FEIRA ENCOLHE MAS APOSTA NA RECUPERAÇÃO ECONÔMICA

Reduzidos a menos da metade e acomodados em apenas dois dos cinco pavilhões, os expositores exibiram fé em dias melhores


TEXTOS E FOTOS DE SIMONE FERRO

Entre cancelar ou adiar a 9ª Exposição Internacional do Plástico – Argenplás 2002, marcada inicialmente para maio, os organizadores ficaram com a segunda opção. Realizada de 18 a 23 de novembro, a mostra registrou diversas baixas, a começar pelo número de expositores: 160 contra 475 da edição anterior, em 2000, número suficiente para ocupar apenas dois dos cinco pavilhões da Sociedade Rural Argentina, no bairro de Palermo, em Buenos Aires. A polêmica decisão, em meio a maior crise econômica e política do país, foi um dos principais assuntos nos corredores do evento.

Para o presidente da Câmara Argentina da Indústria Plástica (Caip) Hector A. Méndez, a iniciativa respeitou o compromisso assumido com os expositores, além de evitar a realização da feira no mesmo ano da Brasilplast (março de 2003), ou o seu adiamento até 2004, período considerado longo demais. “O evento comprova o potencial da indústria do plástico na Argentina e o seu grande poder de recuperação diante de um panorama tão sombrio”, acredita. Em seu discurso, na cerimônia de abertura, Méndez falou sobre a situação atual do país: “A crise não é só econômica, como tantas outras já vividas, mas atinge o plano institucional, político, social e cultural.”

 

Divulgação Ressaltou, no entanto, o empenho do setor em realizar o evento. “A indústria argentina, apesar de tudo, está de pé. Com grande esforço, austeridade e seriedade, as empresas expositoras demonstram que não perderam seu potencial de crescimento”. Dentro desse contexto, a mostra pontuou duas questões importantes. A primeira refere-se ao lançamento do programa de promoção das exportações Exportplast. A outra, à pequena recuperação de alguns segmentos como o de calçados, indústria praticamente desativada até o ano passado.
Bravo vê pequena retomada nos calçados


A ausência de grandes companhias petroquímicas, como a Solvay Indupa, e o reduzido número de máquinas em exposição desfalcaram o evento. A Solvay, com plantas instaladas no Pólo Petroquímico de Bahía Blanca, na Argentina, e em Santo André-SP, produz 284 mil t/ano de soda cáustica e 450 mil t/ano de policloretro de vinila (PVC). A produção argentina da resina vinílica ficou em mais de 150 mil t e o consumo interno, próximo das 100 mil t. O supervisor de comércio exterior da PVC Tecnocom, fabricante de compostos de PVC, Omar Bravo ressaltou a pequena recuperação do segmento de solados para calçados: “Nos últimos anos, a grande importação de sapatos, principalmente do Brasil, desativou a indústria local. Estamos começando praticamente do zero.”

Em outubro, 50% das vendas da empresa atenderam ao mercado de solados. De acordo com Bravo, a demanda argentina de compostos de PVC somou cerca de 4.500 t/mês, contra 6 mil t/mês, entre 1996 e 1997. No ano passado foi ainda menor: 4 mil t mensais. A Tecnocom tem capacidade para produzir até 4 mil t/mês, mas opera com ociosidade de mais de 55%. Nos últimos meses, o volume permaneceu entre 1.500 t/mês e 1.800 t/mês, com as exportações na casa das 300 t/mês, principalmente para o Brasil, Paraguai e Chile.

O principal destaque da empresa na feira foi o composto de PVC microexpandido, marca Microtech, fabricado sob a licença da Sovere, da Itália, com exclusividade para o Mercosul. “Trata-se de material de última geração, extremamente leve e com aplicação exclusiva para solados, capaz de garantir boas características mecânicas e de densidade”, informa Bravo.

Em 1999, a empresa inaugurou a nova fábrica em Pablo Podestá, província de Buenos Aires, com 10 mil m². Sua capacidade produtiva se completa com a unidade instalada no Parque Industrial Norte, província de São Luis, também com 10 mil m2 de área. A Tecnocom fornece grande variedade de compostos de PVC rígidos e flexíveis, em pó ou em forma de pellets.

