BENS DE CAPITAL CRIAM NOVAS ESTRATÉGIAS DE EXPANSÃO


Projetos incluem auxílio para tornar indústria mais eficiente e competitiva no mercado internacional

Simone Ferro

Depois de um ano conturbado, principalmente a partir do segundo semestre, a Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) renova as expectativas de crescimento, toca seu projeto de reestruturação e costura os últimos detalhes da proposta de política industrial a ser entregue ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A primeira ação, anunciada em janeiro, foi a criação da Clínica de Gestão, espécie de consultoria encarregada de aumentar a eficiência das indústrias de bens de capital mecânico a partir da adoção de modernas técnicas de administração.

O trabalho, a cargo de consultores especializados, começa com visita às empresas para detalhado diagnóstico das operações e conseqüente proposta de ações. O grupo integra a diretoria de Desenvolvimento Tecnológico e Modernização da Gestão. A entidade pretende desenvolver outros programas do gênero, focando principalmente o aumento das exportações. “Outras propostas estão no forno”, afirma o presidente Luiz Carlos Delben Leite, sem antecipar mais detalhes.

Cuca Jorge
Luiz Carlos Delben Leite, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq)

Diante desse cenário, a Abimaq começa 2003 com pelo menos uma convicção: a de estar no caminho certo. Os números são preliminares, mas a entidade estima em 8% o crescimento do setor de bens de capital mecânico em 2002. O resultado, considerado positivo quando comparado ao desempenho de outros setores da economia, reflete conquistas importantes dos fabricantes de máquinas.

As importações caíram cerca de 15% e a participação da indústria nacional no mercado brasileiro passou de 59% em 2001 para 65% no ano passado. Os dados conjunturais da entidade demonstram ainda que continua em curso a substituição competitiva de importações no setor. As vendas de máquinas e equipamentos estrangeiros caíram 14,81% no acumulado de janeiro a novembro de 2002 em relação ao ano anterior. Já as exportações aumentam 1,31% no mesmo período.

Mesmo com a queda de cerca de US$ 500 milhões nas exportações para a Argentina, as vendas externas cresceram entre 2% e 3% com a conquista de mercados alternativos como China, países do Oriente Médio, África do Sul, México e Venezuela, entre outros. Além disso, a Abimaq detectou expressivo aumento das vendas externas também para os países desenvolvidos. Fato que, na avaliação de Delben Leite, demonstra o alto nível de competitividade da indústria local.

Para os Estados Unidos, a variação foi de 28,24%; para o Canadá, 23,61% e para o Reino Unido, 83,99%. A entidade destacou também a participação da Bolívia (+85,6%), Peru (56,44%), Índia (+38,49%), África do Sul (+21,34%) e China (+18,01%). Com isso, a balança comercial apresentou melhoras. No acumulado do ano, a queda atingiu 30,4%, passando de um déficit de US$ 3,425,30 milhões (janeiro a novembro de 2001) para US$ 2.384,18 milhões (janeiro a novembro de 2002). No acumulado em 12 meses a queda alcançou 30,36%.

Os números finais devem ser divulgados apenas em fevereiro, mas já surpreendem em decorrência do alarmante panorama econômico registrado no segundo semestre do ano passado. “O setor alcançou conquistas significativas e mostrou a sua importância para a economia do País na geração de empregos, distribuição de renda, desenvolvimento de novos produtos e consolidação das exportações”, avalia Delben Leite. Agora a entidade espera o retorno.

Política industrial – No final de fevereiro, a entidade vai entregar completo documento ao governo federal, desenvolvido com base em ampla pesquisa setorial. O estudo, divulgado no início de dezembro no Seminário Rumos da Competitividade – Uma Política Industrial para o Setor de Máquinas e Equipamentos, foi realizado junto aos 20 segmentos dos 36 setores representados pela entidade.

Em fase de conclusão, o documento aborda questões importantes para o desenvolvimento do setor nos próximos anos, principalmente com vistas à criação de políticas industriais capazes de atender às peculiaridades de cada segmento. “Estabelece propostas para correção das distorções verificadas tanto nos setores mais competitivos, quanto nos promissores e nos menos desenvolvidos”, avalia.

Compara o desempenho da indústria nacional de bens de capital mecânico com os mercados dos Estados Unidos, Canadá e México, visando criar oportunidades de competição na Área de Livre Comércio das Américas (Alca), o incremento das exportações de modo global, a geração de empregos e a inclusão de novas tecnologias.

Na avaliação de Delben Leite, o custo do capital, a formação e capacitação da mão-de-obra, e a modernização tecnológica representam o maior problema da indústria de máquinas. Sendo assim, o documento deverá propor também a criação de instrumentos de capitalização das empresas via fundos de pensão e do mercado de capitais, além de novos caminhos para financiar o parque industrial brasileiro. “O País deve criar o ambiente necessário para promoção da inovação tecnológica, dando a esse aspecto uma dimensão completamente diferente da adotada até agora, compreendendo que a tecnologia se faz no campo da produção, carro-chefe do processo de inovação.”

Para Delben Leite, só assim o Brasil conseguirá ocupar lugar entre os países mais competitivos do mundo, a exemplo do que fez a Alemanha, os Estados Unidos e Itália, e do que vêem fazendo a Coréia e Taiwan. “Precisamos de ações que permitam ao País desenvolver tecnologias próprias e inovar no mundo.”

Perspectivas – As previsões para 2003, embora cautelosas, confirmam a manutenção do crescimento. Na avaliação de Delben Leite a participação do fabricante nacional no mercado interno deve chegar a 70%. Aumentar o faturamento anual em torno de 5% a 6% também não será difícil, porém o setor deve se preparar para enfrentar um primeiro semestre retraído.

A entidade prevê queda de faturamento entre 2% e 3% nos primeiros seis meses do ano em decorrência da redução no volume de encomendas. “A carteira de pedidos caiu de 22 para 16 semanas”, confirma. Porém, o presidente da Abimaq aposta na recuperação a partir do segundo semestre. “A queda do dólar, logo nos primeiros dias do ano, sinalizam a retomada dos investimentos e o aumento da credibilidade do País, fatores que impulsionam a venda de máquinas e equipamentos.”

As estatísticas mais recentes, divulgadas em meados de janeiro, demonstram tendência de crescimento em novembro tanto em faturamento quanto nas exportações, registrando ainda desempenho positivo nas variáveis de emprego e nível de utilização da capacidade instalada.

Os indicadores da Abimaq apontam crescimento de 12,8% no faturamento de novembro em relação a igual período do ano anterior, com movimento de R$ 31,43 bilhões contra R$ 27,86 bilhões em 2001. As máquinas para o processamento de termoplásticos cresceram 16,3%, atrás dos segmentos de máquinas e implementos agrícolas com 34,6% e mecânica pesada com 28,1%. Os sub-setores de madeira e gráficos caíram 6,6% e 0,1%, respectivamente.

Já a ocupação da capacidade instalada cresceu 1,9% em comparação a novembro de 2001, alcançando o índice de 80% no mês. No acumulado até novembro, houve um crescimento de 0,9%. Com isso, o índice de ociosidade caiu de quase 23% para pouco mais de 21%, comparando os períodos de janeiro a novembro dos dois últimos anos.

Houve pequena queda no nível de emprego em novembro, da ordem de 0,1% em relação ao mesmo mês do ano passado. Já no acumulado do ano, mantém-se ligeira elevação de 1,96% passando de 172.922 trabalhadores para 176.312 trabalhadores. 



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