TRANSFORMAÇÃO EXECUTA PLANO DE EXPORTAR PARA CRESCER


Em entrevista especial para PM, a Abiplast ataca o mercado externo para reverter o quadro de déficit na balança

Maria Aparecida De Sino Reto


Plástico Moderno – Quais são as metas e as perspectivas para a indústria do plástico em 2003, com novo governo, Brasilplast e um mega-programa de incentivo às exportações?

Merheg Cachum – Estamos bastante confiantes, acreditando nas propostas do novo governo. Mas apenas propostas não resolvem, será preciso empenho por parte de todos nós, empresários e dirigentes empresariais, colaborando com o governo no que for preciso fazer. Só criticar é muito fácil. Com relação à Brasilplast, com toda certeza será uma grande feira. Estaremos ocupando também o pavilhão novo do Anhembi, e tenho certeza que esta já é uma feira consolidada no calendário internacional como uma das grandes feiras do mundo. Iniciando o governo, se tudo estiver caminhando como nós esperamos, será um momento de crescimento e de desenvolvimento, porque o País agora precisa entrar em uma outra fase, com geração de emprego e desenvolvimento.  Cuca Jorge
Mercheg Cachum, presidente da Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast)

Desenvolvimento significa ampliar plantas industriais, gerando novos produtos, gerando emprego. enfim, é o que nós todos esperamos que aconteça: um novo País, com novas perspectivas e crescimento.

PM – Como uma entidade representante das empresas vê a vitória do partido de esquerda e as suas implicações?

MC – O fato de ser um partido de esquerda ou de direita é o que menos preocupa. Eu acho que o partido demonstrou estar muito mais do que bem intencionado, mostrando ter um bom plano de governo para todos nós brasileiros, porque está comprometido inclusive com o trabalho e com os trabalhadores. Estar comprometido com os trabalhadores significa estar comprometido conosco, porque não existe emprego sem trabalho. Não é possível manter empregado se não houver trabalho. Fala-se nesse governo naquilo que brigamos há anos, que é a reforma tributária. Infelizmente, até agora só fizeram uma colcha de retalhos, ou pequenos acertos. Nós queremos uma reforma tributária verdadeira, ampla. Nós queremos a reforma previdenciária, a reforma fiscal, enfim, todas essas reformas que foram alardeadas e não foram feitas. Nossa esperança e expectativa é que realmente ocorram essas mudanças, porque se o novo governo não cumprir o prometido perderá a credibilidade. Eu não acredito que um partido que enfrentou tanta dificuldade, que lutou tanto para chegar ao poder, não se empenhe ao máximo para mostrar que é um partido que tem planos concretos, objetivos e quer trabalhar pelo País. Hoje o Lula não é o homem do PT, ele é presidente do Brasil, e é isto que precisamos enfocar, e como presidente bem intencionado, como temos visto em todos os pronunciamentos, temos a esperança de ter um bom governo, com pessoas competentes e de credibilidade.

PM – Quais são as principais reivindicações do setor que devem entrar na pauta de discussões com o novo governo?

MC– As nossas reivindicações são as reivindicações de todos. Em primeiro lugar, reforma tributária. Em segundo, queda dos juros. Os juros cobrados no nosso País são abusivos, isso freia qualquer tipo de desenvolvimento e a iniciativa dos consumidores em comprar. Além de todas as outras reformas que devem ser feitas, como o incentivo e o trabalho gigante que precisamos fazer em relação à exportação. O Brasil dormiu em cima desse tema durante todos esses anos. Há mais de dezoito anos, eu viajo pelo mundo e falo sobre exportação, divulgando a Brasilplast, e vi países como a Coréia, Taiwan, e China se transformarem em países maiores do que o nosso, quando o nosso já exportava. A Coréia não exportava nada, não produzia quase nada, e hoje é um gigante, porque criou uma política específica para exportação. Nós estamos com planos bastante arrojados com relação à exportação de transformados. Toda a cadeia petroquímica unida, de ponta a ponta, está buscando competitividade para elevar as exportações. Vamos encontrar o caminho correto. Se nós do Brasil somos altamente competitivos em alguns setores, como é o caso das chapas, dos têxteis, do suco de laranja, dos aviões da Embraer, porque não podemos incentivar outros setores? Cabe a nós criarmos os mecanismos para reverter o quadro deficitário da balança comercial.