PP e PS – Dividindo o mesmo estande, a Petroquímica Cuyo e a Innova, empresas do grupo Perez Companc (Pecom), reforçaram o caráter institucional do evento. Recém adquirida pela Petrobrás, por US$ 1,027 bilhão, segundo informações da grande imprensa, a Pecom atua nas áreas de exploração e produção de petróleo e gás, distribuição de derivados, transporte e refino, além da geração e distribuição de energia.

Além da integração na exploração, distribuição e refino, onde as companhias têm estratégias comuns e operações complementares, a aquisição permitiu à Petrobrás estabelecer base petroquímica na Argentina. A Pecom produz polipropileno (PP), poliestireno (PS) e borracha sintética. A Petrobrás já anunciou que vai exercer o controle da companhia e prepara a integração de seus negócios na Argentina.
São duas plantas de PS com capacidade para 185 mil t/ano. Na Argentina, a Pecom Energia – Divisão Estirênicos responde pela produção de 110 mil t de estireno, 65 mil t de PS, 56 mil t de borracha sintética e 14 mil t de poliestireno biorientado (BOPS). No Brasil, a Innova, instalada no Pólo Petroquímico de Triunfo, em Porto Alegre-RS, tem capacidade para 250 mil t de estireno e 120 mil t de PS. 

O diretor comercial da Innova Marcelo Calil Bianchi estima em 35 mil t a demanda da resina na Argentina em 2002, retração superior a 25% em relação ao ano passado. “A Pecom tem 80% de participação no mercado local”, calcula. Já o brasileiro deve encerrar o ano com resultados muito próximo aos de 2001: “O consumo ficará em torno das 300 mil t, com participação entre 28% e 30% da Innova.”
Bianchi: retração na demanda de poliestireno superou 25% no ano

 

O mercado argentino de PP é disputado por dois produtores: a Petroquímica Cuyo e a Petrokem, ausente da exposição. Segundo estatísticas da Caip, o consumo aparente da resina superou as 163 mil t em 2001, quase 15% menos em relação a 2000. “A tendência de baixa se mantém”, afirma a gerente de planejamento e desenvolvimento da Cuyo Elida M. Fernandez. Até novembro, o consumo permanecia na casa das 140 mil t, contra uma média anual de 180 mil t. Em contra-partida, a Cuyo aumentou as exportações para o Oriente: “Vendemos 30% da produção para outros países.” Em 2001, as vendas externas representaram 20% do total comercializado pela empresa.
Elida: tendência de baixa se mantém no PP

Na Argenplás, além do PP marca Cuyolen, a Cuyo divulgou a linha Cuyotec (polipropileno/etileno/buteno), lançada em agosto. As novas polieolefinas especiais destinam-se, segundo o fabricante, a aplicações específicas em embalagens flexíveis (BOPP, cast e blown), construção civil (tubos) e autopeças e garantem melhores qualidades de fusão, entre outras propriedades.

Mais resinas – De acordo com informações da Caip, o consumo aparente de resinas na Argentina superou a casa de 1 milhão t em 2001, contra mais de 1,13 milhão do período anterior. A entidade estima que a tendência de queda se manteve e a demanda deve fechar em baixa em 2002. A Argentina possui dois pólos petroquímicos: o de Baía Blanca, no extremo sul da Província de Buenos Aires, a 700 km da Capital, e o de Santa Fé, na região central do País.

