TELHAS REACENDEM NEGÓCIOS DO SETOR

A decisão da indústria de economizar energia com a substituição de lâmpadas por telhas translúcidas dá novo fôlego ao velho mercado brasileiro de PRFV

SIMONE FERRO

racionamento de energia elétrica apagou as perspectivas de crescimento de muitos setores da economia nacional, mas, para os fabricantes de telhas translúcidas confeccionadas em plástico reforçado com fibra de vidro (PRFV) ocorreu o inverso. Depois de alguns anos com pelo menos 60% de ociosidade, o setor começou a apresentar sinais de melhora, graças à principal característica do material: o aproveitamento da luz solar. As vendas aumentaram em meados de maio e prometem se manter aquecidas por um bom período, segundo expectativas do setor. “O apagão ressuscitou o mercado”, brinca Márcio A. de Lima, gerente comercial da Fiberplastic, fabricante de telhas e reservatórios de água, entre outros itens de materiais compostos, com sede em Santana de Parnaíba-SP.

Empregadas principalmente como complemento de outros materiais, como o alumínio e o amianto em coberturas industriais, as telhas translúcidas permitem a passagem de luz natural, reduzindo o consumo de iluminação elétrica. Em geral, ocupam entre 15% e 20% da área coberta, porcentagem considerada ideal para iluminar sem aquecer o ambiente. “O investimento é recuperado rapidamente com a economia de energia elétrica”, afirma José Alaor Alves, presidente da Associação de Materiais Plásticos Compostos (Asplar) e diretor da Macann, de Cajamar-SP, fabricante de telhas, caixas d’água, peças técnicas e outros produtos.

Entre as vantagens do material, Alves cita a leveza, a facilidade de instalação e manutenção, a translucidez e alta resistência mecânica. “O setor está normatizado desde 1998”, argumenta. Em épocas de energia elétrica farta e barata, no entanto, grande parte dos projetos deixaram de especificar os materiais compostos, mais caros que os concorrentes. “Os empresários optavam por gastar com lâmpadas a fazer a alteração no galpão de suas fábricas.” Isso justifica, segundo empresas do setor, a queda nas vendas e parte das dificuldades enfrentadas já há alguns anos. A regionalização dos fabricantes também aumentou a concorrência e a alta tributação do produto tornou-o pouco competitivo.

 


Segundo os fabricantes, a demanda cresceu não apenas para atender a novas instalações como também em substituição aos materiais opacos e telhas translúcidas com muitos anos de uso. A Fiberplastic deve voltar a atingir em junho a média histórica de produção, avaliada entre 45 mil e 55 mil m²/mês, volume alcançado há sete anos, antes da crise do setor.

Para exemplificar a influência do racionamento nacional de energia elétrica nos resultados da empresa, o gerente comercial cita a produção dos primeiros meses do ano. “Em março, as vendas ainda estavam baixas, cerca de 25 mil m², seguindo a tendência de queda registrada nos últimos meses”, avalia. O mês de maio, que começou igualmente fraco, encerrou com 40 mil m² de telhas comercializadas. “A tendência de alta se mantém.”
Divulgação
Cobertura de plástico reduz consumo de energia

 

Cuca Jorge
Vendas da Maccan cresceram 30% no mês de junho
Difícil mesmo será cumprir as metas de consumo estipuladas pela Câmara de Gestão da Crise de Energia. Com a duplicação da produção, o consumo de energia elétrica da Fiberplastic superou os 20 mil kWh antes do final do mês de junho, superando em quase 8 mil kWh a cota determinada. Para atender à demanda, a empresa criou mais um turno de trabalho e contratou seis funcionários.

A Maccan também excedeu a meta de consumo estipulada pelo governo. “Ficamos 18% acima”, informa Alves. As vendas, segundo ele, cresceram 30% em junho quando comparadas às médias anteriores. A empresa tem capacidade para produzir entre 90 mil e 180 mil m² de telhas por laminação contínua, de acordo com a espessura especificada. A solução encontrada para adequar-se às novas regras foi a compra de um gerador importado. Os investimentos para superar a crise do apagão se aproximam de US$ 50 mil.

