VIOLÊNCIA PSICOLÓGICA TAMBÉM PREOCUPA

Acidentes com máquinas e doenças ocupacionais deixaram de ser as únicas preocupações dos especialistas em saúde do trabalhador. Estudos recentes comprovam os efeitos nocivos da violência psicológica. O assédio moral, definição moderna para um dos mais antigos mecanismos de opressão no ambiente de trabalho, constitui um fenômeno internacional relatado no estudo Violence at Work, da Organização Internacional do Trabalho (OIT). 
Cuca Jorge No Brasil, pesquisa pioneira mapeou os casos de assédio moral nas indústrias plástica, química, farmacêutica e cosmética com sede no Estado de São Paulo. O estudo, tese de mestrado da médica do trabalho e assessora técnica do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias Químicas, Farmacêuticas, Plásticas e Similares de São Paulo, Dra. Margarida Barreto reuniu 2.072 depoimentos de profissionais de 97 empresas, dos quais 90% trabalhavam na produção e 10% no escritório. Foram mais de 2 anos entre o início das entrevistas e a análise final dos dados, concluída em maio de 2000. “O Brasil é o primeiro país da América Latina a discutir o assédio moral”, afirma Margarida.

Os resultados surpreenderam. “Mais de 40% dos entrevistados viveram situações de humilhações, um universo composto por 494 mulheres e 378 homens”, afirma. 

Margarida mapeou os casos de assédio moral

A totalidade dos homens alegou ter pensado em suicídio e 18% dos assediados efetivamente atentaram contra a própria vida. Os números demonstram ainda a maior discriminação em relação às mulheres, minoria na pesquisa e maioria no resultado. São casos de agressões verbais, racismo, discriminação em virtude da idade ou de defeitos físicos e pressões psicológicas das mais variadas que, muitas vezes, levam o trabalhador a solicitar o desligamento da empresa, a desenvolver doenças físicas e mentais, como o estresse e a depressão, ou a cometer o suicídio. Na Suécia, o assédio moral motiva entre 10% e 15% dos suicídios, segundo dados da OIT.

De acordo com o estudo da OIT, as coações constituem uma das modalidades de violência cuja freqüência aumenta nos ambientes de trabalho globalizado. Estima-se que 33% da população brasileira economicamente ativa sofra situações de assédio moral. No Reino Unido a violência psicológica atinge 53% dos trabalhadores. Trata-se, na verdade, de um problema crescente em países desenvolvidos como a Austrália, Áustria, Dinamarca, Alemanha, Suécia e Estados Unidos. Críticas destrutivas, calúnias e difamações, humilhações públicas, solicitação de tarefas abaixo ou acima da hierarquia do trabalhador, discriminação por raça ou idade estão entre as formas de violência psicológica mais comuns.

Jornada de humilhações – O estudo brasileiro apresenta relatos constrangedores e demonstra na prática a preocupação excessiva com a produtividade e o resultado final, sem levar em consideração o bem estar físico e mental do trabalhador. Traz ainda uma extensa relação de apelidos e termos empregados por chefes e supervisores para designar seus subordinados, além de casos de discriminação em virtude de doenças ocupacionais como as lesões por esforço repetitivo (LER), asma, surdez, lombalgias, cervicalgias e hérnia de disco, as mais comuns nas indústrias de transformação de plástico. “Há registros de funcionários que ao reclamar da dor ou solicitar dispensa para consultar um médico foram apelidados de vagabundos e incompetentes ou ameaçados de demissão.”
Estudos internacionais demonstram que o assédio moral é responsável por 34% do absenteísmo nas indústrias. No Brasil, a Dra. Margarida estima essa parcela em 20%. “O indivíduo perde a motivação e comparece ao trabalho apenas pela necessidade de sobrevivência.” Responde ainda por mais de 40% dos casos de estresse, além de favorecer a incidência de acidentes.

A Dra. Margarida trabalha atualmente na segunda fase da pesquisa, tema de sua tese de doutorado. “Mais de 4.700 questionários já foram aplicados em empresas de diversos segmentos localizadas em todo o território nacional”, conta. Tanto o estudo nacional, coordenado por ela, quanto o da OIT, tem por objetivo promover o diálogo e criar políticas e iniciativas capazes de evitar e erradicar a violência do ambiente profissional. 
Dentro desse contexto, aconselha a participação ativa dos médicos do trabalho e dos profissionais de recursos humanos no sentido de divulgar informações referentes ao assédio moral, além de criar programas e mecanismos que facilitem a denúncia e a promoção de ações antiviolência nas empresas. “É preciso manter um espaço aberto, democrático e seguro para que o trabalhador expresse suas angústias.” Visando facilitar esse trabalho, o sindicato dos plásticos publicou o manual Assédio Moral: Violência Psicológica que Põe em Risco a sua Vida. Segundo Margarida, o Brasil também já registrou conquistas importantes em relação à legislação. “Existem leis específicas para combater e punir o assédio moral.”
(Ver www.assediomoral.org). A tese da Dra. Margarida aguarda no prelo editora interessada em publicá-la. 


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