Apesar o cenário nebuloso, as indústrias de primeira e segunda geração aproveitaram o evento para divulgar seus produtos de linha. Dentre as petroquímicas brasileiras, as presenças da Triunfo, Ipiranga, Politeno e Braskem tiveram grande destaque e importância. A Braskem, holding brasileira que incorporou os ativos químicos e petroquímicos dos grupos Odebrecht e Mariani, é representada na Argentina pela Altaplastica. Para a empresa, a Argenplás cumpriu seu papel institucional. “Nossa presença na feira tem como objetivo principal informar os clientes locais sobre as mudanças na composição acionária, além de divulgar os produtos de linha”, informa Marcos Augusto Oliveira, da área de produtos e serviços.
Oliveira: destaque foi os produtos de linha

Com quatro unidades de negócios poliolefinas (polietileno de ultra alto peso molecular, PEBD, PEMDL, PEBDL, PEAD e PP), vinílicos (PVC e soda/cloro), poliéster (PET) e petroquímicos básicos (eteno, propeno, benzeno, tolueno, etc.), a Braskem ainda passa por um período de reestruturação das atividades, após a efetivação do negócios no segundo semestre deste ano. “Trata-se da maior petroquímica da América Latina, classificada entre as cinco maiores industrias de capital privado.”

A Braskem responde por 34% da produção brasileira de petroquímicos básicos, 31% dos PEs, 39% do PP e 51% do PVC. A integração incorporou também a planta de PET da antiga Proppet, instalada no pólo baiano de Camaçari. Segundo Oliveira, os polietilenos representam 90% das vendas da empresa na Argentina, enquanto o PVC corresponde a 10%. “No início do ano, as vendas caíram cerca de 50%. Porém, o mercado já iniciou pequena recuperação”, acredita.

A Politeno também se manifestou favorável ao fortalecimento do Mercosul. Para o diretor comercial Hélio Viveiros, o momento é de crescimento. “Estamos otimistas em relação ao futuro da Argentina e desenvolvimento do bloco comercial entre os países do Cone Sul. O governo eleito deve reforçar a vocação do País para as exportações e o aumento da atividade industrial. Isso deve alavancar as indústrias não só na exportação de resinas com também de produtos transformados”, diz ele.

Segundo Viveiros, o Mercosul teve nos últimos anos destacada importância para a Politeno. Na exposição, a empresa divulgou suas resinas de linha. Para o assessor de planejamento e marketing Jorge Alexandre, a participação na Argenplás e a recente conquista do Prêmio Nacional de Qualidade, que confere à entidade o título de Empresa Classe Mundial, tornam o momento muito oportuno para reforçar o posicionamento das resinas especiais da Politeno na região.

Dentre os produtos, a exposição destacou a linha Evateno, de compostos de EVA para solados, hot melt e filmes; as resinas para rotomoldagem; os PELBD e PELMD, marca Lintech, à base de octeno, com aplicações nos segmentos de embalagens mono e coextrudadas, laminação, fraldas, filmes stretch e sacaria industrial; as resinas de alta fluidez para injeção e produção de masterbatch; e a linha Suplex de compostos especiais. A Politeno é controlada pelo grupo Suzano, Copene Participações, Sumitomo Chemical Co. e Itochu Corporation, e possui duas unidades com capacidade para até 360 mil t de resinas/ano. Ao todo são 56 resinas divididas em seis famílias de produtos.

A GE Plastics colocou em exposição o novo Fusca para demonstrar as aplicações de algumas de suas resinas de engenharia. De acordo com o especialista em desenvolvimento de mercado da unidade argentina Fernando Pablo Garcia, o modelo contém dez itens confeccionados em plástico, entre eles os pára-lamas, faróis dianteiros, partes do painel de instrumentos e elementos do motor. “O projeto da Volkswagem foi desenvolvido em parceria com a GE”, salienta.
Garcia: plásticos de engenharia no novo Fusca

Na planta de Tortuguitas, província de Buenos Aires, a GE tem capacidade para produzir 4 mil t/ano. Entre os produtos em exposição, Garcia destaca o Noryl PPX. “Confere a mesma estabilidade dimensional do Noryl tradicional, porém com maior resistência química”, afirma. A resina permite ainda moldagem por injeção, sopro e termoformagem. O uso da resina em pára-choques garante vantagens adicionais na avaliação do fabricante, principalmente em relação à facilidade de pintura, quando comparado ao PP. “Confere maior estabilidade dimensional e rigidez.”

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