Especializada na fabricação de telhas por laminação contínua, a Coberfibras, de Itápolis-SP, produziu 70 mil m² em junho, 10 mil m² mais que nos meses anteriores. “Alcançamos a capacidade total da fábrica”, informa o gerente geral Valdinei Edson Miarelli. Para dar conta do recado, a empresa estendeu o prazo de entrega de 48 horas para 15 dias. “As telhas incolores permitem até 84% de passagem de luz, sendo as mais procuradas.”
O empresário lamenta, no entanto, que o setor esteja sendo tão penalizado com a alta tributação, tanto da resina quanto do produto acabado. “Produzimos um material que contribui com as metas de racionamento do governo.” Além das telhas translúcidas incolores e coloridas, a Coberfibras fabrica telhas metalizadas que garantem transparência parcial e refletem os raios solares. Para tanto, espécie de filme metalizado é fixado na parte interna da telha.

Tributação — As telhas de poliéster pagam 15% de IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) contra 4% do amianto, 5% do asfalto (material importado) e 10% do alumínio. Tanto o aço quanto a cerâmica, o cimento e a pedra são isentos. “O produto, grande aliado do racionamento, é penalizado quando comparado a outros materiais, incluindo o amianto, banido em muitos países”, avalia Lima.
Cuca Jorge
Lima: produção volta a níveis históricos

Para crescer, o setor terá de lutar contra outras adversidades. A mudança na tributação do poliéster, cujo IPI passou de 5% para 15% em março deste ano, também penalizou a cadeia. “O governo alterou algumas alíquotas e contemplou o poliéster”, critica Lima. O reflexo desse aumento foi imediato. “Em abril, as vendas de resinas caíram entre 25% e 30%”, afirma Edoardo Daelli, diretor comercial da Cersa, fabricante de poliéster, gel coats e massa plástica, com sede em Osasco-SP. Representantes do setor, no entanto, esperam que o governo analise com mais atenção a questão do IPI, tanto da resina quanto dos produtos acabados. Para isso, a Asplar encaminhou reivindicação aos órgãos competentes.

Cuca Jorge
Daelli: IPI sobe e encolhe as vendas de poliéster
De acordo com Daelli, a partir de maio o mercado de resinas começou a esboçar pequena recuperação estimada em aproximadamente 5%. Desde então, as vendas se mantiveram estagnadas e abaixo das médias alcançadas em 2000. “Acreditamos na reação a partir do segundo semestre”, avalia. Na opinião dele, nos últimos meses o racionamento de energia elétrica também influenciou negativamente os resultados comerciais do setor.

Para não agravar a situação e reprimir ainda mais a demanda, os produtores não repassaram integralmente o aumento dos custos para o preço final da resina. “Teoricamente, deveria ter havido um reajuste entre 8% e 10% em junho”, informa Daelli. O último repasse, em torno de 5%, ocorreu entre os meses de março e abril.

De acordo com as previsões da Asplar, o reajuste deverá ser efetivado em julho, principalmente em função do aumento dos insumos e da variação cambial. Na verdade, de setembro do ano passado a janeiro de 2001, o preço do poliéster insaturado oscilou bastante, passando de R$ 2,20 para mais de R$ 3,00 o quilo (sem impostos), entre dezembro e janeiro. Até o final de junho a resina estava sendo vendida em média a R$ 3,60 o quilo.

Curinga — Enquanto o segmento de telhas para galpões industriais aparece como o curinga do apagão, outros produtos confeccionados com materiais compostos tais como banheiras e piscinas entram no ostracismo. Para o diretor comercial para a América Latina da Owens Corning, produtor de fibra de vidro com sede em Rio Claro-SP, Marcio A. Sandri, as telhas, embora tenham ganhado maior destaque, não são os únicos produtos capazes de contribuir com o racionamento.
Cuca Jorge
Telhas plásticas opacas substituem as de amianto

“Tubulações em compósitos têm menor coeficiente de atrito inicial e ao longo de sua vida útil, reduzindo a perda de carga e o consumo de energia.” Cita ainda os termoplásticos reforçados, substitutos do alumínio e outros metais, grandes consumidores de energia durante o processo produtivo.

Segundo dados divulgados pela a Asplar, existem no País aproximadamente cem fabricantes de telhas translúcidas, dos quais 27 operam com equipamentos automáticos (laminação contínua). A produção nacional, estimada em 700 mil m² ao mês, garante pequena participação no mercado total de coberturas. “Não chega a 1%”, informa Alves. O setor responde por algo entre 6% e 8% da demanda brasileira de poliéster insaturado, estimada em mais de 84 mil toneladas no ano passado. Já o cimento amianto atende aproximadamente 80% do mercado nacional de coberturas.

