Plástico

21 de dezembro de 2012

Polietilenos – Mercado brasileiro do polímero sofre com crise na transformação

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Publicado por: Maria Aparecida de Sino Reto
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    Plástico, Polietilenos - Mercado brasileiro do polímero sofre com crise na transformação

    De uma maneira ou de outra, o avanço das importações, tanto de transformados plásticos como de resinas, afetou toda a cadeia produtiva. Mesmo com uma demanda doméstica crescente, a transformação brasileira encolheu neste ano. Quem levou a melhor e capturou a fatia adicional foram os produtos importados. Enquanto a produção nacional de peças plásticas retraiu quase 1%, segundo divulgou a Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast), as importações desses produtos acabados alçaram voo e atingiram 697 mil toneladas neste ano, contra 660 mil toneladas em 2011.

    Diversos fatores desenharam esse quadro, desde problemas estruturais que oneram a produção brasileira, à grave crise econômica que assola particularmente os países europeus, com uma forte repressão no consumo, redirecionando os focos de vendas para países onde a economia ainda mantém algum fôlego, como o Brasil.

    Uma das commodities mais usadas no Planeta, o polietileno registrou um forte crescimento mundial nos últimos anos, impulsionando suas principais variedades (baixa densidade, baixa densidade linear e alta densidade), e promete continuar a escalada, segundo indicativos da consultoria americana Lucintel, que divulgou, em junho deste ano, a pesquisa intitulada “Global Polyethylene Industry 2012-2017: Trend, Profit, and Forecast Analysis”. De acordo com esse estudo, a indústria global de polietilenos mostra propensão para evoluir a taxas de 3,5% nos próximos cinco anos, chegando a cerca de US$ 148,1 bilhões em 2017. Inovações em produtos e processos devem conduzir as estratégias dos competidores nessa expansão.

    O caminho reserva alguns atropelos. Outra consultoria igualmente reconhecida no mercado mundial, a ICIS prevê dificuldades para a indústria de polietileno por conta da crise europeia e da desaceleração no mercado asiático. Segundo a entidade, o impacto da turbulência econômica na zona do euro deve continuar pressionando globalmente o mercado da resina.

    Os países do Oriente Médio, com disposição farta de matéria-prima de baixo custo, no caso o etano, associada a elevadas capacidades produtivas, continuam em vantagem sobre outras regiões. Mas o desenvolvimento do etileno de gás de xisto (shale gas) no mercado norte-americano está promovendo uma reviravolta na petroquímica mundial e abrindo novas perspectivas para a indústria de polietilenos com matérias-primas a custos competitivos. No entanto, os altos custos do petróleo e da nafta devem segurar os preços da resina na Europa.

    Tanto a Lucintel como a Chemical Market Associates, Inc. (CMAI), outra renomada consultoria americana, destacam duas tendências importantes no mercado de polietilenos: os produtos competitivos pelo gás de xisto, nos Estados Unidos; e a resina brasileira derivada de eteno obtido do etanol da cana-de-açúcar, por sua pegada ecológica.

    No Brasil, Edison Terra, o diretor do negócio de polietileno da Braskem, única fabricante local da resina, dá boas notícias. Ele espera uma melhora gradual e contínua da demanda nos próximos meses, o que o faz considerar um cenário mais positivo para 2013, em relação ao desempenho do mercado neste ano.

    Sobre 2012, principalmente dois acontecimentos frustraram o diretor: crescimento da demanda abaixo das

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    Terra desenha um cenário mais positivo para a resina em 2013

    expectativas e custo acima do previsto para a matéria-prima, que, na opinião dele, “não guardou uma coerência com o preço das resinas”. O avanço das importações de produtos transformados também freou o mercado de resinas: “Afetou diretamente a cadeia.”

    Além dos problemas domésticos, a Braskem ainda sentiu os efeitos colaterais da contração da demanda no mercado europeu, o consequente redirecionamento de excedentes tanto dos produtos asiáticos como dos próprios fabricantes europeus para a América do Sul. “Apesar disso, avançamos na nossa participação no mercado brasileiro por meio de parcerias estabelecidas com os transformadores”, relata Terra.

