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NOTÍCIAS
PRFV TRANSPORTA
CARGAS PERIGOSAS
A Edra, fabricante de produtos em plástico reforçado com fibra de vidro (PRFV), lançou o tanque de transporte para produtos perigosos de classe 08, que será utilizado em caráter provisório sob licença especial do Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial (Inmetro) até o final de 2002. A classe 08 de produtos perigosos, definida em classificação da ONU para normalizar o transporte de produtos perigosos entre países, engloba substâncias fortemente corrosivas, como ácido clorídrico, ácido sulfúrico, cloreto férrico, sulfato de alumínio e hipoclorito de sódio.
Até a investida pioneira da Edra, o transporte de produtos perigosos com tanques de PRFV não era permitido no Brasil, tanto pela inexistência de tanques adequados, quanto pela falta de legislação nacional regulando a atividade. Os tanques de fibra de vidro, entretanto, não são novos no mercado brasileiro: já foram produzidos até hoje cerca de 5.000 unidades. O diretor de exportação da Edra Ciro Zanatta vendeu seu primeiro tanque de fibra de vidro em 1981. Zanatta afirma que o PRFV é consagrado no transporte de vinhaça em empresas do setor sucroalcooleiro, onde concorre com materiais como o ferro fundido, o aço inoxidável e o aço carbono.
Não por acaso, este é o principal segmento de atuação da empresa, nascida durante o período de vigência do programa Proálcool. São mais de 1.500 unidades fornecidas ao setor desde 1984, quando a Edra começou a fabricar tanques de transporte. Maior consumidor de fibra de vidro da América Latina, a empresa iniciou os movimentos para o desenvolvimento dos tanques em meados de 2000, quando realizou os primeiros contatos com o Inmetro, na tentativa de criar normas regulando o transporte rodoviário de produtos perigosos em tanques de PRFV. Dada a inexistência de legislação semelhante no País, foi adotado como referência o código Agreement for Transportation of Dangerous Goods by Road (ADR), em vigor em todo o continente europeu desde 1949.
| Definido o texto da norma brasileira, restava desenvolver o equipamento. A fim de especificar as propriedades dos tanques em PRFV, estabeleceram-se no código brasileiro diversos ensaios de materiais e de protótipos. Segundo o gerente de garantia de qualidade da Edra Arnaldo Gatto, foi elaborado cronograma de ensaios com corpos de prova em fibra de vidro, incluindo ensaios de tração, flexão, envelhecimento e resistência química. |
Cuca Jorge |
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| Gatto: tanque resiste bem por até 20 anos |
Os testes foram realizados na própria Edra que, segundo Gatto, possuía estrutura praticamente pronta para a execução dos experimentos. Para completá-la, foram investidos entre US$ 150 mil até US$ 200 mil, desde 2000.
Os testes foram realizados com o acompanhamento de representantes da Diretoria de Qualidade (Dqual) do Inmetro, órgão seccional responsável por planejar, dirigir e executar atividades de avaliação de conformidade. Com base nos resultados obtidos nesses ensaios, foi elaborado o projeto construtivo do tanque de PRFV, sob coordenação do engenheiro Gatto.
Vantagens comparativas – A principal vantagem da utilização do PRFV é a resistência do material em ambientes corrosivos. Os tanques oferecem garantias de resistência à corrosão interna e externa e a expectativa de vida útil é de 20 anos. Gatto destaca outras características, dentre elas o baixo peso específico, ao redor de 1,75 kg/L. Um tanque em fibra de vidro tem massa cerca de cinco vezes menor que um equipamento similar feito de aço, cujo peso específico é próximo a 7,8 kg/L. O PRFV também possui baixa condutividade térmica (0,124 kCal.m/m2.°C.h), que permite a diminuição da espessura de isolante necessária para a construção do tanque, já que as perdas por trocas térmicas são menores que as observadas em materiais metálicos, por exemplo. Outras propriedades importantes são a alta resistência à abrasão e à radiação ultravioleta, a altíssima inércia química e o baixo custo de manutenção. Embora o PRFV seja mais caro que os sucedâneos concorrentes, os baixos custos de manutenção remuneram melhor o investimento no longo prazo.
A maior barreira enfrentada pela equipe coordenada por Gatto durante o desenvolvimento do equipamento em PRFV, porém, não foi de ordem técnica, como relata o engenheiro: “As variáveis que regem o comportamento da fibra de vidro eram bem conhecidas, mas precisávamos de uma norma conceituada, ou um documento internacional adaptado à realidade brasileira, para apresentarmos ao órgão regulamentador”, explica Gatto, com larga experiência acumulada no segmento de fibra de vidro. “A principal dificuldade que enfrentamos foi a falta de conhecimento do tema e da fibra de vidro em si, pois não há cursos ou universidades no País que formem alunos especialistas neste assunto”, e acrescenta, “são as próprias empresas de fiberglass que precisam divulgar os produtos”.