PM – Como deve funcionar o Export Plastic, o mega projeto de incentivo às exportações de transformados, e quais são suas expectativas de resultados?

MC
– É um projeto no qual estamos trabalhando há cerca de um ano, junto com todo o setor petroquímico. Está havendo um empenho muito grande por parte da petroquímica para que esse projeto saia das intenções e se transforme numa realidade. Será muito importante para todos nós que venhamos a exportar produtos com valor agregado, e não resina plástica. Para se ter uma idéia, do início da cadeia, se considerarmos da nafta até o produto final, agregamos valor de 10 até 40 vezes o produto inicial. Então vamos exportar aquilo que realmente agrega bastante valor, que é o produto final. Esse é o objetivo que temos em mente. Temos ociosidade no País tanto na área petroquímica como na transformação para que, sem grandes investimentos, possamos reverter a balança de deficitária, ao redor de 300 milhões, para superavitária em um bilhão de dólares.

PM – Em quanto tempo?

MC – É difícil determinar tempo. Nossa intenção é agilizar o projeto para que ele ocorra da forma mais rápida possível, porém, sabemos que não existem milagres em exportações. Há necessidade da formação do conhecimento, da cultura exportadora, dos contatos, das participações em feiras. Eu acredito que em três anos estaremos avançando bem. Acredito que no futuro não só alcançaremos o superávit de um bilhão como teremos capacidade de exportarmos muito mais do que isso, porque as plantas petroquímicas também serão expandidas. Nossas fábricas também terão que investir na aquisição de novos equipamentos, de mais tecnologia, e agregar maior número de máquinas. Vamos ser competitivos. Acho que tudo é uma questão de empenho e força de vontade. Dentro desse espírito de colaboração que está havendo na cadeia toda, não há porque o projeto não vingar.

PM – Quais são as principais medidas previstas no programa que devem incentivar as exportações?

MC – Uma das principais medidas é a busca da competitividade, para que tenhamos as condições competitivas que tem um coreano, por exemplo, quando exporta seus produtos.

PM – Que medidas devem levar a esse aumento da competitividade?

MC – O ponto de partida fundamental é o sistema tributário, pelo qual já estamos brigando e algumas medidas já estão sendo tomadas, outras serão feitas no governo Lula, mesmo porque ele já vem declarando que haverá grande empenho em relação às exportações. Eu mesmo já preparei um trabalho junto com a Unicamp, o qual estarei entregando ao ministro do Desenvolvimento, ao ministro da Fazenda, à Receita Federal, ao próprio presidente Lula, para mostrar o quanto é importante o setor do plástico e como tem muitas chances de competir com qualquer país do mundo. Evidentemente, teremos que modernizar o parque industrial, e para isso precisaremos de financiamento com muito mais facilidade. Hoje, existe uma burocracia gigante para se obter um financiamento. Qualquer comprometimento tributário do interessado é um obstáculo para obtenção de certidão negativa. Sem essa certidão, não existe acesso ao financiamento do Finame. Então, todo esse quadro deverá ser redesenhado, porque todos os setores foram penalizados por um sistema tributário inadequado. Precisamos encontrar equações corretas, porque hoje a grande maioria das empresas enfrenta dificuldades com problemas em relação ao Fisco, com atrasos, inadimplência. Eu não acredito que o empresário brasileiro tem interesse em ser um sonegador ou um inadimplente. Junto com os trabalhadores, somos nós que estamos construindo esse País.

PM – O programa de exportação também contempla as resinas? Não há o risco de voltar a faltar resina no mercado nacional?

MC – Não existe o risco porque esse programa está sendo elaborado junto com os produtores de resinas. Se tivéssemos que importar resina seria ruim para o País, porque estaríamos criando um buraco na balança comercial. Nós temos que ter uma relação de parceria. A palavra chave é parceria, entre a transformação, o produtor de resina e toda a cadeia.

PM – O senhor tem previsão de quanto esse programa deve reverter positivamente na exportação de artefatos plásticos no próximo ano?