    Nas estimativas dele, o consumo brasileiro atual de polietileno se divide em 680 mil toneladas anuais de PEAD, 387 mil t/ano de PEBD (sem EVA) e 663 mil t/ano de PEBDL. Considerando os últimos doze meses, o mercado doméstico absorveu, em seus cálculos, 1,640 mil toneladas de polietilenos da marca, enquanto direcionou para o exterior 897 mil toneladas no período. Ele observa que, no mercado interno, principalmente os segmentos de rotomoldagem, filmes, compostos e sopro consumiram mais resina; e entre os tipos, o PEBDL avançou bastante, compensando a queda do PEBD.

    A Braskem possui no país uma capacidade instalada de 1 milhão 385 mil toneladas anuais de PEAD, 790 mil t/ano de PEBD e 855 mil t/ano de PEBDL. Terra lembra o fato de algumas dessas linhas produtivas serem multipropósito, aptas a produzir PEAD e/ou PEBDL e PEBD e/ou EVA. “Assumimos em PEBD = PEBD + EVA, e as linhas que produzem PEAD e PEBDL estão 50% em cada”, frisa.

    O maior projeto de investimento na produção de resinas da Braskem no país está focado no Comperj, no Rio de Janeiro, ainda em fase de negociações com a Petrobras. Segundo Terra, as plantas em operação devem receber investimentos em desgargalamentos, melhorias de processo e ganhos de eficiência industrial.

    Fora do Brasil, a empresa ainda estuda a viabilidade de investimentos no Peru e na Venezuela, enquanto prossegue com o projeto Etileno XXI, no México, onde constrói um complexo de polietileno (dois trens de polietileno de alta densidade, somando em torno de 750 mil toneladas anuais, e um de 300 mil toneladas anuais de polietileno de baixa densidade convencional, de alta pressão), integrado à produção de matéria-prima, em parceria com a estatal local Idesa. O início das operações está previsto para 2015.

    Licenciamento tecnológico com a Ineos permitirá a utilização de tecnologia de última geração em produção e catálise nas duas plantas de PEAD. A tecnologia Lupotech T para a alta pressão, da holandesa Lyondellbasell, agregará uma extensa gama de PEBDs com diversos índices de fluidez e excelentes propriedades ópticas e mecânicas.

    PEBDL x PEBD – Desde a inauguração da primeira planta brasileira de polietileno de baixa densidade linear, há mais de duas décadas, a indústria de transformação não para de descobrir talentos nessa resina, com a ampliação da sua participação no mercado, em detrimento do PEBD convencional, de estrutura ramificada. Segundo constata o diretor da Braskem, a relação de consumo das duas resinas varia de país para país, de acordo com o parque instalado e o perfil da indústria local de transformação. Pelas características dos transformadores brasileiros, Terra ainda entrevê espaço para expandir o uso do PEBDL sobre o PEBD, mas ressalva que esse avanço dependerá da relação de preços das duas resinas e dos investimentos futuros da transformação.

    Proprietários da distribuidora de resinas Replas, os irmãos Marcos e Marcelo Prando avalizam a projeção de crescimento do PEBDL. Segundo recordam, quando a resina começou a ser comercializada no país, a previsão de penetração dela no mercado era de até 50% do volume do polietileno de baixa densidade convencional. A realidade atual, porém, mostra números subestimados à época.

    De acordo com os diretores da distribuidora, a participação do linear no mercado chega até 75% e, em segmentos tradicionais do PEBD, como filmes, lembram que essa presença consegue atingir até 80%. Uma das razões para tal façanha é explicada pelo presidente da Associação Brasileira dos Distribuidores de Resinas e Bobinas Plásticas de BOPP e BOPET, Laércio Gonçalves: o PEBDL permite a produção de filmes flexíveis mais finos e com melhor poder de barreira. A Replas fornece PEBDL de alta fluidez para o segmento de injeção de ciclo rápido e para masterbatch.

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    Marcelo Prando e Marcos (dir.) reinvidicam medidas de desoneração da produção

    Por suas características derivadas de sua estrutura ramificada, restam, no entanto, aplicações nas quais o PEBD reina sem medo de perder o trono. O revestimento por extrusão (ou coating) é um exemplo. O polímero é preferido neste caso, explica Terra, por conta da estabilidade durante o processamento. O diretor também aponta no polietileno de baixa densidade convencional melhor propriedade de encolhimento, que o privilegia na produção de filmes termocontráteis (ou termoencolhíveis).

