COMPÓSITOS RUMAM À EXCELÊNCIA NA QUALIDADE


Para chegar lá, a Asplar aposta todas as fichas no seu recém inaugurado Centro Tecnológico

Renata Bassan Pachione

O ano de 2003 será determinante para o futuro do compósito no País. O setor, segundo expectativa do presidente da Associação de Materiais Plásticos Compostos (Asplar) José Alaor Alves, ratificará seu grande potencial e mostrará ao mercado porque há tempos é promessa de bons negócios. No entanto, a indústria não deve deslanchar já neste ano. Pelo contrário, ele prevê fechar 2003 com os mesmos números de 2002. As mudanças ficarão por conta de uma nova postura do setor rumo à excelência da qualidade técnica do produto final.  Cuca Jorge
José Alaor Alves, presidente da Associação de Materiais Plásticos Compostos

O desempenho da indústria do compósito, assim como o de todas as outras, depende das condições do País. Por se tratar de um novo governo, muitos empresários estão receosos, apresentando tímidas projeções de crescimento. No caso do compósito não seria diferente. Alaor prevê neste ano repetir o faturamento de 2001 e 2002, de US$ 700 milhões. “São três anos estagnados, apesar das boas possibilidades de avanço”, analisou. Mas para os próximos cinco anos, a Asplar consegue vislumbrar aumento de vendas da ordem de 10% ao ano. 

As perspectivas para a indústria do compósito também estão atreladas a outra variável: a efetiva implantação do Centro Tecnológico de Compósitos (Cetecom), prevista para o primeiro trimestre do ano. Resultado da parceria entre a Asplar e o Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo (IPT), o centro dará início a uma nova fase do compósito, marcada pelo aprimoramento técnico do setor. “O Cetecom será um divisor de águas”, comentou Alaor. O centro foi inaugurado em 2002, mas sobretudo em função das eleições para mudança de diretoria da Asplar, a programação foi prejudicada, postergando o início das atividades para março deste ano. 

Uniformidade -“Vamos ter uma referência para o setor”. Com essa missão anunciada por Alaor, o Cetecom deve ir além da parceria com o IPT, estabelecendo acordos com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e com instituições internacionais, como o Centre Regional L´Innovat et le Transfert Technolog (CRITT), na França. A partir das parcerias firmadas, o centro vai oferecer cursos de curta ou média duração para a capacitação da mão-de-obra operacional e técnica, abrangendo os operários de chão de fábrica, supervisores e líderes. A idéia é suprir as necessidades e carências na área da qualidade de produtos.

Com o foco nas especificações técnicas, no primeiro semestre a Asplar pretende viabilizar o que seria o sustentáculo das mudanças: a certificação dos produtos. A partir da infra-estrutura do IPT, será disponibilizado às empresas o selo “Referência Técnica”. A fim de normalizar os métodos no setor de compósitos, o instituto será responsável pela realização de análises/ensaios do produto final e também, se houver interesse da indústria, das resinas. Serão elaborados textos-base que servirão como projetos de normas técnicas, a serem discutidas em comissões da Associação Brasileira de Normas Técnicas – ABNT. “A credibilidade do IPT trará ao compósito brasileiro reconhecimento tanto em nível nacional quanto internacional”, ressaltou Alaor. Com essa iniciativa, surgirão então requisitos mínimos de qualidade e por conseqüência a regularização de procedimentos e produtos do setor. 

Novo perfil- Os desafios para este ano são vários. A começar com a aproximação da indústria do compósito com o governo. Um ponto de vital importância para os próximos anos é o combate à alta tributação dos produtos acabados. A redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), cuja alíquota é de 15%, será uma das prioridades da Asplar em 2003. “O IPI é um agente inibidor”, comentou Alaor. Na verdade, o projeto já existe e neste ano será retomado com mais afinco por grupos de trabalho da associação. 

No ano passado, a Asplar assinou o termo de adesão ao Programa Brasileiro da Qualidade e Produtividade do Habitat (PBQP-H). Implantado pela Secretaria Especial de Desenvolvimento Urbano (SEDU), o acordo delega à Asplar a responsabilidade pelo Programa de Qualidade de Tubos PRFV. Na prática, os financiamentos da Caixa Econômica Federal só serão aprovados para empresas credenciadas pelo programa. 

