Plástico

21 de dezembro de 2012

Reciclagem – Apesar de embrionária, PNRS já traz impactos positivos para o setor

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Publicado por: Renata Pachione
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    A Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) foi implantada há dois anos, em meio à promessa de que se iniciaria uma nova era na indústria nacional da reciclagem. Embrionária, a medida, no entanto, ainda se firma em tentativas do setor para dar uma resposta à altura da legislação e na busca de sua viabilidade técnica e econômica. A aplicabilidade do modelo é complexa e embute dúvidas, mas mesmo assim já traz impactos positivos. A coleta seletiva no país, tradicional gargalo do setor, aumentou, e novos usos para a resina reciclada saíram do papel e chegaram ao chão das fábricas, como a tecnologia bottle-to-bottle.

    Há muito a se fazer em prol do mercado, porém o cenário está favorável: os índices de reciclagem cresceram a exemplo da disposição da indústria para efetivamente transpor velhos problemas, como a falta de incentivos tributários e a precária capacitação do catador.

    PNRS – Em agosto de 2010, o governo sancionou a lei 12.305, com a qual se instituiu a Política Nacional de Resíduos

    Plástico, Reciclagem - Apesar de embrionária, PNRS já traz impactos positivos para o setor

    Silvia: índice de reciclagem no país é baixo, porém expressivo

    Sólidos (PNRS). Mas as mudanças começaram muito antes – foram duas décadas de tramitação no Congresso Nacional. O reflexo disso é uma alta expectativa de todos os elos da cadeia e a aposta de que o modelo implantará um novo paradigma para a reciclagem no país. A teoria impressiona. Se o texto for seguido à risca, até agosto de 2014, não existirão mais lixões e haverá uma gradativa redução dos resíduos recicláveis secos dispostos em aterros sanitários.

    Além disso, são propostas melhores condições para os catadores de materiais reutilizáveis e recicláveis, organizados em cooperativas e órgãos afins. A ideia é a inclusão de pelo menos 600 mil deles em programas que determinam, por exemplo, a criação de crédito. “O aspecto social da indústria da reciclagem ganhará muito”, aponta Silvia Rolim, assessora técnica da Plastivida.

    Para que tudo isso saia do papel, o governo federal vinculou o repasse de verbas e a liberação de linhas de financiamento diferenciadas somente aos municípios que apresentarem planos de gestão de resíduos sólidos.

    Um dos pontos mais importantes trata-se da implantação – obrigatória – de programas de logística reversa com responsabilidade compartilhada dos fabricantes de produtos (envasadores, por exemplo), fabricantes de embalagens, varejo e setor público. Esse último item passa pela criação de acordos setoriais, ou seja, de um contrato firmado entre o poder público e a cadeia produtiva de determinado produto. No caso do plástico, a Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast) está em fase de execução do texto. Em janeiro de 2013, a proposta será entregue para consulta pública, para em seguida passar pelos devidos ajustes. Em outras palavras, apesar de representar um grande passo para a aplicação da logística reversa, esse é só o começo.

    Radiografia do setor – De efetivo o que se vê é um enorme potencial do setor. O mercado nacional da reciclagem recuperou 21,7% dos plásticos pós-consumo gerados em 2011 contra os 19,4% registrados no ano anterior. “Ainda é um número baixo, mas, diante da realidade brasileira, é algo bastante expressivo”, avalia Silvia.

    Esse índice significa que, dos 2,6 milhões de resíduos plásticos gerados, a indústria reciclou mecanicamente 736 mil toneladas do material. O faturamento neste ano alcançou R$ 2,4 bilhões – em 2011, R$ 1,95 bilhão. Ou seja, o mercado está bem aquém do seu potencial. Basta comparar o faturamento da indústria da transformação com o das recicladoras. Enquanto a primeira registrou R$ 50,68 bilhões, a segunda, como se vê, ficou com pouco mais de dois bilhões de reais. “Esse valor é incipiente”, ressalta Gilmar do Amaral, do departamento de relações institucionais da Abiplast.

    Plástico, Recicladora se especializou na sucata pós-consumo, Reciclagem - Apesar de embrionária, PNRS já traz impactos positivos para o setor

    Recicladora se especializou na sucata pós-consumo

    De qualquer maneira, o Brasil tem posição de destaque no ranking mundial da reciclagem mecânica de plásticos pós-consumo. Suécia (35%), Alemanha e Noruega (33%) encabeçam a lista. Logo atrás estão: Bélgica (29,2%), Dinamarca (24%), Itália (23,5%), Suíça e Reino Unido (23%) e Eslovênia (22%).

