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ALCA PREOCUPA SETOR
DE BENS DE CAPITAL
Até o final do ano, a Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) pretende concluir amplo estudo sobre o mercado nacional de bens de bens de capital mecânico, iniciado em 2001. O trabalho visa subsidiar o governo com informações para as negociações da Área de Livre Comércio das Américas (Alca), além de nortear a reestruturação da própria entidade e do setor. Agrupadas em 20 sub-setores, as empresas estão sendo radiografadas e comparadas com as concorrentes americanas, canadenses e mexicanas.
As informações possibilitarão, segundo a Abimaq, prever os possíveis impactos da Alca e as ações necessárias para transformar o acordo em eventual oportunidade e não numa concreta ameaça. Com 1.400 associados, a entidade representa 4.500 empresas de 26 segmentos sub-divididos em câmaras setoriais. Em 2002, o setor deverá crescer entre 6% e 8% e alcançar faturamento de R$ 32 bilhões.
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Antes mesmo de concluir a pesquisa, o presidente da Abimaq Luiz Carlos Delben Leite antecipa alguns resultados e fala sobre a Alca com exclusividade para a revista Plástico Moderno. Economista formado pela Universidade Católica de São Paulo (USP), Delben Leite já ocupou a presidência do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) em 1993 e do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) entre 1990 e 1991. Foi secretário da Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo e está em seu quarto mandato à frente da Abimaq. |
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| presidente da Abimaq Luiz Carlos Delben |
Plástico Moderno – Caso o Sr. participasse de um plebiscito, qual seria o seu voto em relação à Alca?
Delben Leite – Observadas as atuais condições estruturais do Brasil em relação à carga tributária, política monetária, ausência de políticas industrias e à incipiente estrutura de comércio exterior, meu voto seria ‘não’. Porém, a implantação de um acordo dessa natureza prevê ou pode contemplar condições assimétricas de vantagens concedidas parte a parte. Dependendo da qualidade dos negociadores e da firme disposição política do governo, torna-se possível exigir que, nos setores mais vulneráveis, as vantagens dadas aos parceiros sejam colocadas ao longo de 15 anos, por exemplo. Nessas condições, eu diria ‘sim’. Desde que também todas as deficiências estruturais do País fossem nesse prazo totalmente corrigidas. Assim, poderíamos transformar aquilo que, nas condições presentes, seria um desastre para o Brasil, em uma grande oportunidade de crescimento. O mais importante no momento é que o Brasil tenha a sua própria agenda de negociações, pois estamos caudatários de uma programação estabelecida de acordo com os interesses dos Estados Unidos.
PM - O cronograma atual determina que as propostas de acesso ao mercado sejam apresentadas até fevereiro de 2003, logo após a posse do novo presidente da república. É uma data viável?
Delben Leite – Não. É um prazo insuficiente para que o novo governo adote posição em relação a todos os interesses do País. A tributação atual onera as empresas brasileiras face aos demais competidores, em especial os americanos e canadenses. O custo do capital é extremamente mais elevado, encarecendo nossos produtos de forma fantástica. A produtividade da mão-de-obra brasileira fica em torno de 30% a 40% dos índices dos Estados Unidos, devido o baixo nível de escolaridade e a preparação inadequada, além das questões relacionadas à infra-estrutura, inclusive viárias.
PM – Na sua opinião, a reforma tributária deve obrigatoriamente preceder a possível adesão à Alca?
Delben Leite – É tão importante quanto a correção da política monetária brasileira. O País precisa caminhar rapidamente para a prática de taxas de juros compatíveis com o mercado internacional, e já tem condições para isso. Os juros não vão determinar a modificação da taxa cambial, por exemplo. São fatores que hoje independem um do outro. Com a redução dos juros, diminuiríamos os níveis de desequilíbrio orçamentário e dívida interna. Ajudaria ainda a estabelecer novos patamares de demanda, melhorando a escala de produção. Precisamos também usar politicamente a TJLP para torná-la um indutor da modernização e da ampliação da capacidade produtiva brasileira. São duas coisas essenciais que podem ser resolvidas a curto prazo. Outra questão fundamental refere-se à capacitação dos recursos humanos em todos os setores, adequando a mão-de-obra às exigências das modernas tecnologias.
