entrevista

“Exportar ou morrer” é brado uníssono do setor

Maria Aparecida de Sino Reto

O presidente da Abiplast Merheg Cachum recebeu a reportagem de Plástico Moderno num dos momentos mais críticos das últimas décadas para o setor de transformação. Figura tarimbada da indústria do plástico, ele fala do alto dos seus mais dem 40 anos de atividade na área. Quase sempre otimista, retrata com tintas escuras o desempenho do primeiro semestre e acredita em poucos retoques até o final do ano. Mesmo assim, aposta na capacidade do setor em recuperar o fôlego com planos ambiciosos de ampliar as exportações. Para isso conta com apoio de toda a cadeia do plástico. Falta, porém, o principal. Para exportar é preciso antes qualificar o grosso da indústria com máquinas modernas e mais produtivas. Afinal só uma parcela minúscula já dispõe de tal arsenal. O que requer acesso a financiamentos. Corre-se o risco de ver o programa de exportações seguir o mesmo rumo do Fórum da Competitividade, ou seja, resultar em nada até o momento.


Plástico Moderno – O primeiro semestre deste ano foi atípico: o medo da guerra provocou alta nos preços das resinas e gerou grandes estoques na transformação de todo o mundo, Brasil inclusive. Qual sua análise sobre o período?

Merheg Cachum – Eu diria que este ano foi bastante atípico, e com transição de governo. Passada a transição, tivemos o problema da guerra, além de uma série de fatores que atrapalharam a economia de todo o mundo, não só do Brasil. Essa situação acabou gerando um problema extremamente difícil para a economia brasileira. Eu diria que o primeiro semestre deste ano foi, talvez, um dos mais difíceis que eu vivi nesses 42 anos no setor de plástico. E acho que o segundo semestre continuará igual. As perspectivas de mudanças são muito pequenas, a não ser que haja alguma grande mudança por parte do governo, como uma forte redução de juros, que induza à retomada do consumo. Para as pessoas retornarem ao mercado de consumo também é preciso parcelamentos maiores, meios de financiamento. O governo reduziu em três pontos o IPI dos carros. De que vai resolver isso? É preciso mais, é necessário reduzir o IPI, os juros, aumentar prazos de financiamentos, a custos baixos, como ocorre no mundo todo. Esses são os atrativos.

PM – E como ficou a transformação brasileira nesse período?

M.C. – Foi muito difícil. Nós tivemos elevação de preços nas resinas, o que foi um complicador. No último aumento, eu fui aos produtores e pedi para que não o aplicassem, que não era o momento, com o mercado parado, sem consumo. Quem determina preço não sou eu ou o meu associado, é o mercado, que funciona como ações da bolsa: quando você compra demais, sobe, e quando deixa de comprar, desce. E o mercado não está propício para comprar nada, com uma onda gigante de desempregados. As empresas hoje estão usando como recursos o banco de horas, reduzindo jornada de trabalho, e o último recurso é dispensar funcionários, e é isso que não queremos, mas pode ser inevitável. Minha esperança é que o Governo tome medidas urgentes, para ontem, porque, infelizmente, têm coisas que não dependem de nós, da nossa fábrica. As exceções são as empresas que já estão exportando, que encontraram outro caminho. E para isso estamos trabalhando em cima do programa de exportação, que é o Export Plastic, para dar um outro rumo para as empresas que se engajarem nas exportações.

PM – Que saídas a transformação buscou diante desse panorama crítico?

M.C. – Só tem uma saída, na minha opinião. Afora as mudanças que dependem do governo e não de nós, chama-se exportação.

PM – Foi assim que se solucionaram os problemas no primeiro semestre?

M.C. – Não, no primeiro semestre não se resolveu nada.

PM – Então, que saídas a transformação buscou no primeiro semestre?

M.C. – Ainda estamos buscando, mas não conseguimos obter sucesso.

PM – A indústria ainda tem resina estocada?

M.C. – Provavelmente. Sabia-se que a resina ia aumentar, então o transformador que tinha algum recurso, comprou. Quem não tinha também comprou, só que agora está com problema de caixa, ou está inadimplente, porque não pode pagar. Quem entrou nessa tem montanha de resina parada. E essa montanha de resina estocada não quer dizer nada, está gerando custos, lamentavelmente. Porque teve que ser paga, e, parada, continua representando custos.

PM – O mercado de distribuição reclamou de transformadores atuando como revendedores de resina.

M.C. – É lamentável, mas o que se vai fazer? Se eu uso 500 toneladas e sei que vai aumentar demais, se tenho crédito, compro 2.000 toneladas. De repente não gasto nem as 500. Que vou fazer? Jogo no mercado, até com preços mais baixos para poder cumprir com os meus compromissos e honrar o que devo aos meus fornecedores. É um grande problema.

PM – Embora pequenas, as vendas VIPE de resinas fecharam o primeiro semestre com acentuado crescimento. Como foi o desempenho da transformação nas exportações, com o aval do Export Plastic?

M.C. – Com o aval do Export Plastic eu diria que não aconteceu nada, porque o projeto ainda não está vigorando. Estamos terminando o projeto, que está em fase de aprovação na Apex. Provavelmente no fim de agosto, começo de setembro, deve estar aprovado. Mas a aprovação não depende de mim, e sim do governo. E aí, sim, começaremos a trabalhar em cima do programa Export Plastic. Por enquanto, são empresas que já exportam e contam com a colaboração dos produtores de resinas. Então, por via indireta, eu diria que está funcionando. Não é o Export Plastic propriamente dito, mas não deixa de ser uma forma de viabilizarmos as exportações brasileiras 

PM – Como foi o desempenho nas exportações?

M.C. – As exportações no primeiro semestre de 2003 estão na casa de 305 milhões 170 mil dólares, contra 242 milhões 607 mil dólares do mesmo período de 2002, representando crescimento de 25,79%.

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