    As poliolefinas representam 66% dos resíduos plásticos pós-consumo gerados. A maior parte é composta por PEBD e PEBDL, com a soma de 996 mil toneladas, enquanto o PP e o PET vêm em seguida, com 705 mil t e 614 mil t, respectivamente. Desse volume, o PET se configurou como a resina mais reciclada, com índice de recuperação de 53,4%; em seguida, esteve o PEAD, com taxas de 20,2%, à frente do PVC, cuja reciclagem alcançou 19%. Para o PEBD e o PEBDL, a reciclagem chegou a 14,7%; e no caso do PP, 11,9%, enquanto de PS e XPS, 9,7%.

    Do total de resíduos plásticos coletados em 2011, 68% teve origem pós-consumo, enquanto 32% é oriundo das aparas da indústria. A quantidade de plástico reciclado somou 1.077 mil toneladas. Desse montante, o PET (361 mil t) e os polietilenos (409 mil t) somaram quase 85% do total. O restante se dividiu entre: PP (154 mil t), PS/XPS (53 mil t), PVC (43 mil t), EPS (21 mil t) e outros – ABS, PC, POM, PA e EVA (36 mil t).

    De maneira geral, o desempenho do setor se respalda em avanços. Do ano passado para este, o número de recicladores aumentou 10,4%, assim como os empregos diretos – hoje, somando pouco mais de 22 mil contra algo em torno de 18 mil no ano passado. A capacidade instalada cresceu (16,2%), e, obviamente, a produção também: a indústria reciclou 13% a mais de plástico em 2012, somando o resíduo pós-consumo e o industrial.

    O maior consumidor do plástico reciclado foi o segmento de utilidade doméstica, que respondeu por 177 mil toneladas. A demanda restante se dividiu, sobretudo, entre os setores de agropecuária, indústria (cujas aplicações foram embalagens industriais, caixarias, filmes stretch e fitas de arquear, entre outras), têxtil e construção civil. “O destino do reciclado é tão diversificado quanto o do transformado que vem da resina virgem”, comenta Silvia.

    Cada tipo de resina reciclada, por sua vez, é direcionado a uma aplicação. O PET, como já é tradição, destina-se à indústria têxtil, enquanto o PEBD e o PEBDL vão para a agropecuária e para a construção civil (em geral, tornam-se lonas), e o PEAD se volta, sobretudo, às embalagens industriais e descartáveis (no caso, as sacolas). A indústria automobilística e a de eletroeletrônicos são as principais consumidoras dos plásticos de engenharia reciclados. O PP recuperado é utilizado em aplicações de utilidades domésticas, como baldes e bacias, e o PVC, por sua vez, em tubulações da construção civil e infraestrutura. O EPS reciclado tem aplicação na construção civil em lajes, telhas isolantes e preenchimento de pisos, enquanto o PS, em peças de eletrodomésticos e eletroeletrônicos.

    Esses índices revelam o desempenho de 815 empresas recicladoras, diagnosticadas em levantamento da Maxiquim, encomendado pela Plastivida Instituto Sócio Ambiental dos Plásticos e desenvolvido de acordo com metodologia do IBGE. O universo pesquisado, no entanto, os especialistas admitem, não reflete a realidade do setor na sua magnitude. Por conta da sua informalidade, estima-se que o mercado seja muito maior do que o avaliado. 
    Análise – Muitos são os problemas; e esse alto grau de informalidade é só um deles. Segundo Amaral, da Abiplast, essa questão se configura como um grande desafio para o setor, e talvez nunca possa ser eliminada totalmente. “Pequenos recicladores informais tornam a concorrência desleal, mas sabemos que não é possível acabar com eles, mas podemos reduzi-los”, comenta.

    De qualquer maneira, com a amostra diagnosticada, já se nota um índice de ociosidade no mercado da reciclagem no país. A indústria tem capacidade instalada de 1,7 milhão de toneladas, porém utiliza 63% de seu nível operacional. “Trabalhar com 37% de ociosidade é um alívio, pois a indústria não tem condições hoje de atingir sua capacidade plena”, comenta Silvia.

    Para ela, será necessário esperar cinco anos para as empresas conseguirem operar no seu limite. Essa expectativa está associada à data em que efetivamente a PNRS será implantada, segundo sua previsão.

