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RADIAÇÃO

EFEITOS DA RADIAÇÃO EM POLÍMEROS

Beatriz W.Hutzler Artel

O uso da irradiação em polímeros vem crescendo cada vez mais devido às grandes possibilidades de modificação de suas propriedades, sem a formação de resíduos. Os polímeros variam grandemente em sua interação com a radiação ionizante. Assim, a dose necessária para produzir os mesmos efeitos significativos em dois polímeros diferentes varia de valores tão baixos como os cerca de 4x102 Gy em politetrafluoretileno até os 107 Gy em poliestireno – Gy, símbolo de Gray, é a dose de radiação ionizante absorvida uniformemente por uma porção de matéria, à razão de 1 joule por quilograma de sua massa. Os efeitos causados pela radiação, por vezes em pequenas doses, afetam profundamente o material, pois, às vezes, uma única mudança em uma molécula já pode afetar as suas propriedades.

Cuca Jorge
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A autora é física e diretora
da Embrarad

Podem-se obter melhorias nas propriedades mecânicas, melhorias nas propriedades térmicas, resistência à abrasão, resistência a solventes, polimerização, graftização, etc.
Os maiores efeitos em polímeros surgem da dissociação de ligações de valências primárias em radicais. A dissociação de ligações C-C e C-H leva a diferentes resultados que podem ocorrer simultaneamente. Alterações em estruturas moleculares do polímero então aparecem como alterações nas propriedades físicas e químicas.
Entre os principais efeitos da radiação nos polímeros figuram:

Cisão da cadeia principal, com conseqüente redução do peso molecular. Este é o maior resultado da radiação em polímeros 1,1-dissubstituídos, tais como polimetilmetacrilato e derivados e poliisobutileno. A tendência à cisão está relacionada com a ausência de átomos de hidrogênio terciário, uma ligação mais fraca que a C-C média ou com a presença de ligações não usuais fortes (como C-F) em algum outro local da molécula.

Reticulação, com conseqüente aumento do peso molecular, podendo formar uma rede tridimensional insolúvel. A reticulação é a reação predominante na irradiação de poliestireno, polietileno, borrachas naturais e sintéticas, entre outros. Apresenta efeito benéfico nas propriedades mecânicas de alguns polímeros e é executada comercialmente para produzir polietileno com estabilidade aumentada e resistência a escorrer em altas temperaturas, por exemplo.

Outras mudanças químicas, como a formação de insaturações em polímeros vinílicos. A irradiação na presença de ar pode resultar em oxidação da superfície.

Os aspectos que influenciam na irradiação de polímeros levando a uma predominância da cisão, da reticulação, ou de ambas, estão relacionados com a estrutura química do polímero, morfologia, grau de cristalinidade e estado em que se encontra o polímero durante a irradiação. A presença de aditivos, a permeabilidade ao oxigênio, bem como a taxa de dose e a atmosfera da irradiação também constituem fatores de influência.

Alguns desses parâmetros serão brevemente analisados com o exemplo do efeito predominante da radiação em alguns polímeros usados comumente pela indústria, como o polietileno (PE), o polimetilmetacrilato (PMMA), o polipropileno (PP), o poliestireno (PS), o politetrafluoretileno (PTFE), o látex e o policloreto de vinila (PVC).

Polietileno (PE)

O PE é um polímero que reticula predominantemente. São já bastante conhecidos os usos de PE irradiado para revestimento de fios e cabos elétricos (devido à resistência à temperatura e à abrasão) e em espumas.

Um dos mecanismos propostos para a reticulação do PE é uma seqüência de subtrações e adições de H, levando à formação de H2 e à ligação cruzada entre dois radicais. Por outro lado, sabemos que as reações ocorrem basicamente na fase amorfa (maior mobilidade) e, portanto, o grau de cristalinidade do PE (polímero semicristalino) afetará a reticulação.

A presença de oxigênio durante a irradiação do PE afeta o rendimento das reações de reticulação, gerando oxidação. A taxa de dose, neste caso, é muito importante: uma menor taxa de dose permite uma maior difusão do oxigênio na amostra durante a irradiação.

Polimetilmetacrilato (PMMA)

O PMMA é um polímero que sofre preferencialmente cisão da cadeia principal o que, em parte, se deve à presença de duas cadeias laterais ligadas à cadeia principal. Polímeros com nenhuma (como o PE) ou uma única cadeia lateral presente geralmente reticulam.

Polipropileno (PP)

O PP é um polímero em que ambos os efeitos ocorrem simultaneamente. A degradação do PP acontece, em grande extensão, na fronteira da fase cristalina com a amorfa, ocorrendo, ainda, migração de radicais dos cristais que reagem nessa fronteira. As cadeias laterais do PP, os grupos metila, geram a produção de CH4 durante a irradiação. Na presença de oxigênio, o PP degrada muito pela reação dos radicais com o oxigênio formando peróxidos.
Já existem formulações de PP radioresistente utilizado na indústria médica para esterilização por radiação ionizante.

Poliestireno (PS)

O PS é um dos polímeros mais resistentes à radiação. O rendimento da formação de radicais (e conseqüente cisão e reticulação) é muito baixo. Essa alta resistência se deve à presença de grupos aromáticos na sua estrutura. Os grupos aromáticos absorvem a energia de excitação e seus estados excitados decaem com pouca quebra de ligações.

Politetrafluoretileno (PTFE)

O PTFE é um polímero que degrada muito quando irradiado. Os polímeros fluorados em geral têm baixa resistência à radiação. Durante a irradiação ocorre cisão das cadeias na fase amorfa que ligam os cristais. Isso permite que, após um aquecimento até a fusão e posterior resfriamento, os cristais se recomponham menos restritos às ligações da fase amorfa e com menor peso molecular. Isso faz com que aumente a cristalinidade do PTFE irradiado, que adquire importantes propriedades lubrificantes.

Látex

O látex preferencialmente reticula quando submetido à radiação ionizante, sendo este processo uma alternativa para a vulcanização do látex sem a utilização de enxofre e geração de resíduos. A dose para uma boa vulcanização do látex é muito alta (da ordem de centenas de kGy), mas pode ser reduzida com o uso de um sensibilizador (ordem de dezenas de kGy).

Policloreto de vinila (PVC)

Quando o PVC é irradiado, ocorre basicamente a quebra da ligação C-Cl, com subseqüente formação de HCl e duplas ligações conjugadas. É comum a formação de polienos na irradiação do PVC, que são importantes centros cromóforos. O PVC irradiado fica, portanto, amarelado. Já existem formulações de PVC radioresistente utilizado em material médico esterilizado por radiação ionizante.

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