra não é só muito importante para o Brasil, por ser a maior do setor no País, mas também para o resto do mundo em decorrência do seu caráter internacional”, afirma.

A tradicional indústria de injetoras, com unidades fabris na Alemanha e Áustria e subsidiária em Barueri-SP, fabrica máquinas totalmente elétricas desde 1992, mas optou por apresentar as mais recentes novidades em ciclo-rápido, além da injetora hidráulica de alta precisão e outra para a produção de peças pequenas (leia mais sobre os equipamentos na prévia da feira).  Cuca Jorge
Morais prevê aumento das importações

O critério da escolha foi o de mostrar os novos desenvolvimentos da matriz alemã. Na avaliação de Morais, a demanda das máquinas elétricas tende a crescer sem, no entanto, substituir os modelos com acionamento hidráulico.

Destaca ainda o avanço do ciclo rápido no segmento de peças técnicas de parede fina e da tecnologia multimaterial, para atender a necessidade de produção com mais de um componente num único ciclo. Acredita também que, embora as máquinas elétricas tenham sido a vedete das últimas mostras internacionais, tais equipamentos não ofuscarão as demais tecnologias. “Não tiram o brilho de outros processos de injeção de igual importância, como máquinas de ciclo rápido e processos de injeção de altíssima precisão.”

Presente em todas as edições da Brasilplast, a Battenfeld do Brasil espera repetir em 2003 o desempenho obtido com a edição anterior do evento, quando o volume de negócios ficou entre R$ 1,5 e 2 milhões. Pelas contas de Morais, as importações representam entre 20% e 25% do mercado nacional. Apesar das dificuldades impostas pela desvalorização cambial, aposta na tendência de alta da participação das marcas estrangeiras. “As importações tendem a crescer em função da necessidade de aplicação de tecnologias novas e apuradas.”

Para Morais, os primeiros sinais de recuperação já começaram a ser sentidos no início da ano. Com o dólar apresentando tendência de baixa, os transformadores sinalizaram a intenção de desengavetar alguns projetos de investimentos. “Certamente o ano será melhor que o anterior, contudo é cedo para um prognóstico, em função da consolidação da política econômica do novo governo e da estabilidade do real perante o dólar”, avalia. 

 

CONSUMO DE EMBALAGENS IMPULSIONA DEMANDA DE MÁQUINAS

 

O gerente geral da Demag Ergotech Brasil, de Barueri-SP, Udo Löhken está confiante no desempenho do segmento de embalagens plásticas. A tendência de evolução da demanda, notada desde o final do ano passado, se mantém. Os números divulgados pela Associação Brasileira de Embalagem (Abre) confirmam as estimativas. De acordo com a entidade, a produção global, incluindo outros materiais como o vidro e o alumínio, deve superar a taxa de 1,5% de crescimento registrada em 2002. As previsões para os plásticos acompanham a tendência de alta, principalmente na área dos rígidos. De janeiro a julho do ano passado, a produção desse tipo de embalagem cresceu 11,11%, enquanto os flexíveis caíram 5,38% e os sacos e sacolas, 6,38%.

De olho nesse nicho, a Demag optou por expor a injetora híbrida modelo El-Exis.S de 150 toneladas de força de fechamento para ciclo rápido. 

“Apostamos não só na evolução do consumo, como também na excelente aceitação dos nossos equipamentos por parte do mercado de embalagens”, afirma Löhken. Embora 2002 não seja um bom parâmetro, em decorrência da retração das importações, a empresa destaca o seu desempenho junto às indústrias alimentícia e de cosméticos. 

“De 30% a 40% das vendas atendem a esse segmento de aplicação”, afirma. Autopeças e eletroeletrônicos respondem pelo restante das vendas.

Cuca Jorge
Löhken: mais de 30% das vendas vão para o setor de embalagens

De acordo com Löhken, a filial brasileira encerrou 2002 com queda de 40% no número de máquinas vendidas e entre 25% e 30% no faturamento em relação ao período anterior. “A retração decorreu do clima de incerteza motivado pela alta do dólar e pelas eleições presidenciais, prejudicando os negócios em boa parte do ano.” No entanto, a Brasilplast pode ajudar a mudar esse cenário. “A feira ocorre em época bastante interessante, principalmente porque o mercado transformador já sente os efeitos da falta de investimentos e o novo governo começa a conquistar credibilidade, tornando o momento propício para novos negócios.”

Além do previsto aumento de consumo, as exigências quanto à redução do peso das embalagens, do ciclo de produção e dos gastos com energia elétrica, entre outros critérios relacionados à produtividade e qualidade, devem impulsionar novos investimentos não só em máquinas como também em moldes e equipamentos auxiliares. Dentro desse contexto, Löhken defende que as principais evoluções vão continuar ocorrendo no campo dos processos, como a injeção bi-componente e de materiais alternativos ao plástico e a decoração dentro dos moldes (in mold labeling), entre outros recursos. “As máquinas tem de acompanhar os avanços tecnológicos dos moldes e dos insumos, promovendo a integração perfeita de todos os parâmetros.” Porém, a injeção convencional sempre terá a principal fatia do mercado, na avaliação de Löhken.