    “Essa legislação vai aumentar a oferta de plástico, e sabemos que se opera com ociosidade hoje porque falta coleta seletiva”, explica Silvia.

    Plástico, Apesar de embrionária, PNRS já traz impactos positivos para o setor

    Paulo Francisco delata falta de preparo técnico do catador

    A lista de reclamações continua. No quesito matéria-prima, a precariedade da coleta seletiva há muito tempo é notória, caracterizando assim a escassez do material. Se não bastasse isso, a qualidade também deixa a desejar, assim como as perdas do processo. Por conta da ineficiência do maquinário, estima-se que, após a triagem e a lavagem, 11% do material seja perdido, conforme revela Amaral. “Há equipamentos ultrapassados, tornando alto o custo da produção”, afirma.

    Outro entrave para o crescimento do setor se refere à falta de qualificação do catador. O resíduo plástico, muitas vezes, não passa por uma separação criteriosa, o que resulta do preparo técnico falho desse profissional. “O catador, em geral, divide o plástico assim: há o plástico mole e o duro. Não existe mão de obra especializada”, argumenta Paulo Francisco da Silva, diretor comercial da Neuplast. Essa postura gera contaminação e, consequentemente, perdas. “Aqui entram 1.500 t de material e saem 1.300 t”, explica o diretor.

    Ele admite, no entanto, que o mercado desperdiça muito mais. A sua realidade não reflete a da maior parte do mercado, até porque são mais de trinta anos no mercado da reciclagem do plástico. “Fazemos um trabalho sob medida para o cliente. O meu mercado tem especificações, o universo no qual atuo é pequeno”, comenta. Na Neuplast, as operações dão conta de todo o processo, desde a triagem e a limpeza de sucata plástica à transformação em grãos. Só a moagem é terceirizada. Recicladora de polipropileno e de polietileno, a empresa se especializou na sucata pós-consumo. O resíduo industrial na sua produção não chega a 5%. Reprocessadas, essas resinas seguem para as indústrias de brinquedo, utilidade doméstica, industrial (fabricação de pallet, essencialmente), automobilística e de produtos escolares, entre outras.

    Para abarcar a questão da falta de conhecimento do catador, em curto prazo (previsto para 2013) será lançado um programa de qualificação da mão de obra dentro das cooperativas. “Estamos trabalhando forte nisso”, afirma Amaral. Hoje no país há entre 800 mil e 1 milhão de catadores, mas só cerca de 40 mil estão organizados em cooperativas.

    Essa iniciativa resulta da criação da Câmara Nacional dos Recicladores de Material Plástico (CNRMP), em meados deste ano. “Estamos tentando organizar essa indústria”, diz Amaral. Entre as metas, ele destaca o incentivo a linhas de crédito e o fortalecimento da imagem do plástico reciclado, mas, sobretudo, a desoneração tributária.

    Mais entraves – A tributação ao longo dos anos se revelou como um dos pontos mais críticos do mercado da

    Vilhena: distorções tributárias inibem o crescimento do setor

    reciclagem. É notório: o momento de promover a desoneração da cadeia chegou. Segundo informações do Compromisso Empresarial para Reciclagem (Cempre), o senador Paulo Bauer, do PSDB/SC, levou ao Senado uma Proposta de Emenda à Constituição – a PEC 01/2012 – que visa a dar imunidade de impostos para produtos elaborados com material reaproveitado ou reciclado. Apresentada em fevereiro deste ano, a PEC foi aprovada por unanimidade, em setembro, pela Comissão de Constituição e Justiça do Senado. O texto deverá agora ser votado em dois turnos no plenário. “Em linhas gerais, a ideia é dar um tratamento diferenciado para produtos que têm matéria-prima reciclada”, explica André Vilhena, diretor executivo do Cempre.

    Para ele, é preciso rever os tributos, sobretudo o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) e o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), pois são, há muito tempo, obstáculos para o crescimento da reciclagem no país. “Essas distorções tributárias que vemos hoje inibem os investimentos”, argumenta. Da mesma opinião compartilha Amaral. Até por isso a Abiplast tem promovido ações para corrigir a tributação. Neste mês de novembro, empresários se reuniram para discutir diretrizes para o desenvolvimento de políticas públicas de incentivo à cadeia do setor. Foram até o congresso para apresentar materiais produzidos pela indústria de reciclagem, tais como telhas feitas de PET, madeira plástica, sacos de lixo feitos de matérias-primas recicladas, e pleitear leis que incentivem essas indústrias. A iniciativa pela Frente Parlamentar de Incentivo à Cadeia de Reciclagem tem patrocínio da Associação Brasileira da Cadeia de Sustentabilidade Ambiental do PET (Abrepet) e da Abiplast.