Telhas opacas — Novas oportunidades para as telhas plásticas despontam ainda em substituição às de amianto, material banido em aproximadamente 20 países por questões ambientais e de saúde pública, cujas restrições começam a ganhar força de lei também no Brasil. Os Estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Mato Grosso do Sul já vetaram o uso do material. Em São Paulo, a lei sancionada pelo governador Geraldo Alckmin estabelece a data de 1º de janeiro de de 2005 como limite para a utilização do amianto em todo o Estado.
Prevê ainda a substituição progressiva da produção e da comercialização dos produtos que contenham amianto, além de vetar a extração, utilização, pulverização e venda a granel do produto. Desde maio já não se aprovam novos projetos de construção civil especificando o material, assim como cessa a fabricação de novos itens.

Para concorrer com o polêmico mineral, alguns fabricantes, como a Macann e a Fiberplastic, trabalham no desenvolvimento das telhas opacas que agregam carga mineral e aditivo anti-chama (alumina tri-hidratada) ao poliéster reforçado com fibra de vidro. As telhas opacas, novidade para o mercado brasileiro, já são empregadas na França e outros países da Europa.

Com lançamento previsto para o segundo semestre, a telha da Macann está em desenvolvimento há um ano e tem como referência tecnologia adotada na Itália. “O material atende à especificação de inflamabilidade, não enferruja, não oxida e emprega estrutura de apoio leve, assim como as demais telhas de plástico reforçado”, garante Alves.

De acordo com ele, o preço também será vantajoso para o usuário. Embora ainda esteja formando o custo do material, calcula valor intermediário entre o aço e o alumínio.

Cuca Jorge
Fabiani: material garante maior resistência mecânica
“Estimamos oferecer o produto 5% mais barato que o alumínio.” O desenvolvimento da Fiberplastic, sem prazo para entrar no mercado, também emprega poliéster insaturado, fibra de vidro, carga mineral e alumina tri-hidratada. “Ainda não definimos a melhor opção entre as cargas minerais disponíveis no mercado”, explica o diretor comercial Marcos Fabiani.

A dificuldade, segundo ele, está em especificar o material com menor capacidade de absorção de água, além de determinar a quantidade de carga a ser adicionada à massa. A resistência mecânica do material e também às intempéries será testada em laboratório. “Já sabemos, no entanto, tratar-se de material mais resistente quando comparado ao amianto, cujo processo produtivo consome menos energia em relação ao aço e ao alumínio.”

Mercado – De acordo com pesquisa divulgada pela Asplar, calcula-se a existência de 2.345 empresas ligadas ao setor de compósitos - 130 fabricantes e 90 distribuidores de insumos, 255 prestadores de serviços e 1.870 transformadores. “São, em sua maioria, pequenas e médias empresas”, avalia Alves. As estatísticas da entidade apontam ainda que 38% delas empregam até 50 funcionários e apenas 14% contam com mais de cem colaboradores. A grande maioria, cerca de 65%, localiza-se na região Sudeste do País, 18% no Sul, 10% no Nordeste, 4% no Centro-Oeste e 3% no Norte. “O setor gera 100 mil empregos diretos e indiretos e no ano passado apresentou receita bruta de US$ 400 milhões”, informa Alves.

Dentre as tecnologias empregadas, ainda imperam as manuais com 58% de participação do spray up, 18% do handy lay up, 8% de laminação contínua, 6% do processamento a vácuo, 6% de RTM e 4% de outros. Segundo a gerente técnica da Cersa, Lourdes Candida Nunes o Brasil consumiu 84 mil t de poliéster insaturado no ano passado, demanda 8% superior à de 1999. “A previsão para 2001 é de 88 mil t.”
Cuca Jorge
Lourdes estima demanda de 84 mil t de poliéster

As resinas de poliéster insaturado representam 95% do mercado de PRFV (75% do tipo ortoftálica, 5% isoftálica, 10% tereftálica e 5% éster vinílica). Os 5% restantes são atendidos por outras resinas. O consumo dos termofixos, inclusive os não reforçados, cresceu 9%, chegando a aproximadamente 105 mil t. Para este ano, está prevista demanda de 115 mil t. Os números, no entanto, ficaram abaixo das médias estimadas anteriormente.

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