|
RECICLAGEM

SISTEMA RETIRA TODA IMPUREZA DO PET PÓS-USO
Novo processo foi a vedete do Recicleshow, principal evento da área, realizado
no Sul do País
Fernado de Castro
Dez milhões de dólares. É quanto custa o sistema mais moderno para a reciclagem de plásticos, batizado de RRC, abreviatura da empresa Recycling Resource Company, responsável pelo desenvolvimento da tecnologia nos EUA, e apresentado aos mais de 300 participantes do 3º Seminário e Exposição sobre Desafios Técnicos e Econômicos para Reciclagem, o Recicle Show, realizado de 2 a 5 de outubro em Porto Alegre. O evento é organizado pela Associação Brasileira de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) em parceria com a ONG Compromisso Empresarial pela Reciclagem (Cempre).
|
A divulgação da novidade tecnológica despertou curiosidade combinada com um certo clima de questionamento pelo fato de o sistema ainda não poder ser empregado no Brasil, por força da legislação ambiental. É que de tão avançado, o RRC se destina à reutilização da resina de PET 100% reciclada na confecção de garrafas para bebidas. |
|
 |
|
No Brasil, o plástico reaproveitado só pode compor as camadas internas do recipiente numa proporção de 2%.
Segundo o diretor ambiental da Coca-Cola José Mauro de Moraes, que comandou a palestra sobre o processo, o RRC é tão perfeito que a resina sai do reator sem qualquer contaminação. Ele explicou que, por conta disso, nos países onde o processo já é empregado, o reciclador vende o produto na base de US$ 700,00 a tonelada, enquanto no Brasil a tonelada do PET reaproveitado não ultrapassa os R$ 700,00. “A diferença do PET proveniente do RRC é a reação química, pois você perde em quantidade, mas a qualidade é idêntica à do material novo”, assegura o executivo da Coca-Cola.
Lançado há cinco anos, o RRC já é utilizado no país de origem, na Suíça, Bélgica, Alemanha e Austrália. Segundo Moraes, o segredo do processo está na última etapa: um forno cilíndrico de 25 metros, onde o PET, depois das diversas e sucessivas operações de descontaminação, entra em reação química com soda cáustica em estado sólido, em altas temperaturas, o que permite sua esterilização e purificação completa. O fabricante do RRC vende o equipamento em pacote fechado, instalado no parque industrial do cliente, montado e em plena operação, seja qual for sua localização geográfica. A parafernália inclui ainda um descontaminador, usado após a lavagem, em que feixes de infravermelho identificam qualquer molécula de impureza capaz de macular a reputação do PET. De acordo com o diretor ambiental da Coca-Cola, a empresa estimula a implantação do RRC, financiando instalações inteiras e garantindo a compra da produção para a fabricação de novos lotes de vasilhames. “Estamos esperando a modificação na legislação brasileira para buscarmos as parcerias”, revelou Moraes, confiante na modificação da lei do País.
Tecnologia de primeiro mundo à parte, a reciclagem de plásticos no Brasil é um retrato das diferenças regionais do território nacional em dimensões continentais, capaz de reunir em seu solo alguns dos mais desenvolvidos parques industriais do planeta junto com povoados vivendo na pré-história. Chega a 30%, no Rio Grande do Sul, mais de 20% em São Paulo, mas não ultrapassa 8% na Bahia, sendo praticamente desconhecida na Amazônia. Segundo relatório da Abimaq, quando as estatísticas perfazem o conjunto dos resíduos sólidos inorgânicos, a reciclagem é de apenas 5% no território nacional, média insignificante em relação à União Européia, que chega a 60% em países como a Alemanha, um dos campeões mundiais em reaproveitamento do lixo.
|
Primeiro palestrante do 3º Recicle Show, o representante do Cempre Fernando von Zuben mostrou alternativas para o Brasil avançar na reciclagem. Recordou que os 15 países da União Européia aprovaram uma legislação conjunta em 1992 sobre tratamento e gestão de resíduos sólidos com cinco anos de carência, e que vem sendo cumprida rigorosamente, com exceção da Espanha e da Grécia, com dez lixões cada uma. Além disso, a Alemanha registra um aterro sanitário. |
 |
|
“Esses países recebem multas diárias e são mal vistos dentro da UE por causa do problema”, assinalou Zuben. Numa comparação, explicou que o lixo no Brasil é 60% orgânico, enquanto que na Noruega ocorre justamente o contrário: 60% dos resíduos são inorgânicos. “Isto significa que um país pobre como o nosso joga comida fora, enquanto um país rico dispensa as embalagens, que podem ser recicladas”, advertiu o representante do Cempre.
Zuben sugere investimentos maciços em usinas de compostagem para a transformação das matérias que não possam mais ser recicladas em fontes de energia alternativas. Apontou como alternativa legal a “Lei da Responsabilidade Compartilhada”, criada na Alemanha, onde a DSD, uma empresa privada, coleta, separa e recicla 90% dos resíduos produzidos, revendendo à indústria de transformação, que por sua vez é responsável pela difusão dos programas de educação ambiental, garantindo a participação da população na separação do restante do lixo. A operação é custeada por um selo verde e uma taxa ecológica, cobrados por unidade de embalagem fabricada. Os valores variam de acordo com a quantidade, em peso, de material empregado. Quanto mais matéria-prima, maior o valor do imposto a ser repassado ao governo. Já a Suécia produz dez quilos de resíduos de origem tecnológica por habitante/ano e vem investindo numa central para recolher o lixo high tech. “No Brasil temos de taxar alguma coisa”, sugere Zuben. Para ele, o País precisa difundir a “eco-consciência” o mais rápido possível, a fim de extinguir gradativamente seus lixões.
|
|