    Outra opção consiste na composição de misturas de PEBD com proporções de PEBDL, uma prática bastante comum no mercado. Consenso nas informações de produtores de resina e distribuidores, os transformadores preferem eles próprios elaborar suas receitas. A Replas chegou a ofertar blendas pobres e ricas (menores ou maiores teores de PEBDL) para o mercado de filmes, mas seus diretores perceberam que os usuários insistem em criar suas formulações, então o serviço ficou em stand by.

    PEAD também avança – O polietileno de alta densidade tem forte penetração na indústria de embalagens, tanto flexíveis (sacolas, bobinas picotadas etc.) como rígidas, por sopro ou injeção, atendendo a diversos segmentos de mercado (produtos químicos, higiene e limpeza, entre outros), mas também abastece outros setores.

    Os grades destinados ao processo de sopro, Gonçalves informa, devem apresentar uma excelente relação de estiramento durante o processamento, sem limitação da propriedade de barreira e da qualidade final do frasco. Marcos e Marcelo Prando enxergam ainda maior versatilidade na resina, qualidade que a indica em aplicações além das embalagens: na construção civil, no setor automotivo e em outros, encontrando campo para continuar expandindo.

    De acordo com Edison Terra, a demanda dessa família de polietileno acompanhou os seus pares, registrando leve aumento em relação a 2011, desempenho puxado particularmente pelas sacolas (mesmo com toda a polêmica em torno de seu uso), bobinas picotadas e embalagens sopradas.

    Entre as novidades, o diretor destaca na família de PEADs um novo grade para embalagens sopradas destinadas a produtos químicos; outros dois desenhados para aumentar a produtividade, com ganhos de segurança e redução de custo na fabricação de tanques de combustível; e ainda uma resina de tecnologia bimodal que confere maior processabilidade na produção de tampas de bebidas não carbonatadas e possui propriedades que minimizam a transferência de odor e sabor para os produtos.

    Em PEBDL, ele promete para breve uma nova resina para o segmento de bobinas técnicas para embalagens de alimentos. Os desenvolvimentos abrangem também a linha de EVA, com um novo produto de alto grau de pureza, excelentes propriedades ópticas e de adesividade. As novidades em PEBD só chegam ao mercado em 2014, com foco no segmento de soro.

    A Braskem continua apostando alto nas suas resinas verdes, baseadas em eteno derivado do etanol da cana-de-açúcar, que conquistaram renome internacional, emprestaram à empresa posição de relevância mundial no campo dos biopolímeros (que incluem produtos biodegradáveis, e não biodegradáveis, mas obtidos com matéria-prima de fonte renovável – caso dos PEs verdes) e apontam forte tendência de expansão.

    Terra explica porque tanta fama: sinônimo de sustentabilidade, a resina possui alto teor renovável (acima de 95%), é considerada como drop in, mantém as características e participa do mesmo fluxo de reciclagem do polietileno convencional. “É algo inédito neste mercado”, reforça.

    O esforço avança no desenvolvimento de novas aplicações para o produto, disponível atualmente em 18 grades, distribuídos nas famílias de PEAD e PEBDL, para filmes, injeção e sopro. “As parcerias da Braskem com empresas que desenvolvem compostos vêm permitindo a entrada do polietileno verde em novos segmentos”, comenta o diretor.
    A capacidade produtiva atual da bioresina é de 200 mil toneladas anuais, com projetos de expansão. Terra ressalta que a tecnologia de produção baseada em fontes renováveis, em franco desenvolvimento na empresa, promete para breve a introdução do polipropileno verde.

    Freio às importações – Se para a Braskem o mercado de polietilenos não chegou a encolher, mas ficou abaixo das expectativas, o distribuidor não teve a mesma sorte, como relata o presidente da Adirplast. O mercado de distribuição formal de polietilenos, considerando as empresas com atuação oficial e as associadas da entidade, deve encolher em volume (cerca de 8%) e faturamento neste ano (em torno de 5%), nas estimativas de Gonçalves.