O tanque inicialmente desenvolvido pela Edra foi construído em poliéster reforçado com fibra de vidro. Possui capacidade para transportar 17 mil litros e comprimento total de 10 metros, e será equipado com sistema de monitoração, responsável por registrar dados como a velocidade do veículo, o volume transportado e as tensões mecânicas na estrutura de PRFV. As informações serão coletadas durante o período de seis meses – entre 15 de julho e 31 de dezembro deste ano – em que o tanque funcionará em caráter experimental, e serão utilizadas na confecção de relatórios de avaliação de operação. Os relatórios subsidiarão o Inmetro com informações para a homologação da norma e a liberação da fabricação em série dos tanques em PRFV.
A Produtos Químicos Guaçu será a pioneira a utilizar o tanque de transporte durante o período de testes. De acordo com informações do gerente comercial da empresa, Wálter Luís Zanco, os tanques serão utilizados, em regime de comodato, para o transporte de sulfato de alumínio líquido, inicialmente, e cloreto férrico líquido, em uma segunda etapa. “Não esperamos problemas no transporte das substâncias, pois os tanques que utilizamos atualmente são de aço revestido internamente com PRFV, e não apresentam problemas de corrosão”, disse o gerente, acrescentando que a Guaçu já iniciou o transporte em caráter temporário.
Novos negócios – A Edra aproveitou a realização da terceira edição da Feira Internacional de Tecnologias para o Meio Ambiente – a Fitma Aquatech Brazil 2002 – em agosto, em São Paulo, para lançar um novo produto em PRFV: a estação compacta de tratamento de esgoto, destinada ao tratamento de efluentes sanitários de indústrias, condomínios, hotéis e restaurantes. Versátil, o equipamento é desenhado para atender a 200 habitantes, se utilizado por clientes residenciais, mas a capacidade pode ser expandida para até 500 habitantes, no caso de clientes industriais. A utilização da estação, no entanto, restringe-se a populações de no mínimo dez pessoas.
O projeto, denominado Acquatex, originou-se da iniciativa de um grupo de empresas interessadas em criar novas aplicações para a fibra de vidro. As deficiências de saneamento básico e o apelo ambiental delinearam a decisão de desenvolver a estação compacta. Concluído o projeto técnico do equipamento, dez empresas estabelecidas no País foram convidadas a participar do novo negócio. Seis aceitaram: foram três empresas de São Paulo – e entre elas, a Edra –, uma do Paraná, outra de Santa Catarina e uma do Rio Grande do Sul.
Os fabricantes que toparam a empreitada precisaram obter o licenciamento para a fabricação do equipamento, mediante o pagamento de um valor não revelado ao grupo de empresas dono do projeto. Segundo o engenheiro de aplicação Flávio de Campos, um dos responsáveis técnicos pelo projeto, na Edra, os pedidos de orçamento são encaminhados às seis empresas licenciadas, mas cada uma delas dirige as negociações comerciais independentemente, vencendo a melhor proposta. Campos afirma que atualmente o pool de produtores já recebe cerca de vinte consultas semanais de orçamento.
O projeto de cada estação de tratamento depende das necessidades específicas de cada cliente. O interessado em adquirir o equipamento deve fornecer ao fabricante dados como a vazão média de esgoto, a demanda biológica de oxigênio (DBO), o número de pessoas que frequenta o estabelecimento e o percentual de remoção de DBO do efluente. Segundo Campos, “a vazão de contribuição de cada pessoa está especificada em norma ABNT e depende do local em que é gerado o efluente sanitário. Em residências, considera-se que a contribuição de cada pessoa é de 130 L/dia, e na indústria esse valor cai para 70 L/dia”. A vazão de contribuição define a demanda a que será submetida a estação de tratamento de esgoto.
Campos explica que a Edra superdimensiona a capacidade da estação que fabrica para garantir a qualidade do serviço prestado. As variáveis envolvidas nesse processo são o volume do tanque em que o efluente é tratado e o tempo de retenção do efluente. Os técnicos da Edra superdimensionam o tempo de retenção no tanque: aumentando-se esse intervalo, garante-se que a remoção de DBO será superior àquela exigida pelo cliente.
A Edra está apta a fabricar seis tipos básicos de estação, que utilizam seis processos diferentes de tratamento. Cada um deles, entretanto, é composto por uma etapa de tratamento anaeróbio – integrada por um reator e um filtro anaeróbios – e outra etapa, aeróbia, que pode ou não ser necessária. “Só utilizamos as duas etapas quando a necessidade de remoção de DBO é muito grande, pois a fase anaeróbia só consegue remover 70% a 75% da DBO. A marca de 75% é bem difícil de ser atingida”, esclarece Campos.
O gerente de comunicação e marketing da Edra Gilberto Massa diz que o principal diferencial do novo produto são as facilidades de modulação e de transporte do equipamento. “A estação de tratamento compacta é de fácil manuseio e instalação, e seu custo de instalação é menor que o de equipamentos similares”, afirma Massa. Além disso, o PRFV é menos denso que o ferro (que também pode ser utilizado na manufatura da estação), tornando o equipamento mais leve.
Campos estima o custo para por em funcionamento uma estação para atender a 200 pessoas em cerca de R$ 150 a R$ 200 por pessoa. O engenheiro ressalta, entretanto, que a Edra realiza o projeto com custo próximo dos R$ 150. A estação mais simples tem preço ao redor de R$ 600.
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