Produção cresceu, mas ainda falta PET para atender à demanda

Mais exigentes em relação à qualidade, transformadores querem mais e melhor, e obrigam o setor a acompanhar as mudanças

Simone Ferro

Caso as previsões se confirmem, a reciclagem de polietileno tereftalato (PET) promete bater novo recorde em 2001. Pelos cálculos da Associação Brasileira dos Fabricantes de Embalagens de PET (Abepet), o Brasil deve encerrar o período com 89 mil toneladas recicladas, crescimento de aproximadamente 33% em relação às 67 mil t do ano passado. Jovem e em plena expansão, o mercado apresenta ainda outras novidades, como a escalada das aplicações têxteis, a consolidação do segmento de chapas, o início das exportações e a mudança gradativa do perfil do reciclador, cada vez mais comprometido com a qualidade do granulado produzido.
Cuca Jorge
Mercado deve crescer 33% e reciclar 89 mil t

Cuca Jorge
Sette: recicladores apostaram nas exportações
Segundo o presidente da Abepet Alfredo Sette, estudos preliminares do desempenho do setor em 2001 indicam que pelo menos 14% do total reciclado, em forma de flocos (flake) ou garrafas prensadas, visam às exportações para Ásia e México, entre outros países. “Atraídos pelo dólar valorizado e pela oportunidade de novos negócios, recicladores nacionais apostaram nas vendas externas para recuperar margens”, afirma. Sette ressalta ainda o aumento no número de empresas consumidoras de resinas pós-consumo. Pelos cálculos da entidade, 22 indústrias nacionais transformam PET reciclado em produtos variados.

A cadeia produtiva cresceu também nas outras etapas do processo. Estima-se a existência de milhares de pessoas trabalhando na primeira fase, da coleta e separação do lixo, organizadas em associações e cooperativas de catadores. Além delas, há outras centenas de revalorizadores, responsáveis pela segunda fase da reciclagem, da transformação do resíduo em flakes ou granulados com destino à produção de novas mercadorias.

De acordo com Sette, dois fatores básicos contribuem para a escalada do PET. O primeiro refere-se à evolução da coleta. Embora tímida e aquém das necessidades do setor, a separação do material evoluiu muito nos últimos anos. O segundo fator, mais decisivo, diz respeito à descoberta de novas oportunidades de negócios para a resina revalorizada, fazendo com que o material ganhe escala e valor de mercado.

Soma-se a isso, a conscientização da população sobre a necessidade de reciclar o lixo e a gradativa valorização do produto reciclado. Com isso, o resíduo também passou a ser mais valorizado. Desprezada pelos catadores sete anos atrás, o quilo de sucata de PET chega a ser comercializado entre R$ 0,40 (incolor) e R$ 0,35 (colorida) o quilo. O quilo do flake varia de R$ 0,70 a R$ 0,80 e o do granulado, de R$ 1,20 a R$ 1,40, de acordo com a cor e a qualidade do produto.

Melhor desempenho — A preocupação e as exigências com a qualidade reforçam o desenvolvimento de equipamentos mais eficazes para a limpeza do resíduo e separação de materiais contaminantes por parte dos fabricantes nacionais de máquinas especializados no mercado de reciclagem. A Krown, de Barueri-SP, aprimorou o processo de lavagem com a inclusão de mais uma etapa. Depois de passar pelo tanque com soda cáustica, o plástico segue para a lavagem com detergente biodegradável. O processo reduz o volume de soda cáustica usada para clarear a resina. “A limpeza propriamente dita passa a ser feita pelo detergente”, explica o supervisor administrativo da empresa Paulo Roberto Straiotto.

A inovação, introduzida na linha da Krown no ano passado, reduz o nível de efluentes gerados no processo. Outra novidade, apresentada este ano, é a hidrociclonagem. Trata-se de tanque de agitação (hidrociclone) responsável pela separação dos materiais contaminantes, dos flakes como rótulos e tampas. O PET afunda no tanque, enquanto os outros materiais ficam na superfície da água, facilitando a separação. A empresa fornece linhas completas para reciclagem.

Há 15 anos no mercado, a Kie, de Louveira-SP, nos dois últimos deles, dedicou 70% da sua capacidade produtiva para o segmento de PET. “É o que mais cresce”, avalia o gerente de vendas, Evandro Bondesan Didone. A empresa fabrica linha completa para reciclagem mecânica, inclusive moinhos, lavadoras, secadoras, silos de transporte, tanques de decantação etc. Para Didone, as exigências com a qualidade resultam no aprimoramento constante dos equipamentos e no aumento do número de etapas do processo. “A maioria dos clientes, usuários de linhas básicas, solicita a complementação do processo, visando a obtenção de granulados mais puros e de melhor desempenho.

”Com capacidade para produzir linhas de 50 t a 300 t/mês, a Kie mudou-se, em abril, para prédio próprio com 800 m², construído em terreno de 5 mil m². “O ano começou extremamente aquecido, mas desacelerou em função do racionamento de energia elétrica”, avalia. Nas contas de Didone, uma linha de reciclagem para produzir entre 60 t e 70 t/mês, em regime de oito horas, custa a partir de R$ 60 mil.

Agregar valor — Os sucateiros são cobrados para oferecer resíduos mais limpos, e passam, em alguns casos, a vender o PET pré-lavado e pré-móido, numa tentativa de agregar mais valor ao produto. Nessas condições, o material chega a ser comercializado entre R$ 0,45 e R$ 0,65 o quilo.

A Recipet, de Indaiatuba-SP, empresa fundada em 1995 pelo grupo Rhodia-Ster, principal fabricante sul-americano de PET, opera apenas com resíduos pré-lavados e pré-moídos provenientes do descarte pós-industrial e pós-consumo. Para isso, auxilia os fornecedores de resíduos com o repasse de tecnologia, visando garantir a qualidade do material, além de aumentar a margem de lucro dos parceiros. “A reciclagem tem de ser uma atividade economicamente viável”, afirma o diretor da empresa e coordenador da Abepet, Auri Cesar Marçon.
Cuca Jorge
Marçon destaca os avanços da fibra Alya Eco

 

Cuca Jorge
Resinas da Recipet são empregadas em 50 itens
A Recipet, no entanto, não visa lucro. Foi criada justamente com o objetivo de acompanhar a evolução da cadeia do poliéster e desenvolver tecnologias capazes de estimular a aplicação correta dos descartes de PET. Atualmente, mantém relações comerciais com cem fornecedores e 80 clientes, gera 65 empregos diretos e cerca de 2.000 indiretos. Com capacidade para revalorizar 18 mil t/ano da resina, produz 25 tipos de materiais reciclados destinados à fabricação de pelo menos 50 produtos. Entre os plásticos comercializados pela empresa, destacam-se os grãos, obtidos a partir de resíduos pós-industriais; os flakes (flocos de garrafas); Recipol, granulados com características muito próximas às do PET virgem; Recimix, mistura de dois ou mais artigos revalorizados, visando atender às necessidades técnicas e mercadológicas dos clientes; e o Master, concentrados de cor de PET reciclado.

Segundo informa Marçon, as resinas da Recipet abastecem principalmente os setores químico (30%), têxtil (30%), embalagens não alimentícias (30%) e outros (10%), tais como peças injetadas, compostos e masterbatch. Entre as aplicações do setor químico, ele cita a fabricação de massa plástica, tinta, vernizes, mármore sintético, além de resinas poliéster e especiais. Na linha de embalagens, ressalta a fabricação de chapas para termoformados e vaccum forming e frascos soprados para produtos de limpeza, óleos lubrificantes etc.

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