Especialistas prevêem futuro e tendências do setor até 2010

À espera da nova legislação e com boas 
perspectivas de crescimento, empresas e entidades, como
a Plastivida, prometem ações mais agressivas a partir de 2002

Simone Ferro

Em 2010, o consumo per-capita de resinas termoplásticas no Brasil será de 35 kg, com 48% do volume destinado às embalagens. O material, que hoje representa 3% dos resíduos sólidos urbanos, terá sua participação ampliada para 6%. A reciclagem, avaliada em 15% atualmente, saltará para 30%. Os números, divulgados pela Plastivida, comissão vinculada a Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), não foram obtidos pela leitura de cartas, jogo de búzios ou mesmo mostrados na milenar bola de cristal, métodos bastante empregados todo final de ano na tentativa de prever o futuro da economia brasileira, são resultado da pesquisa Perspectivas para a Reciclagem do Plástico, desenvolvida pelo Programa de Estudos do Futuro (Pro Futuro) da Fundação Instituto de Administração da Universidade de São Paulo.

O resultado preliminar da pesquisa foi divulgado no evento de encerramento das atividades de 2001 da Plastivida, realizado em 23 de novembro, na sede da Basf, em São Bernardo do Campo-SP. Na ocasião, o coordenador da entidade, Luiz Briones, falou sobre as perspectivas para o próximo ano, além de fazer um balanço das atividades desenvolvidas em 2001.  Cuca Jorge
Briones: "o objetivo é trabalhar no campo das oportunidades"

Participaram do evento o presidente do Conselho de Administração do Grupo Basf, Heinz Mayer, e o deputado federal Emerson Kapaz. No auditório, representantes das principais associações de classe, empresários e associados da Plastivida.

Com o objetivo de revelar as tendências do mercado de plásticos e propor soluções para a reciclagem, a pesquisa, realizada com 31 especialistas de 18 empresas do setor, incluiu duas rodadas de perguntas enviadas entre julho e novembro deste ano. O estudo emprega o método Delphi, técnica de análise qualitativa fundamentada na consulta de especialistas por meio de questionários repassados repetidamente em busca da convergência das respostas.

Cuca Jorge Segundo o coordenador do Pro Futuro e professor do departamento de administração da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP, James Wright, o método é empregado como apoio ao planejamento prospectivo e à tomada de decisão referente à previsão tecnológica, indicador de tendências e incorporação de novas idéias. 
Wrigth: pesquisa auxilia na tomada de decisões e planejamento prospectivo

Além de nortear o mercado de reciclagem, a Plastivida pretende, a partir das informações obtidas, direcionar suas próprias ações. “O objetivo é trabalhar no terreno da oportunidade e não no campo da necessidade”, afirmou Briones.

Sem vocação para esperar as coisas acontecerem, a Plastivida, criada em 1994 com a missão de promover a reciclagem, planeja adotar postura mais agressiva a partir de 2002. O planejamento estratégico será discutido em fevereiro pela diretoria da entidade, junto com os associados. A partir daí serão definidos os rumos, as ações, as áreas de atuação, a verba necessária e a forma de angariar os recursos, segundo explicou Briones. “Apesar da inegável contribuição do plástico, o material, muitas vezes, ainda é visto como vilão.” Mudar esse conceito está entre os objetivos da entidade.

Briones citou as atividades e os projetos desenvolvidos durante o ano. Destacou ainda as pesquisas junto aos recicladores de São Paulo, Rio Grande do Sul e Bahia, disponíveis no site (www.plastivida.org.br), e a conclusão do estudo de mercado do Rio de Janeiro no início do ano. “Em 2002, a pesquisa vai abranger os estados de Minas Gerais e Ceará.”

Pesquisa – A ampliação da demanda nacional de resinas termoplásticas, de 3,2 milhões de t/ano (2000) para 6,5 milhões de t/ano em 2010, como prevê a pesquisa, será decorrente da reestruturação da cadeia petroquímica, aumento da produtividade e maior acesso ao crédito financeiro. Os entrevistados apostam ainda na maior competitividade com o surgimento de novos pólos produtores de matérias-primas e de transformadores de maior porte, além de fusões e aquisições.

Com relação ao avanço do mercado de reciclagem, Wright salientou alguns pontos, tais como a maior conscientização ecológica dos consumidores e a implantação de leis e incentivos aos investimentos. De acordo com os especialistas, a participação do polietileno de alta densidade (PEAD), polipropileno (PP), poliestireno (PS) e EPS na demanda tende a manter os percentuais relativos. Já o polietileno de baixa (PEBD) e o policloreto de vinila (PVC) devem a cair de 23,6% para 20% e de 4,5% para 3,5%, respectivamente. O polietileno linear de baixa densidade (PELBD) e o PET saltarão de 13% para 20% e de 16% para 18%, respectivamente.

Os especialistas estimam que os mercados de embalagens e descartáveis vão crescer consideravelmente em decorrência da mudança de hábitos, incluindo o maior consumo de alimentos semiprontos. Apostam também no avanço das embalagens menores e de maior valor agregado e na ampliação dos investimentos em infra-estrutura e construção civil. Dentro desse contexto, prevêem que a reciclagem de resíduos sólidos, estimada em 1% em 1989, atingirá 12,5%. A pesquisa sugere soluções para alavancar a atividade, como a criação de um fundo atrelado ao consumo de resinas, cuja renda será revertida à atividade. 

Mercado atual — O setor nacional de plástico apresenta inúmeras diferenças quando comparado ao dos Estados Unidos e a média dos países da Europa. A começar pelo consumo per capita do material, entre 20 kg e 25 kg, contra 100 kg e 70 kg, respectivamente. Outros aspectos consistem na constituição do setor por indústrias que estão aprendendo a duras penas a conviver com a abertura de mercado, a falta de capacitação tecnológica e o irremediável “custo brasil”. No que se refere à reciclagem, no entanto, a história muda um pouco, e a principal diferença refere-se ao fato de o País ter alcançado expressivo índice de revalorização de plástico, ser um dos grandes recicladores de papelão e ter assumido a liderança no reaproveitamento do alumínio sem a adoção de uma política de gerenciamento de resíduos sólidos urbanos.

Nas ruas, milhares de miseráveis (estima-se a existência de 500 mil pessoas sobrevivendo da catação do lixo) garantem a renda da família e fornecem matéria-prima para centenas de indústrias recicladoras de plástico em todo o Brasil. O setor recicla atualmente 15% da demanda de resinas (filme e rígida) e mais de 30% do polietileno tereftalato (PET). Índices ainda inferiores quando comparado a alguns países (ver tabela), mas que registram um grande avanço. No caso do plástico, especialistas do setor defendem que o IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) de 15% é um dos grandes vilões da história, responsável, ao lado da falta de coleta seletiva, pela estagnação registrada nos dois últimos anos. Só na grande São Paulo são desprezados R$ 330 mil/ dia de plásticos que poderiam ser reciclados, segundo informações da Abiquim.

O mercado de PET, um dos que mais cresce, poderia ser muito maior não fosse a reduzida oferta de resina pós-consumo (ver PM nº 324, edição de setembro de 2001, pág. 10). Diferenças entre as nações desenvolvidas e os países do terceiro mundo são ainda mais acentuadas quando comparados outros parâmetros. Entre 75% e 85% do resíduo doméstico na União Européia correspondem às embalagens. No Brasil 60% é material orgânico. “Enquanto os países do primeiro mundo descartam embalagens, os do terceiro jogam alimentos”, constata Fernando Von Zuben, responsável pela área ambiental mundial da Tetra Pak Internacional. 

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