MC – É difícil, por enquanto, falarmos em números, mesmo porque o programa estará começando agora. Nós vamos lutar para que a reversão seja a mais rápida possível, para chegarmos ao ponto zero, e de zero em diante é superávit. A substituição de importações deve ser muito trabalhada. Temos produtos hoje importados e que podem ser produzidos no País.

PM – Quanto se importa hoje de artefatos plásticos?

MC – Entre importação e exportação, estimo 800 milhões de importação contra 500 milhões de exportação. estou falando em números redondos. Se conseguirmos diminuir 20% nas importações, já serão 160 milhões acrescidos do outro lado. Só com isso quase chegaremos ao zero.

PM – No aspecto tecnológico, em que estágio se encontra a transformação hoje e quais são os projetos para o próximo ano?

MC – Temos hoje indústrias no Brasil que têm tecnologia de ponta, equipadas com as máquinas e moldes mais modernos, e aptas a competir em qualquer parte do mundo. Agora, existe um grande número de empresas que terão, sem sombra de dúvida, de atualizar seu parque industrial com máquinas de alto nível tecnológico e jogar as máquinas obsoletas no lixo, essas máquinas antigas terão que ser sucateadas, e dentro do Fórum da Competividade isto também foi acertado. Mas as dificuldades na obtenção dos financiamentos não permitiram o avanço na substituição de equipamentos por outros com tecnologia de ponta. A China é um grande produtor de máquinas de todos os tipos, mas as fábricas chinesas compram máquinas de ponta produzidas na Europa, as mais avançadas do mundo. Qual é a visão deles? Que eles produzirão para exportar e precisarão ser competitivos. Essa é a visão que temos que ter no Brasil. Ao invés de ter três máquinas é preferível ter uma que seja top em tecnologia, do que ter três com recursos médios, que não possibilitam produzir com competitividade. Competitividade na ponta final é preço e qualidade.

PM – Mas a maior parte das cerca de 7.000 indústrias de transformação espalhadas pelo País são pequenas empresas, sem cacife para altos investimentos. Quais são os planos para reverter esse quadro e fortalecer a indústria nas exportações?

MC – Não é uma missão impossível. Se usarmos a criatividade, tudo fica mais fácil. A idéia é começarmos a nos unir, transformando várias pequenas empresas em médias empresas. Quem é o dono? Não importa.

PM – O senhor acredita que isso já vá acontecer em 2003?

MC – É uma cultura que, sem dúvida, tentaremos implantar.

PM – Dentre essas cerca de 7.000 empresas, quantas o senhor acredita tenham hoje condições para exportar?

MC – Eu não tenho o número definido por enquanto, mas se chegarmos a um número otimista de apenas 10%, eu já me dou por feliz.

PM – Comente sobre a parcela de contribuição de cada parte envolvida nesse projeto: transformação, produtor de resina, Petrobrás, governo.

MC – É um projeto da Apex, de US$ 3 milhões, em estudos finais para aprovação, no qual a Apex entra com 50%, resinas com 38%, e a transformação com 12%.

PM – Quais os principais destinos para esses US$ 3 milhões?

MC – Esse montante se destina a divulgar o produto plástico no exterior, a financiar a participação dos transformadores em feiras internacionais setoriais, como feiras de utilidades domésticas, feiras de construção civil, da linha de embalagem e tantas outras. Nas feiras agilizaremos o programa todo, porque é o contato imediato, com milhares de compradores potenciais. A maior parte das despesas do transformador será bancada pelo governo e pelo setor petroquímico, oferecendo uma oportunidade inédita para participação em diversas feiras importantes no mundo.

PM – Além do aspecto financeiro, que outros tipos de contribuição as partes envolvidas terão no programa?

MC
– Apoio, assistência e orientação às empresas.

PM – Em que estágio se encontra o Fórum da Competitividade e quais são as metas do programa para 2003?

