Plástico

10 de junho de 2008

Retardantes de chama – Descaso legislativo e falta de informação dos consumidores mantêm consumo de plásticos antichama em baixa no Brasil

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Publicado por: Marcio Azevedo
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    Buenos Aires, Argentina, 30 de dezembro de 2004. Entre três e quatro mil jovens se apinham na casa de espetáculos República de Cromañón para acompanhar a apresentação da banda de rock Callejeros. Soam os acordes da primeira música e tem início um intenso show pirotécnico. Mas algo sai errado: fogos de artifício conhecidos como bengalas atingem uma tela feita de material plástico presa ao teto, e ela se incendeia rapidamente. Em poucos minutos, o foco de incêndio se transforma em uma “chuva” de fogo que se alastra pela decoração interna da casa, feita predominantemente de madeira e poliestireno expandido. Painéis de isolamento acústico também ardem em chamas, formando uma densa fumaça negra composta por gases tóxicos e monóxido de carbono. Combinada a uma série de irregularidades, como superlotação, saídas de emergência trancadas com cadeados e vias de escape obstruídas, ela causa a intoxicação mortal de 194 pessoas, e ferimentos em cerca de mil. É uma das maiores tragédias com incêndios no país vizinho.

    Plástico Moderno, Selena Ignácio de Mendonça, gerente-comercial da Chemtra, Retardantes de chama - Descaso legislativo e falta de informação dos consumidores mantêm consumo de plásticos antichama em baixa no Brasil

    Selena: panorama de uso de retardantes não se alterou

    Seguramente, o 30-D, como ficou conhecido na Argentina o episódio nefasto, ocorreu em virtude de um conjunto de circunstâncias em desacordo com normas de segurança, a começar do inaceitável uso de fogos de artifício em ambiente fechado. No entanto, também é certo que o uso de plásticos com retardância à chama poderia ter evitado o pior.

    Omissão – Como reflexo do episódio de triste lembrança, transformadores de plástico brasileiros foram às consultas com fornecedores de aditivos antichamas no mercado nacional. O interesse repentino foi grande, mas não houve avanços na venda dos retardantes. O culpado? A omissa política pública, tanto na Argentina quanto no Brasil, sobre a regulamentação de leis exigindo o uso de produtos antichamas em ambientes públicos. “Desde 2004, não houve mudança no panorama de utilização de retardantes no Brasil”, diz Selena Ignácio de Mendonça, gerente-comercial da Chemtra, líder de vendas no mercado nacional de retardantes com base em bromo, os mais utilizados.

    A omissão do poder público também se faz sentir na falta de dados sobre incêndios no Brasil. Nem mesmo as seguradoras possuem números que indiquem quanto se perde em dinheiro e patrimônio com esse tipo de acidente, quantas pessoas morrem, quais são as causas mais freqüentes, nem quantos incêndios ocorrem no Brasil. Também não existe estrutura local de certificação para produtos que não propagam fogo, e tampouco de fiscalização. Em mercados de países desenvolvidos, onde as vendas de aditivos retardantes à chama são muito superiores às do mercado brasileiro, explica o gerente de marketing regional da Lanxess no sul latino-americano, Alejandro Gesswein, a autoridade pública conhece o valor monetário dos prejuízos causados por incêndios. Por isso, ela insiste na prevenção, adotando leis que obrigam o uso de plásticos resistentes a chamas, e fiscaliza seu cumprimento com eficiência. O consumo desse tipo de aditivo, nos mercados maduros, ocorre principalmente na indústria civil, que produz painéis de isolamento acústico e térmico protegidos, bem como pisos, tetos e janelas de PVC, na visão de Gesswein.

    Aqui, entretanto, muitos fornecedores de retardantes concordam com um fato assustador, porém conhecido: é preciso que ocorram tragédias para que o Poder Legislativo tome medidas preventivas. “Esse é um tema que não dá votos”, diz um deles. Estaríamos à espera de outro Joelma, de um novo Andraus?

    Mercado incipiente – Diversos fatores contribuem para que o consumo nacional de retardantes seja baixo, estimado ao redor de 2 mil t/ano, englobando todos os tipos de moléculas utilizadas no país. Para alguns, esse tipo de aditivo só é vendido pela força de lei e norma, pois não tem apelo de marketing com o consumidor final, como ocorre com produtos dotados de selos “verdes”, que influenciam as decisões de escolha de consumidores ambientalmente engajados. “Se um colchão, ou um televisor, tem um selo comprovando que ele resiste a chamas, quantos consumidores estão dispostos a pagar 20% ou 30% a mais por essa característica?”, questiona Selena, da Chemtra. Os aditivos possuem preço tão maior que os polímeros base que o impacto no custo do produto pode ficar, em casos extremos, 40% maior. E, graças aos valores exorbitantes do barril de petróleo, que tem sido comercializado de US$ 120 a US$ 130, os preços de retardantes de chama têm subido em todo o mundo.

    Plástico Moderno, Luís Manuel C. V. Freitas, gerente-comercial da Macroplast, Retardantes de chama - Descaso legislativo e falta de informação dos consumidores mantêm consumo de plásticos antichama em baixa no Brasil

    Freitas crê na necessidade de uma mudança cultural

    Outros, como o gerente-comercial da Macroplast, Luís Manuel C. V. Freitas, crêem na necessidade de uma mudança cultural. “As pessoas deveriam comprar produtos antichama porque eles trariam maior segurança”, afirma Freitas. Mas o tema é pouco difundido, não existe a demanda por parte do usuário final, e os fabricantes não se animam pelo encarecimento que o aditivo traz ao produto final. É como um ciclo vicioso. Mesmo assim, Freitas também aponta uma deficiência em marketing, pois acredita que o retardante à chama pode, sim, ter um apelo entre o grande público. “Criar simplesmente leis para que produtos plásticos resistam ao fogo acarretaria um repasse de custos ao produto final, gerando insatisfação do cliente final, caso não haja um trabalho de esclarecimento mostrando que os artigos aditivados não propagam o fogo”, avalai o gerente-comercial da Macroplast.

    Essa consciência poderia ser importante para alavancar as vendas de aditivos retardantes principalmente nos segmentos de eletrônicos e eletrodomésticos, pois é crescente o número de pessoas que passam a maior parte do dia fora do lar, enquanto muitos aparelhos funcionam em standby, sujeitos a oscilações e sobrecargas de tensão quando não há pessoas em casa.


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