    Coleta seletiva cresceu – Mais avançada está a discussão sobre a coleta seletiva no país. A pesquisa Ciclosoft, realizada pelo Cempre, revelou que a implantação da Política Nacional de Resíduos Sólidos já trouxe impactos positivos à indústria, de acordo com Vilhena. Considerado o principal entrave do processo, a coleta seletiva cresceu nestes dois anos. Desde 2010, ano em que a medida foi promulgada, o número de municípios que atuam com programas estruturados da coleta subiu de 443 (cálculo de 2010) para 766. O dado significa que 14% dos municípios brasileiros promovem o serviço.

    Realizada a cada dois anos, a pesquisa se baseia em questionários enviados às prefeituras e em visitas técnicas. Os avanços são perceptíveis, no entanto, ainda ínfimos perto da demanda do país. Em tempo, no primeiro levantamento, feito em 1994, o índice era de 81 municípios.

    A Ciclosoft apurou também que o custo médio do serviço estruturado de coleta foi de R$ 424, enquanto a convencional custa R$ 95. Ou seja, ainda é caro. Na composição dos resíduos coletados, os plásticos correspondem a 15,6% do total (em peso). As aparas de papel/papelão são os recicláveis mais recolhidos pelos programas municipais, somam 45,9%. Os rejeitos (materiais que não podem ser recuperados) representam 17,4% e os vidros, 9,1% da coleta.

    A maior parte dos municípios realiza a coleta de porta em porta. Os postos de entrega voluntária também são uma alternativa aceita pela população. Entre os municípios pesquisados, 48% deles efetuam o programa por intermédio de sua própria prefeitura, enquanto 26% contam com a contratação de cooperativas.

    As regiões Sudeste (52%) e Sul (34%) do país juntas respondem por 86% dos municípios com coleta seletiva. A Região Nordeste vem em seguida com 10% do total, enquanto as regiões Centro-Oeste e Norte correspondem a 2% cada.

    Além da pesquisa, em 2012 o Cempre realizou o VIII Seminário de Resíduos Recicle Cempre. Foram três dias de palestras e painéis, ocasião em que reuniu representantes de todos os elos dessa cadeia. No auditório do Expo Center Norte, entre os dias 6 e 8 de novembro, discorreram membros das cooperativas, do governo e da indústria.

    Novos usos para o reciclado – Independentemente da atuação das prefeituras, as indústrias, à sua maneira, optaram por se articular a fim de se preparar para esse novo momento da reciclagem no país. Vilhena destaca como avanço os desenvolvimentos relacionados ao bottle-to-bottle. “São iniciativas muito importantes, pois agregam valor ao reciclado”, aponta. Para ele, esse passo à frente dado pelo mercado, inegavelmente, é como uma resposta do setor à PNRS.

    Rolim: bottle-to-bottle estimula o descarte correto da garrafa

    Não por acaso, Ricardo Rolim, diretor de relações socioambientais da Ambev, faz questão de divulgar a experiência do programa Ambev Recicla, que culminou no lançamento de garrafa PET feita com 100% de resina reciclada. Até o momento, foram produzidas 28 milhões de embalagens; e o objetivo é encerrar este ano com 40 milhões, o equivalente a 12% de todas as garrafas de dois litros do Guaraná Antarctica. De acordo com o fabricante, há uma redução anual de 1,3 mil toneladas de resina virgem.

    “Nossa intenção é fazer a garrafa se tornar outra garrafa PET. Esse é o melhor destino para a embalagem”, afirmou Thiago Zanettini, gerente de marketing de refrigerantes e não alcoólicos da Ambev. A apresentação oficial do produto se deu em novembro, porém a garrafa já circula desde março. A Ambev desenvolve o projeto desde 2009, e as expectativas são de expandir o volume dessas embalagens em 20% no próximo ano.

    Segundo Rolim, essa nova aplicação para o PET representará um importante impulso para a reciclagem do país. “A necessidade de matéria-prima estimula as cooperativas de catadores, gerando um incentivo natural da sociedade para o descarte correto do material”, argumenta.

    As embalagens feitas com a resina reciclada são produzidas nas fábricas da Ambev localizadas em Nova Rio-RJ, Curitibana-PR e Sapucaia-RS. Segundo o fabricante, na sua produção há uma economia de 70% de consumo energético.