MC
– O Fórum da Competitividade foi um projeto muito grande do governo, no qual trabalhamos bastante e, evidentemente, obtivemos alguns resultados. O que barrou o Fórum foi a impossibilidade de obtenção de financiamentos por parte das empresas, tendo em vista que havia disponibilidade de dinheiro. Na primeira parte do projeto tínhamos disponíveis ao redor de 9, 3 bilhões de dólares. O projeto foi reestudado no ano passado e reduzido para cerca de 6,3 bilhões. Porém as dificuldades das empresas em ter acesso aos financiamentos, devido a inadimplências e impossibilidade de obter a certidão negativa, criaram uma barreira automática para que as coisas não ocorressem como estávamos prevendo. Além disso, tivemos várias crises, o apagão, o 11 de setembro, a crise da Argentina. Tudo isso contribuiu para prejudicar o nosso País e saímos prejudicados também no próprio Fórum. Como aspecto positivo, porém, tivemos a criação da OMS, uma organização certificadora dentro do Instituto Nacional do Plástico, que eu entendo como um grande ganho conquistado para o setor, porque o produto certificado tem outras condições, tanto no mercado nacional como internacional. Espero que o novo governo aproveite esta cultura, ou filosofia, que está sendo tratada como Fórum, ou como Cadeia Produtiva, independente do nome.

PM – E quais são as metas para o próximo ano dentro desse programa?

MC
– Eu já tenho um trabalho elaborado pela Unicamp que embute toda a visão do setor, mais a visão junto com o Fórum, que eu considero algo que não pode ser abandonado. Estarei entregando para o ministro do Desenvolvimento, da Fazenda, ou ao próprio presidente Lula, para mostrar o que realmente é o setor do plástico e o seu potencial.

PM – Quanto o senhor estima deva ser investido na modernização no parque transformador em 2003?

MC
– Esse número, com toda franqueza, é muito difícil. Eu poderia dizer que nós temos que investir alguns bilhões de dólares no decurso de alguns anos para termos uma indústria da transformação altamente competitiva. Nós tínhamos o nosso projeto dentro do Fórum que era de 9,3 bilhões, foi modificado para 6, 3 bilhões até o ano 2008, mas não adianta ter recursos sem acesso a eles.

PM – Na sua opinião, o parque industrial transformador precisaria substituir quantas de suas máquinas?

MC
– A nossa previsão dentro do estudo feito no Fórum está ao redor de 45 mil máquinas. É um número muito grande, talvez 60% do parque industrial.

PM – Fale um pouco mais sobre suas expectativas para a Brasilplast.

MC
– Expectativas de se ter uma feira com resultados ainda melhores que 2001, em um momento muito bom do País, com resultado espetacular para os fabricantes de máquinas. Porém, logo após a feira, começamos a ter problemas no mundo todo. Esperamos que mude o cenário, com a esperança de crescimento do País. A Brasilplast, hoje, eu diria que é a quinta maior do mundo. porém na classificação divulgada pelos americanos no jornal da feira NPE, em Chicago, a Brasilplast é considerada a terceira melhor feira do mundo. Na classificação dos americanos, conta qualidade de expositor, do visitante, e não o tamanho da exposição.


PM – Durante coletiva no almoço de confraternização do setor, o senhor estimou em cerca de 4% o crescimento da transformação neste ano, em relação a 2001. Quais são as metas para 2003?

MC
– Senão em 2003, mas o mais breve possível, espero que possamos voltar a ter o crescimento que nosso setor sempre teve, a média de 10% ao ano. Infelizmente, em 2001 e 2002 não atingimos esse número. Espero voltar a alcançar os 10% e superá-los. Com esse projeto de exportação, tenho uma expectativa muito boa para o setor dentro em breve. Não dá para dizer que o primeiro ano fará já uma diferença muito grande, mas acho que no segundo dará para sentir, e no terceiro muito mais.


PM – Qual a maior realização que o senhor gostaria de ver concretizada no setor no próximo ano?

MC
– Que o setor tenha sua capacidade total operante e com resultados. Minha maior realização não é nem faturamento, é resultado. Será saber que as indústrias estão obtendo resultados com seus produtos, se transformando em empresas sólidas e cada vez menos dependentes do setor financeiro.

PM – Qual é a sua mensagem para o setor?

MC
– De otimismo e esperança e de um Brasil muito melhor para todos nós, para as novas gerações que estarão nos sucedendo. 





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