Por enquanto, a iniciativa inclui somente os tubos, mas é grande a expectativa de expansão do programa para outros produtos acabados feitos em compósito. Responsável por um terço da produção do setor, o ramo da construção civil, segundo espera Alaor, também deve ser inserido ao programa. A previsão, no caso, refere-se às caixas d’água. Esse segmento apresenta como característica a pulverização; são mais de 200 fabricantes no País. Conforme anunciou Alaor, a Asplar já intensificou os trabalhos para em breve ampliar o PBQP-H para a indústria de caixas d’água.

Esse tipo de iniciativa, na opinião de Alaor, irá uniformizar o produto final em compósito e por conseqüência alterar o perfil do setor. Em outras palavras, no longo prazo, a participação de indústrias pouco estruturadas para atuar no mercado ficará restrita. “Como nosso setor requer baixa tecnologia, todo funcionário de fábrica é um concorrente em potencial”, disse. De acordo com avaliação de Alaor, só sobreviverá quem acompanhar o aperfeiçoamento da indústria de compósito.

Segundo dados da Asplar, no setor predominam as empresas transformadoras de pequeno porte, com até 100 empregados, representando 85% das mais de 2.300 empresas instaladas. Os principais mercados atendidos se inserem nos segmentos de construção civil, transporte, saneamento básico, indústrias químicas e petroquímicas, papel e celulose, açúcar e álcool, eletroeletrônico, aeronáutica e esporte/lazer. O maior consumo fica por conta da construção civil, com 26% do volume de compósitos produzido; em seguida vem o transporte, com 18%, e a indústria química com 17%. 

Destaques - No longo prazo também pensa-se na abertura de novos mercados. A Petrobrás pode se tornar uma importante compradora do compósito brasileiro. Em 1994 lançou o Programa de Materiais Alternativos ao Aço e hoje cerca de 20% das suas plataformas já utilizam o compósito. No entanto, a importação do produto é muito grande, sobretudo, devido à falta de boas alternativas oferecidas pelo mercado brasileiro. Mas, segundo observação de Alaor, a partir deste ano o cenário será outro, pois com a certificação do IPT, aumentam as possibilidades da Petrobrás fazer altos investimentos no compósito nacional.

O segmento de saneamento básico também promete alavancar as vendas de materiais compósitos. Em função da anunciada preocupação do governo federal em investir na área social, este segmento, de acordo com Alaor, pode crescer a ponto de superar os 10% previstos para os próximos cinco anos. O ramo de transporte público também deve seguir a mesma tendência. Alaor espera do novo governo a renovação da frota de ônibus e investimentos nos metrôs, utilizando o compósito. No entanto, tais perspectivas dependem da melhoria da qualidade do produto. “Temos de recuperar a imagem do compósito, que está arranhada. Nos últimos anos, a qualidade caiu tanto que o consumo está estagnado”, admitiu. 

Essa inércia também estará refletida no mercado interno. Segundo previsão da Asplar, neste ano as exportações não devem crescer. Primeiro é preciso aquecer o consumo de compósito em âmbito nacional, para em seguida, alcançar o mercado externo. “Não temos cultura de exportação”, ressaltou Alaor. Conforme explicou, hoje poucas empresas exportam os produtos acabados, sobretudo devido à falta de financiamento. Por isso, está nos planos da Asplar aproveitar a parceria com o Sebrae, para conseguir linhas de crédito e assim estimular a exportação. Essa é mais uma meta para 2003.

Apesar de relativo otimismo, seria utópico projetar para o País números registrados em países europeus, onde se espera crescimento de 47% de 2001 a 2005. Porém Alaor admite espelhar-se na realidade européia. Conforme explicou, o Cetecom vai justamente trazer ao País conceitos e práticas já consolidados na Europa, onde o setor conta, por exemplo, com estímulo governamental, aprimoramento constante de mão-de-obra e concorrência leal junto a outros produtos, como a madeira. Enfim, o centro pretende implantar a cultura do compósito no Brasil, assim como se vê na Alemanha e França, hoje referências para o setor. De acordo com Alaor, no final deste ano a Asplar terá condições de comemorar as atividades do Cetecom e por conseqüência o bom desempenho da indústria de compósito. 



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