PM – Apesar de todos esses entraves, a Alca parece um caminho sem volta. O Sr. concorda?
Delben Leite – Não. Depende da vontade política do governo. Como já disse, a Alca pode se transformar numa grande oportunidade para o Brasil.
PM – O quê o Brasil perde e o quê o País ganha com a Alca?
Delben Leite – Se o Brasil negociar muito bem as questões referentes à proteção do mercado americano e às barreiras não alfandegárias, o setor agrícola hoje ganharia muito. Bastante competitivo, tem condições de acessar o mercado americano com grandes vantagens. Outros segmentos de menor complexidade tecnológica, como o siderúrgico, também. Já para os produtos industrias de alta complexidade e maior valor agregado, de maneira geral, seria uma surra muito grande.
PM – E os Estados Unidos ...
Delben Leite –Só ganham. A Alca é um projeto americano que visa, de forma legítima, os interesses de crescimento da economia daquele país. Nós brasileiros sim precisamos analisar até onde esse projeto interessa e como também poderemos obter vantagens e ao longo de quanto tempo.
PM –O presidente dos Estados Unidos, George W. Bush conseguiu aprovar no congresso americano o TPA (sigla em inglês para Autoridade para Promoção Comercial). Isso complica a situação do Brasil?
Delben Leite –O TPA, de certa forma, dificulta os interesses de alguns setores que teriam melhores condições iniciais de entrar no mercado americano.
PM – O governo brasileiro atende às reivindicações do setor? Existe a troca de informações?
Delben Leite – A associação mantém contato permanente com as áreas negociadoras do governo, subsidiando-as com as informações disponíveis. Alerta com relação a cuidados específicos e envia representante em todas as rodadas de negociações a fim de resguardar os interesses do setor. Observamos posicionamentos coerentes por parte do Itamaraty. Cito com tranqüilidade o embaixador Clodoaldo Hugueney como uma pessoa bem informada, capacitada e empenhada em criar condições favoráveis para o futuro governo. Embora mãos hábeis conduzam as negociações, os resultados também dependem das instruções governamentais.
PM – Especialistas em política e comércio exterior afirmam que a Alca representa o suicídio do Brasil. Defendem ainda que o bloco econômico proposto pelos Estados Unidos é prejudicial aos interesses brasileiros e que o País não conseguiria se firmar diante da concorrência americana. Como alternativa, sugerem o tripé: fortalecimento do Mercosul, acordos com países emergentes como a Índia, China e Rússia e estreitamento das relações políticas com a União Européia. O Sr. concorda?
Delben Leite – Aumentar as escalas de produção representa hoje uma alternativa para melhorar o grau de competitividade do País. Apresentamos ao governo a proposta de desenvolvimento de políticas de acordos comerciais bilaterias com países de semelhante desenvolvimento tecnológico e econômico. Dessa forma, ampliaríamos o mercado e a possibilidade de incrementar as vendas. As empresas, por sua vez, ganhariam a musculatura necessária para competir na Alca ou no âmbito do acordo Mercosul/União Européia.
Parcerias com o México, Venezuela, África do Sul, China, Austrália e uma série de outros países nos permitiriam ampliar o volume das exportações e, conseqüentemente, aumentar a escala. Só para se ter uma idéia, as indústrias americanas produzem entre 20 e 50 vezes mais do que as brasileiras, em média. É uma diferença muito significativa. Bastante promissor, o setor de bens de capital mecânico atua com bom nível de desenvolvimento tecnológico e vem ampliando suas exportações ano a ano. Seria extremamente beneficiado por iniciativas dessa ordem.
PM – O setor participa dos programas de desenvolvimento das exportações da Abimaq, como o Apexmaq?
