Capital da reciclagem - A escolha de Porto Alegre para sediar o 3º Recicle Show foi explicada pelo fato de a capital gaúcha se constituir na campeã nacional em reaproveitamento de resíduos sólidos. São 60% das 50 toneladas diárias, recolhidas por nove unidades regionais de separação, reunidas na forma de cooperativas, administradas pelas associações de bairro e centralizadas por uma Federação. “A Dinamarca, país considerado modelo mundial, processa 40% do lixo produzido”, lembrou o diretor-geral do Departamento Municipal de Limpeza Urbana Darci Campani.

Com relação ao plástico, a prefeitura de Porto Alegre registra um avanço ainda maior. Há dois anos começou a construção da Usina de Reciclagem do Distrito Industrial da Restinga, o bairro mais afastado da região central da cidade. A um custo de R$ 1 milhão, a unidade industrial está pronta e já conta com os equipamentos de lavagem. 

Os aglutinadores e moinhos estão montados. Falta apenas a construção do reservatório para tratamento de efluentes, última etapa da obra, para recircular a água industrial. Quando estiver operando, a usina irá recuperar perto de 80 t/mês de PET. Com capacidade para reciclar 100 t/mês de resinas, a unidade irá disponibilizar mais 20 t/mês de flakes de polipropileno e polietilenos.

A usina de reciclagem da Restinga será abastecida pelo plástico prensado nas nove unidades de separação. “Como o dinheiro é público, a Prefeitura irá supervisionar e fiscalizar o funcionamento da usina”, afirma o engenheiro André Machado, coordenador do projeto. Segundo ele, o PET dessas unidades de separação é prensado e vendido a R$ 0,40 o quilo para empresas que dispõem da tecnologia necessária para completar a reciclagem. 
Quando for vendida em flakes, já pronta para a transformação, a resina irá custar em torno de R$ 1,70 por quilo. “Nós queremos agregar valor ao produto”, diz Machado. “É uma obra pública e os investimentos aqui ocorrem por licitação”, emenda, ao justificar a demora na entrada em operação da recicladora. A previsão é de que no máximo em seis meses, pelo menos a unidade de reciclagem de PET entre em operação.

Para o gerente-executivo do Sinplast/RS Paulo Dias, Porto Alegre conseguiu introduzir um sistema correto de separação de resíduos sólidos. No entanto, ele considera importante que o material reciclado pós-consumo seja aplicado em nichos específicos de mercado. Como exemplo, cita o uso de polietilenos recuperados na plasticultura, empregado como cobertura de solo, onde não existe o risco de contaminação dos alimentos. “Para a cobertura das estufas já não serve porque você precisa de uma resina de alta qualidade, descontaminada, aditivada por substâncias que regulem a entrada dos raios solares e que prolonguem a vida útil do material, sem colocar em risco a qualidade sanitária dos vegetais”, explica. Como uma tendência de mercado, o executivo do Sinplast aponta para uma diminuição do PVC no mercado de garrafas plásticas para água mineral. “O polipropileno tomou conta neste nicho e isto me parece irreversível”, defende Dias.

A experiência da reciclagem no Rio Grande do Sul atinge também os pequenos empreendedores privados. Dorval Nunes Cuty, de São Leopoldo, no Vale dos Sinos, a 35 quilômetros de Porto Alegre, abriu um galpão para separar resíduos sólidos em 1988. Percebendo a oportunidade, em 1995 ele adquiriu os primeiros equipamentos de lavagem e aglutinação para polietilenos. Também formou uma parceria com um fabricante de lonas pretas para cobertura de solo na agricultura, também utilizadas em carrocerias de caminhões. Essa empresa transformava em filmes o material preparado por Cuty. Em 2000, tomou emprestado R$ 1 milhão do Finame e aumentou o parque fabril. Adquiriu lavadores e aglutinadores mais modernos e uma extrusora marca Seibt. Hoje, o empresário processa 120 toneladas/mês de polietileno, dos quais 80% de baixa densidade. 

Em 2003, Dorval Cuty pretende ingressar no ramo de transformação de plásticos. Sua intenção é lançar uma linha de mangueiras para irrigação em polietileno e também lonas para cobertura. Nesses anos de experiência e crescimento, a Recitel, como Cuty batizou sua empresa, já contou com 56 funcionários. A queda da atividade econômica deixou a recicladora com 33 empregados. Além disso, Cuty se transformou em autoridade em matéria de reciclagem. Profere palestras sobre o tema em escolas e nas comunidades. “Eu não tenho faculdade nem curso técnico sobre plástico, mas leio muito e freqüento seminários e feiras”, ensina o empresário.

Incentivos – Apesar da posição de vanguarda do Rio Grande do Sul quando o assunto é reciclagem, há muita coisa ainda a ser feita. Ao longo de dois anos, entre 1999 e 2002, a engenheira química Aline Rolim percorreu dezenas de empresas para conhecer processos e a realidade das recicladoras de plásticos pós-consumo. A coleta de dados para a pesquisa ocorreu junto aos proprietários ou gerentes de empresas recicladoras de vários tipos de materiais. O levantamento abordou questões sobre quantidade de material reciclado, fornecedores dos resíduos, preço da matéria-prima (resíduo), processo, comercialização, principais clientes, dificuldades e benefícios obtidos. 

Apenas oito empresas acolheram a pesquisadora e formaram o universo do estudo, resultando numa dissertação de mestrado de cem páginas realizada na Escola de Administração da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, trabalho com o qual Aline Rolim pós-graduou-se com nota máxima conferida pela instituição. 