    A Coca-Cola saiu na frente no uso da tecnologia bottle-to-bottle. Desde o ano passado, abastece o mercado com uma garrafa que utiliza 20% de PET PCR (resina reciclada pós-consumo grau alimentício) e 80% de resina PET virgem. No processo de fabricação do PET PCR, as embalagens coletadas são selecionadas e trituradas. Os flocos resultantes passam por um processo de intensa limpeza e descontaminação em um reator, sob alta temperatura e pressão, até atingir um grau de pureza adequado para utilização na fabricação de embalagens destinadas ao contato direto com alimentos.

    O lançamento dessa embalagem está alinhado com a plataforma de sustentabilidade Viva Positivamente, criada em 2008 pela Coca-Cola Brasil. Hoje, a empresa apoia cerca de 200 cooperativas em todo o país, com o objetivo de torná-las lucrativas e geridas corretamente, além de contribuir para a formação de uma cultura de reciclagem.

    Molero aposta no PET reciclado para uso em estádios de futebol

    Apesar de essas iniciativas representarem feitos importantes da indústria, o engenheiro Jorge Selma Molero, diretor da Plastincolor, aposta mesmo é no uso do PET reciclado para o que considera uma aplicação diferenciada: peças para eventos esportivos. “Essa é uma inovação mundial”, observa o diretor. Na prática, garrafas de refrigerante da Coca-Cola passarão a ter uma destinação adequada, e se transformarão em parte dos assentos dos estádios de futebol construídos para a Copa das Confederações e para a Copa do Mundo.

    A primeira etapa do projeto, da qual a Plastincolor participa, corresponde a três mil assentos para o estádio do Mineirão (MG), o equivalente a seis toneladas de PET reciclado. Antes a peça era produzida com resina virgem, no caso o PP. O programa completo prevê instalações também no Maracanã (RJ) e no Estádio Nacional de Brasília.

    Esse volume é baixo? Sim, trata-se de uma iniciativa pontual e de um projeto piloto. No entanto, os avanços técnicos suplantam o aspecto comercial do negócio. Modificar a resina de maneira que fosse capaz de atender às especificações da norma BR 15925 foi um ponto crucial do desenvolvimento, informa Molero. O material possui aditivação antichama e estabilização à luz ultravioleta. “Estamos trabalhando nesse projeto há aproximadamente um ano e meio. Foi um desafio e tanto para nós, pois o material precisava ter um comportamento de injetabilidade para a fabricação das peças de forma que elas tivessem suas propriedades melhoradas, quanto ao impacto e à flexibilidade”, explica Molero.

    O projeto foi desenvolvido por causa de solicitação da Coca-Cola, que responde pela coleta de suas garrafas. O material é direcionado à Viscotech, de Poços de Caldas-MG, que recebe as embalagens do refrigerante e faz a pós-condensação do PET para depois produzir o composto. Em seguida, o material segue à Plastincolor para a fabricação da resina. A injeção da peça é feita pela Rhodes, de Minas Gerais. Em média, cem garrafas de 600 ml fazem um assento de resina reciclada.

    Iniciativas isoladas – A política reversa de materiais recicláveis também está na pauta de outras empresas. Um caso é

    Juliana: havia carência de um processo para reciclagem do PU

    o da Procter & Gamble Brasil, que se uniu à WiseWaste para produzir peças promocionais com PP reciclado pós-consumo. A aplicação se refere a displays da campanha 3D White da marca Oral-B. Desde fevereiro as empresas realizam a coleta de embalagens pós-consumo diretamente de cooperativas, pontos de entrega voluntária e na própria indústria. Segundo a fabricante, o projeto está alinhado às novas determinações da PNRS. Até o momento, já foram recolhidas mais de mil toneladas de materiais recicláveis de cinco cooperativas, e produzidos displays promocionais para as lojas da rede Extra Hiper, em São Paulo.

    Outro projeto que contribui para a aclamada sustentabilidade do mercado de plásticos é o da Unilever. Trata-se da reciclagem do poliuretano (PU) utilizado no isolamento interno das geladeiras de sorvetes Kibon. A iniciativa teve início em 2010 e se refere ao PU, pois até então era o único componente do equipamento que não era reciclado. “Percebemos que não havia um processo de reciclagem desenvolvido”, comenta Juliana Marra, gerente de assuntos governamentais da Unilever. Este material pode levar até 150 anos para se decompor.