Delben Leite – Ativamente. A participação de empresas brasileiras, inclusive do setor de plástico, em feiras internacionais no México e Oriente Médio, entre outras, tem sido muito positiva.
PM – A Abimaq trabalha na conclusão de um estudo sobre a competitividade do setor frente a Alca. Fale sobre esse projeto.
Delben Leite – O estudo abrange diversas questões, inclusive as estruturais. Agrupamos os 26 subsetores da Abimaq em 20, e estamos comparando o desempenho de cada um deles com as empresas americanas, canadenses e mexicanas. O objetivo é avaliar a nossa capacidade de competição, detectando as áreas em que somos mais e menos eficientes.
PM – Como serão usadas essas informações?
Delben Leite –Servirão de base para o desenvolvimento de plano de ação conjunta entre a Abimaq, as empresas e os governos federal e estaduais, quando for o caso. Reivindicaremos a criação de políticas industrias capazes de garantir ao setor condições de competição na Alca, além de aumentar as exportações de forma significativa. As informações vão nortear também a futura reestruturação da Abimaq.
PM – Quais resultados podem ser antecipados?
Delben Leite – Dentre os 20, três sub-setores foram considerados mais frágeis. Mas, não posso identificá-los para não torná-los ainda mais vulneráveis. Oito são muito competitivos e nove, promissores, ou seja, dependem de algumas iniciativas para se tornarem mais eficientes.
PM – Então a situação não é tão ruim assim?
Delben Leite – O setor já é bastante competitivo e exportou US$ 3,6 bilhões em 2001. Nossas vendas externas só foram menores do que as de automóveis. Não significa que está bom para o País e que não seja possível melhorar muito.
PM – Já que o Sr. não quer citar os setores mais vulneráveis, fale sobre os mais eficientes.
Delben Leite – Compressores industriais, máquinas rodoviárias e motores de combustão interna estão entre os mais competitivos.
PM – E as máquinas para indústria de plástico?
Delben Leite – Enquadram-se entre os promissores.
PM – Mas o segmento de moldes ainda preocupa?
Delben Leite – O Brasil tem um grande número de ferramentarias, alguns pólos de excelência localizados em Santa Catarina, Rio Grande do Sul e São Paulo, e diversas empresas carentes de avanços tecnológicos, merecedoras de maior atenção. Estudo abrangente, realizado há aproximadamente 3 anos, apontou a necessidade de estabelecer um centro tecnológico no Estado de São Paulo. O projeto deve ser desenvolvido em parceria com o Sebrae, provavelmente na região do ABC paulista.
PM – Mas o projeto é antigo e até agora não deslanchou ....
Delben Leite – Infelizmente, o Sebrae de São Paulo, durante certo tempo, ficou paralisado e as coisas não caminharam.
PM – Portugal se transformou num grande exportador de moldes. A experiência portuguesa pode servir de modelo para as indústrias brasileiras?
Delben Leite – Claro, é uma experiência que deu certo.
PM – Qual o seu recado para o setor?
Delben Leite – O recado mais importante para todos os setores é: não se equivoquem imaginando que com a Alca simplesmente vão vender mais, mesmo que, eventualmente, as empresas americanas ou canadenses não sejam tão competitivas em determinados segmentos. Todos os países do mundo vendem para os Estados Unidos. Competiremos com o mundo inteiro. É possível encontrar produtos mais baratos lá do que nos país de origem em decorrência do volume que esse mercado representa. Aproximadamente 35% das exportações brasileiras de máquinas vão para os Estados Unidos. Valor considerado baixo, face à capacidade de compra daquele país, e atrelado aos óbices e limitadores estruturais do Brasil. Precisamos ainda trabalhar com muito afinco para aprimorar os produtos de forma permanente e cobrar a lição de casa do governo. Só assim o País encontrará condições para crescer, gerar renda e emprego, tornando-se uma nação rumo ao primeiro mundo e não a caminho da Nigéria.
Simone Ferro
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