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APAGÃO COMPROMETE METAS DE EXPANSÃO DO PLÁSTICO A tingir a meta de 20% de economia de energia elétrica, imposta pelo Governo Federal, numa indústria pode ser tão difícil (ou impossível) quanto um camelo passar pelo buraco de uma agulha. Principalmente, quando se trata de setores vitais da economia. Desde junho deste ano, os brasileiros têm o desafio de atingir essa meta. Nas casas, isso se torna mais fácil. Desliga-se o microondas, o freezer, trocam-se lâmpadas, enfim, faz-se de tudo e, em geral, alcança-se o objetivo. Mas como uma indústria, e aqui abordamos o setor de plásticos, vai conseguir driblar mais essa maratona nacional? Plástico Moderno ouviu as opiniões, sugestões e críticas do presidente da Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast) e do Sindicato da Indústria de Material Plástico do Estado de São Paulo (Sindiplast), Merheg Cachum. Com dependência praticamente integral da energia elétrica, a área ingressa numa crise preocupante. “Vamos sofrer problemas muito sérios, daqui para a frente”, sentencia o presidente. Na sua opinião, é quase impossível atingir a meta de 20% de economia. Para ele, o Brasil deveria gastar, atualmente, cerca de 30% a mais, para garantir seu crescimento. Isso porque a meta foi baseada num período onde a economia do País dava seus primeiros sinais de crescimento, e ainda não estava super-aquecida. A previsão de desenvolvimento, no início deste ano, era boa, segundo Cachum. Ele conta que durante a Brasilplast 2001, muitos produtores de máquinas e equipamentos chegaram a vender toda sua produção. “Algumas empresas já começaram a receber suas máquinas. Mas elas não sabem o que fazer, pois não há energia para colocá-las em funcionamento”. E a pergunta que não quer calar: como ficam os investimentos dessas indústrias? Mas o problema não pára por aí. Afinal das contas, o plástico está presente em qualquer tipo de produto, como automóveis, eletrodomésticos, eletroeletrônicos, dentre outros. Até mesmo na cesta básica as dificuldades podem começar a surgir. Vários dos seus produtos são embalados em sacos plásticos, a exemplo do arroz, farinha, sal, feijão ou os frascos de PET para óleo de cozinha. Para Cachum, a área de embalagem será fatalmente atingida. E não é só isso. “Estamos atravessando um problema gravíssimo. Quais serão os reflexos para quem produz ou para quem fornece, para os exportadores, produtos que têm o plástico como agregado?”, questiona. E vai mais além: “Qual a credibilidade que uma empresa exportadora terá, quando seu cliente souber que ela não está conseguindo cumprir com seus pedidos, porque não tem energia em sua indústria?”. De quem a culpa? - A situação energética brasileira chegou às raias do inimaginável. Atualmente, fala-se numa queda do Produto Interno Bruto (PIB), da ordem de 2%. A expectativa para 2001 era de cerca de 4,5% ao ano; hoje espera-se um número de 2,5%. Na realidade, a questão da energia não se soluciona em poucos meses. Se tudo correr bem com relação às termoelétricas, Cachum estima que, em 2003, possa haver alguma melhora. “Isso era previsível. Há dez anos, nós da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) já alertávamos para o problema”. E complementa: “Ninguém acordou? Esperaram que os reservatórios de água chegassem aos níveis do absurdo de tão baixo, para se levantar a questão como catástrofe? Se o Brasil tivesse implantado as termoelétricas há alguns anos, hoje estaríamos decolando para o progresso e o desenvolvimento”, lamenta. Na opinião do presidente do Sindiplast e Abiplast, as pessoas que ocuparam o Ministério das Minas e Energia foram irresponsáveis. Mas ele frisa: “Não estou me referindo ao novo ministro dessa pasta, pois ele assumiu recentemente e esse Governo já tem seis anos e meio.” Energia não é um problema atual, mas constante. Solucionado hoje, se não houver uma projeção para o futuro, daqui a dez anos o País estará novamente atravessando o mesmo impasse. A perspectiva é que se consuma cada vez mais energia, pois só assim uma nação progride. Na opinião de Cachum, o presidente Fernando Henrique Cardoso foi atraiçoado por seus ministros. Ele exemplifica com um profissional com alto cargo em uma empresa que não coloca seu diretor a par de um problema sério. “O presidente é a autoridade máxima do País. O ministro das Minas e Energia deveria ter conhecimento do problema energético, dos níveis de água das represas e prevenir o chefe da nação. Ou será que tínhamos de contar sempre com a a juda de São Pedro?”, brinca. Riscos - Uma alternativa que muitas empresas estão adotando, para tentar driblar a crise atual, considerada a pior dos últimos 70 anos, é o uso de geradores. Cachum não se mostra muito otimista com essa hipótese. Por ser um processo em cadeia, não vai resolver para o empresário ter um gerador, se o seu cliente também não for “bem das pernas”. Mas, admitindo que todas as empresas ultrapassem as dificuldades com a aquisição de geradores, como o meio-ambiente irá responder a uma quantidade exagerada de monóxido de carbono a ser “jogada” no ar? O óleo diesel seria uma outra opção, mas alerta-se também para a quantidade de óleo que o Brasil tem. Cachum questiona como ficará seu preço com tanta procura. Além disso, ele é subsidiado para o uso nos meios de transporte. É preciso definir como ficaria esse subsídio. “Existe uma série de problemas que envolvem essa questão energética. Talvez ninguém precise de gerador; com a queda do PIB, pra que gerador? Lamentavelmente, estamos falando em reduzir, não em crescer”, alerta. Feriadão e apagão - O Plano B de racionamento de energia, que inclui um feriado por semana e o apagão por algumas horas, ainda é uma alternativa cogitada pelo Governo. O que isso pode gerar para o Brasil, caso ele venha a ser instituído, será muito parecido com o próprio caos. Com o feriadão, haverá uma perda aproximada de 20% na economia nacional. Significa um dia a menos de trabalho na semana. Já o apagão irá desmoralizar totalmente o País. Além disso, ocorrerá um aumento significativo da criminalidade, uma queda vertiginosa na produção e um aumento nas taxas de desemprego. “Se à luz do dia já existe tanta violência, como será na calada da noite ou na escuridão?”, pergunta o presidente da Abiplast. Em segundo lugar, como ficarão as grandes cidades. Imagine São Paulo totalmente escura. Sim, porque o apagão implica a falta de energia em todo o sistema de semáforos. Até desfazer o nó dado na cidade, com a volta da energia, vai haver muito prejuízo. O que fazer? - Cachum já fez um pedido ao Governo federal, para a diminuição dos 20% da meta de racionamento, o que foi negado. Para ele, as energias alternativas seriam a única solução. O uso do gás da Bolívia, na sua opinião, já deveria ter sido usado pelo Brasil há cerca de dois anos. “Hoje teríamos uma outra realidade”, afirma. Mesmo com a crise argentina e a queda da economia norte-americana, o quadro brasileiro seria bem melhor, garante ele. No papel de empresário, Cachum confessa estar sofrendo o problema como seus pares. “Sou obrigado a pensar em geradores, alguma maneira de obter energia, mas me pergunto se este é o momento de investir.” A única saída, ou melhor, sugestão, é que o governo priorize, assim como para a saúde, todos os projetos energéticos. As providências devem ser aceleradas, buscando recursos inclusive com o Fundo Monetário Internacional (FMI). “Eles terão que entender os problemas do nosso País. Sou contra a energia nuclear, principalmente a que temos, obsoleta, mas se for viável tecnicamente é preciso terminar Angra 3”, sentencia. Marcelo Rabinovitch
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