A Demag promete para a NPE 2003, em Chicago, nos Estados Unidos, a apresentação de injetora 100% elétrica projetada a partir de novo conceito. Informações adicionais ainda não foram divulgadas. Já os investimentos no Brasil continuam suspensos. A empresa, instalada em galpão industrial de 750 m² desde 2001, espera a recuperação do mercado para a montagem do show room. De acordo com Löhken, as injetoras importadas representavam entre 30% e 35% da demanda nacional. Em 2002, não chegaram a 20%.

Para 2003, as expectativas ainda são incertas. “Existem alguns projetos como o de ampliação das exportações de produtos acabados, em discussão no Fórum da Competitividade, cujos reflexos não serão sentidos a curto prazo.” O mercado está apreensivo também com relação à possibilidade da guerra contra o Iraque e dos anunciados aumentos das resinas termoplásticas.

 

MOLDADOR BRASILEIRO VAI INVESTIR MAIS EM PERIFÉRICOS

 

Embora os transformadores brasileiros invistam cada vez mais em equipamentos auxiliares de processo, agentes de fluxo e outros aditivos, tais recursos, responsáveis pela redução do desperdício de insumos e aumento da produtividade e vida-útil de roscas e cilindros, ainda têm vasto campo para crescer no País. Segundo o diretor da HDB, de Cotia-SP, Herbert Buschle essas tecnologias são bem mais difundidas e empregadas nos Estados Unidos, Europa e Ásia. “A falta de conhecimento muitas vezes limita a ação do transformador, preocupado com o lucro imediato”, acredita. O custo dos materiais e equipamentos, grande parte importado, também assusta, mesmo quando o retorno do investimento ocorre poucos meses depois. Pesa ainda a questão do capital de giro disponível ou, muitas vezes, indisponível, que limita o fôlego para investimentos a médio e longo prazos.

A Brasilplast representa assim boa oportunidade para o usuário checar as principais inovações na área, avaliar custos e tentar as linhas de crédito especiais oferecidas na feira. A própria HDB, representante exclusivo da Engel, fabricante austríaco de injetoras sem coluna, destaca em seu estande a linha de aditivos e periféricos de outras representadas.  Cuca Jorge
Buschle: uso de equipamentos auxiliares pode crescer

“A obtenção de processos precisos, rápidos e com alto índice de repetibilidade não depende apenas da máquina injetora, mas de todo o sistema”, argumenta.

Dentro desse contexto, Buschle também ressalta o expressivo potencial de crescimento do segmento de moldes sem canal de injeção. Grande parte da inovações tecnológicas em periféricos e aditivos surgiu da necessidade de atender à evolução registrada no campo das resinas. A instalação de peças em áreas críticas, como a região do motor dos automóveis, aumentou as exigências relativas à resistência térmica e física dos materiais técnicos. Porém, os plásticos com reforços e aditivos tornam-se extremamente abrasivos e corrosivos, reduzindo a vida útil de roscas e cilindros. “Produtos capazes de minimizar esses efeitos e aumentar a produtividade ainda são pouco empregados no País”, avalia.

Para exemplificar cita o aditivo alemão, marca Additive, há três anos no mercado interno. Em forma de grão, ao ser misturado à resina na proporção de 0,5%, em média, aumenta a fluidez do material e, conseqüentemente, a produtividade da máquina na ordem de 25%. “A maior lubrificação da resina permite aplicar menos calor no cilindro, reduzindo o tempo de resfriamento.” De acordo com Buschle, vários clientes já realizaram testes com o produto.

Otimista em relação à exposição, Buschle aposta na recuperação do mercado. “A feira vai mostrar se os transformadores realmente começaram a tirar os projetos da gaveta.” Em 2002, a HDB vendeu 25 injetoras Engel no Brasil, contra 70 do ano anterior. “Foi um período atípico”, avalia. Para 2003, vislumbra bom desempenho do setor de embalagens, peças técnicas e linha branca. Autopeças, carro-chefe dos últimos anos, deve evoluir pouco, na opinião de Buschle, devido à grande capacidade instalada. “O mercado existe e o Brasil se apresenta como um dos países mais promissores no campo da transformação de plásticos.”

Salienta ainda que não será um ano de recordes, porém bem melhor em relação ao período anterior. “Toda crise produz um vácuo e sempre chega o dia em que esse espaço tem de ser preenchido.” O empresário elogiou a mudança no calendário da feira. “A exclusão do sábado e a manutenção do horário comercial reforçam o caráter técnico e profissional do evento.” 

 

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