    Uma geladeira Kibon chega a ter em média sete quilos de PU. A resina reciclada se transforma em vários produtos como pranchetas, réguas, lixeiras e até mesmo peças plásticas da própria geladeira. A reciclagem é feita pela Policert, por meio de processo químico e mecânico. Já a manutenção e o descarte do equipamento são realizados por uma empresa terceirizada. Essas parceiras respondem pela retirada dos equipamentos, assim como a desmontagem e a separação dos materiais, além do envio à recicladora.

    “No Brasil, atuamos com foco na redução da geração de resíduos, tanto nas manufaturas quanto nos processos ligados à produção de embalagens e em melhorias no descarte e destinação de frascos e embalagens, como a reutilização e a reciclagem”, explica Juliana. Esse programa abarca uma média de sete mil equipamentos.

    O apelo sustentável dos projetos promovidos pela indústria é louvável, mas a mensagem transmitida precisa também passar pelas cifras e não exclusivamente pela “onda verde”. Segundo Victor Bicca, presidente do Cempre, o Brasil desperdiça em média 5 bilhões de reais por ano pela ineficiência da indústria de reciclagem. O estudo “Pesquisa sobre Pagamento por Serviços Ambientais Urbanos para Gestão de Resíduos Sólidos”, feito em 2010 pelo IPEA, aponta que a reciclagem e o reaproveitamento do lixo urbano (considerando-se apenas o aço, o alumínio, a celulose, o plástico e o vidro) movimentam volume de recursos superior a 8 bilhões de reais, em valores de 2010. “Hoje reciclamos somente 3 bilhões de reais”, reclama Bicca. Segundo ele, é algo a se pensar.

    PET TEM LIDERANÇA ENTRE OS PLÁSTICOS RECICLADOS

    O PET hoje é o plástico (pós-consumo) mais reciclado pela indústria. No ano passado, esse segmento faturou R$ 1,2 bilhão, o equivalente a mais de um terço do faturamento da indústria da resina virgem no país. O volume reciclado alcançou 294 mil toneladas, índice 4,25% superior ao registrado em 2010.

    Os catadores representaram os principais fornecedores do material reciclado. Eles são um elo fundamental dessa cadeia. No caso do PET, 47% das garrafas pós-consumo que foram recuperadas são oriundas desses profissionais.

    Segundo o presidente da Associação Brasileira da Indústria do PET (Abipet), Auri Marçon, o Brasil é o país com o maior número de aplicações para o PET reciclado, até porque a aceitação do material aumentou muito nos últimos anos. “Todas as montadoras instaladas no Brasil utilizam a resina recuperada em seus carpetes”, exemplifica.

    Ele conta que há quinze anos era complicado convencer a indústria a utilizar material reciclado; e, se convencida, mesmo assim, a informação não era divulgada. Hoje o cenário é o oposto. As empresas chegam a utilizar como propaganda positiva o uso do reciclado.

    O perfil das recicladoras também mudou. Segundo Marçon, o mercado está mais maduro. Mais de 90% delas têm no mínimo cinco anos de atuação. Em 2004, esse índice era de 32%. Além disso, mais da metade das companhias preveem investimentos para o próximo ano.

    Marçon: indústria sabe dar valor à resina recuperada

    Ele destaca outro incremento, no caso, qualitativo. A destinação do PET reciclado está mais nobre. Um marco, sem dúvida, refere-se ao bottle-to-bottle, a fabricação de garrafa para uso alimentício com a resina reciclada. Não por acaso, um censo promovido pela Abipet revelou que entre as aplicações mais promissoras essa tecnologia lidera. “Trinta e três por cento dos entrevistados apostam no bottle-to-bottle”, comenta Marçon.

    Apesar de se configurar como a aplicação mais ilustre da qual se tem notícia da resina hoje, a maior parte desse material se destina ao mercado têxtil. O setor consome o equivalente a cerca de 40% do total; em seguida, vêm os segmentos de resinas insaturadas e alquídicas (19%) e embalagens de alimentos e não alimentos (17%).

     Os índices são louváveis e motivo de ostentação da Abipet, no entanto, essa indústria tem muito a avançar. Para se ter uma ideia, a Associação Brasileira dos Fabricantes de Latas de Alta Reciclabilidade (Abralatas) divulgou que, do total de latas de alumínio comercializadas em 2011, quase 98,3% foi recuperado. O segredo, segundo Renault de Freitas Castro, diretor executivo da Abralatas, passa pela questão financeira, pois essa taxa está diretamente ligada ao alto custo da sucata.



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