Aline classificou as empresas em três grupos: as exclusivamente recicladoras, as recuperadoras-transformadoras, e as que apenas transformam o plástico reciclado adquirido de terceiros. A pesquisa revelou um alto nível de informalidade entre as exclusivamente recicladoras. “Estive em lugares equipados com tanques e moinhos precários, em que o material nem secava direito ou era separado em centrífugas velhas. O plástico saía mais sujo do que entrava”, adverte a engenheira. “Muitas empresas nem conheciam plástico, acharam que era bom negócio e sem quaisquer investimentos se aventuraram no mercado”, acrescenta. O estudo apontou ainda a escassez de poliestireno no mercado e uma certa aversão dos recicladores em trabalhar com PVC.

A pesquisadora lembra que a tecnologia é a locomotiva do processo na reciclagem. Por conta dessa realidade, ela culpa os organismos oficiais e a ausência de uma legislação semelhante à de países desenvolvidos, como a Alemanha. “Reciclagem de verdade só com tecnologia e mão-de-obra adequadas”, pondera Aline Rolim.

Embora reconheça a informalidade e a carência de mão-de-obra qualificada, a pesquisadora Solange Osório Stumpf vê progressos no setor. Ela dirigiu a pesquisa sobre a reciclagem de plásticos no Brasil, iniciada em 1999, por encomenda da Plastivida, vinculada à Abiquim, e aponta avanços significativos na qualidade da indústria de reciclagem brasileira. 

“Nos últimos dois anos apareceu gente realmente interessada em investir. Nós temos visto muito equipamento novo, em diversos casos máquinas importadas, produzindo material de muita qualidade. Se a reciclagem no Brasil ainda não atingiu sua maturidade, ela deve ser estimulada”, argumenta Solange.

Para se ter uma idéia do tamanho dessa indústria, ainda que pequena se comparada com os países desenvolvidos, a reciclagem no Brasil movimenta R$ 2 bilhões/ano. Na avaliação da Abimaq e do Cempre, esse faturamento poderá chegar a R$ 5 bilhões no curto prazo. Diante dessa perspectiva, o Recicle Show, até então realizado a cada dois anos em São Paulo, passará a anual e com edições regionais. Em 2003 o evento volta para a capital bandeirante, mas em 2004, seus organizadores pretendem levá-lo ao Nordeste, na tentativa de difundir a cultura da reciclagem para todo o território nacional. A difusão da cultura da reciclagem pode ficar mais fácil com outra boa notícia oficializada no 3o Recicle Show: a Fundação Banco do Brasil irá realizar e financiar um programa dirigido a todos os estados para difundir a reciclagem. 

     Indústria ecologicamente correta cria suas grifes e produtos     

A despeito de suas contradições e dificuldades, a reciclagem de termoplásticos no Brasil já registra suas grifes. Uma delas, é a Green Plast, criada pela Polimarketing, um dos maiores distribuidores de resinas termoplásticas da região Sul, participante do 3º Recicle Show como co-patrocinadora. Nos últimos anos, o grupo investiu R$ 4 milhões, incluindo a importação de equipamentos da marca Erema, fabricados na Áustria, para qualificar o processo de reciclagem.

O negócio deu tão certo que a Green Plast ganhou luz própria dentro do grupo Polimarketing, com a inauguração em breve de uma planta industrial dedicada em Cachoeirinha, cidade da região metropolitana de Porto Alegre, para onde boa parte das empresas está se transferindo para fugir da mordida de 5% de ISSQN sobre o faturamento bruto cobrados pela prefeitura da capital gaúcha. A Green Plast com seus equipamentos modernos oferece a linha completa de resinas recicladas como o PP, os polietilenos de alta e baixa densidade, o poliestireno, o ABS, na forma de resinas puras, compostos, blendas e numa variedade completa de pigmentos, entre outros. 
A qualidade conferida ao material da marca Green Plast pode ser medida pelas aplicações às quais vem sendo empregado, como a fabricação de revestimentos para talheres e utensílios domésticos, componentes de calçados e na indústria eletrônica.

Outra empresa recicladora participante do evento foi a paulista Recyclean, de Diadema-SP, apresentando sua linha de granulados de PET de alta qualidade. A principal característica do PET clean, carro-chefe da produção, é sua cristalização de alta qualidade, resultado de um critério rigoroso de lavagem e granulação, que lhe confere propriedades muito próximas aos da resina virgem, informa o fabricante. A Recyclean garante que o produto final tem baixíssimas perdas no índice de viscosidade do polímero, permitindo um ajuste do produto, usando os mesmos parâmetros do PET virgem. Os principais mercados e aplicações do PET clean são o mercado têxtil, para a fabricação de fibras, carpetes, cordas, monofilamentos e não-tecidos. Pode ser empregado ainda em laminação, embalagens para produtos de limpeza, óleos lubrificantes, linha de higiene pessoal e termoformados, servindo também para a transformação em injeção de cabides, escovas, pregadores e fitas de arquear.

A Ecofábrica, de Curitiba-PR, anunciou investimentos em pesquisas de produtos de PET por encomenda de empresas fabricantes de brindes e produtos de promoção. Já a Tetra Pak divulgou seus novos programas que combinam a reciclagem de alumínio, papel e polietileno, com o objetivo de criar alternativas para seus resíduos, combinadas com a geração de renda para a população mais pobre. Sua principal novidade é a telha de alumínio, em que o polietileno atua como ligante e componente flexível, impedindo a quebra do produto. De acordo com o gerente de desenvolvimento industrial da empresa Fernando Neves, a experiência com as telhas começou há cinco anos. Para ele, o artefato é de boa qualidade e serve bem como componente na construção de moradias populares.
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