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Ano difícil freia
consumo de resinas

A pesar das perspectivas favoráveis que dominaram as análises do cenário econômico no início do ano, o desempenho do setor de resinas termoplásticas foi decepcionante em 2002, principalmente levando-se em conta que o crescimento do consumo aparente no ano, estimado em 2,64%, está muito aquém da média histórica do segmento nos últimos dez anos, ao redor de 10%. 

Em sua última entrevista coletiva à frente da presidência do Sindicato da Indústria de Resinas Sintéticas no Estado de São Paulo (Siresp), Jean Daniel Peter lembrou que os indicadores macroeconômicos eram bastante favoráveis no início do ano. Além disso, a crise argentina parecia não contaminar a economia brasileira – como, de fato, não contaminou – e havia a expectativa, não confirmada, do aquecimento da economia nacional em virtude da realização das eleições. Mas, segundo Peter, “o primeiro semestre de 2002 foi trágico, muito difícil. Percebemos uma retomada tímida, a partir de agosto, mas que só recuperou os números do passado”. Peter demonstrou preocupação com a baixa demanda por resinas plásticas e a pequena recuperação dos preços que, na prática, “andaram de lado”. Para piorar, a alta do dólar e, conseqüentemente, do petróleo, pressionou os custos das matérias-primas petroquímicas e achatou ainda mais as margens do negócio. Tal cenário não poderia acalentar muitas esperanças para o próximo ano: “Nossa perspectiva para 2003 não é muito favorável”, declarou Peter, embora assumindo que o ano deva ser melhor que o atual, com crescimento do consumo aparente estimado em cerca de 6%. O crescimento nos próximos dois anos deve ser alavancado pelo esforço exportador conjunto da cadeia de plásticos, que buscará reverter o déficit comercial anual do setor ao redor de US$ 1 bilhão. O programa conta com verba de cerca de US$ 3 milhões e prevê crescimento de 20% nas exportações brasileiras de resinas termoplásticas em 2003. 

Cuca Jorge Apesar do fraco desempenho global do setor, entretanto, os polietilenos tiveram recuperação muito boa nos últimos meses do ano, segundo o primeiro vice-presidente do Siresp, José Ricardo Roriz Coelho, devido ao bom desempenho das embalagens plásticas no mercado interno, bem como do mercado automotivo (tanto na venda de carros como de autopeças). 
Roriz assumirá a presidência do Siresp: Peter (esq.) está de saída 

Contribuiu indiretamente a alta do dólar, responsável por inibir as importações, favorecer processo de substituição e estimular as exportações. Acerca da valorização da moeda americana, Roriz disse que favorece as exportações de algumas resinas, notadamente os polietilenos e o poliestireno, cujas capacidades instaladas são bastante altas e excedem a demanda nacional.

O PVC, muito utilizado no mercado de construção civil, também teve desempenho razoável em 2002, ao lado do polipropileno, muito ligado aos setores de eletroeletrônicos, indústria automobilística e embalagens.

De acordo com os números divulgados pelo Siresp, relativos ao período compreendido entre janeiro e novembro de 2002, as exportações de poliestireno cresceram quase três vezes em comparação à 2001, de cerca de 15 mil toneladas para pouco mais de 46 mil toneladas nesse ano. O salto, não obstante, não é suficiente para compensar o excesso de capacidade instalada no País, de modo que as exportações da resina devem crescer ainda mais em 2003. Mas Roriz não arrisca palpite de números. “Como a fábrica da Videolar em Manaus entrou em operação há pouco tempo não é possível arriscar números”, disse. Considerando-se todas as resinas termoplásticas, houve aumento de cerca de 15% nas exportações em 2002. 

A demanda muito alta na China favoreceu os embarques com destino ao continente asiático, em detrimento à América Latina, antigo principal destino das vendas externas. “Só o PIB do Peru cresceu na região em 2002. Na 
Argentina, o mercado de resinas caiu em média 35%”, explicou Roriz. 
O Siresp já definiu o seu foco principal em 2003: a luta por matérias-primas competitivas em escala mundial, um dos principais entraves ao setor, ao lado da pesada carga tributária, que onera a produção, e a falta de isonomia tributária, que tolhe a competitividade dos plásticos perante materiais concorrentes. “Os maiores investimentos em petroquímica nos últimos anos foram feitos em locais onde havia grande disponibilidade de matérias-primas a baixos custos, como no Kuwait e Arábia Saudita, ou em regiões de grande crescimento da economia, caso da China e do Sudoeste Asiático. No Brasil não há nenhuma dessas condições”, declarou Roriz. A possibilidade de uma guerra entre o Iraque e uma coalisão internacional liderada pelos Estados Unidos, além da falta de perspectiva de uma solução rápida para os graves problemas da Venezuela preocupam Jean Daniel Peter, pois os preços da nafta, derivada do petróleo, certamente subiriam ainda mais. A crença, no mercado, de que um ataque esteja sendo preparado para meados de fevereiro, já elevou as cotações do barril de petróleo para cerca de US$ 30 no mercado futuro. A elevação da taixa Selic, entretanto, parece não ter grande efeito sobre o setor, segundo Roriz. “A elevação da taxa básica de juros reprime a demanda por automóveis e eletrodomésticos, mas redireciona os gastos com alimentação”. Ou seja, pode-se esperar um efeito compensatório no consumo global de resinas. 

Jean Peter não prosseguirá exercendo as funções do atual mandato, com término previsto para 2004 – o atual presidente renunciará, e assumirá o posto, em primeiro de janeiro, o atual primeiro vice-presidente, José Ricardo Roriz. Peter justificou a saída pelo fato de não atuar mais na indústria petroquímica, após 35 anos dedicados ao setor. O ex-presidente da Union Carbide no País passa a dedicar-se exclusivamente ao comando da Globe Química, empresa de química fina – produz insumos para a indústria farmacêutica – formada após a compra da planta da Sanofi Synthelabo, em Cosmópolis-SP. Com mais de vinte anos, a planta foi adquirida por um grupo de empresários brasileiros em abril de 2001, e produz, entre outros insumos, ácido acetilsalicílico, anfepramona e propanolol.
Márcio Azevedo


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