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    Gonçalves: 67% das resinas importadas foram de polietileno

    Embora a Braskem detenha a maior fatia da demanda brasileira, polietilenos de outras renomadas fabricantes internacionais, como a Sabic, mais conhecida no país por sua unidade de compostos de engenharia, e a Lyondellbasell, também disputam a preferência do transformador, ambas via distribuição.

    A Replas possui as duas marcas em seu portfólio. E se já sentia suas vendas afetadas por conta da queda produtiva da transformação diante do avanço das importações de produtos acabados, o quadro se agravou com o aumento da alíquota do imposto de importação, de 14% para 20%, e com as restrições impostas aos portos (veja PM de agosto, nº 454, página 26).

    Do ponto de vista setorial, os maiores problemas enfrentados pelo setor enumerados por Gonçalves foram questões como a revenda de resinas por transformadores e a importação sem critérios de matérias-primas, que ameaçam particularmente as resinas de polietileno distribuídas pela cadeia oficial. Ele dá uma ideia do estrago: os polietilenos equivaleram a 67% da importação de resinas plásticas no ano passado.

    A falta de competitividade da indústria de transformação com consequente encolhimento produtivo é o fator que mais o preocupa no longo prazo, pois depende de mudanças mais profundas do país: “Incluindo custos de energia elétrica, encargos trabalhistas, carga de impostos e principalmente capacitação dos funcionários e proprietários das empresas.”
    Essas questões passam pelo Custo Brasil, também apontado entre os problemas denunciados pelos diretores da Replas, que ainda reclamam da infraestrutura logística e dos setores fiscalizadores, por conta de diversas greves e movimentos reivindicatórios, que paralisaram as liberações das mercadorias, e criticam a carga tributária desigual para as matérias-primas importadas. “A nosso ver, é uma inversão. Se fossem taxados os produtos acabados e não a matéria-prima, nós estaríamos gerando empregos no país e, ao mesmo tempo, exercendo uma competição sadia ao monopólio estabelecido”, sugerem. Além de tudo isso, eles conviveram com a inadimplência da transformação.

    “O país cresceu e a indústria de transformação encolheu, influenciando negativamente todos os elos que participam deste universo, como o da distribuição de resinas plásticas”, lamenta Gonçalves. Ele e os irmãos Prando contam com algumas medidas sinalizadas pelo governo de desoneração da produção, tais como redução da energia elétrica e encargos trabalhistas, entre outras, para o setor poder respirar. Nessa cesta de soluções, os diretores da Replas incluem a redução do imposto de importação de matérias-primas.

    Segundo eles informam, o Brasil importa historicamente entre 20% e 30% de seu consumo, mas com o aumento da alíquota do imposto de importação, essa participação tende a cair. O presidente da Adirplast estima um volume entre 550 mil e 600 mil toneladas de polietilenos provenientes de fora das nossas fronteiras.

    Em seus cálculos, o mercado varejista respondeu pelo abastecimento de 286 mil toneladas dos polietilenos consumidos pela transformação brasileira em 2010, das quais 56,3% correspondentes à distribuição oficial representada pela Adirplast. No ano passado, o volume encolheu para 259 mil toneladas, e a parcela da distribuição oficializada também, para 51,3%. As projeções apontam mais queda: um máximo de 250 mil toneladas, com 51% supridas pela cadeia oficial.

    Gonçalves elenca como os tipos de maior procura pela indústria nacional os polietilenos de baixa densidade e linear, endereçados notadamente para embalagens flexíveis de alimentos. No caso da Replas, a família mais comercializada é a de PEAD, com foco maior em sopro e injeção de tampas. Além dessas variedades, os diretores da empresa ainda destacam atendimento regular ao mercado de rotomoldagem, com PE linear de média densidade com aditivação anti UV da Sabic. Os irmãos Prando ressaltam que seria impossível concorrer com os produtos da Braskem, todos, segundo eles, de qualidade indiscutível, sem o mesmo nível de performance técnica, facilidade de transformação e ganhos operacionais para os transformadores. Eis as razões que os levaram à parceria com a Sabic e a Lyondellbasell, petroquímicas de porte, renomadas pela geração de tecnologia, com presença mundial. Não à toa, são marcas fortes, que já atestam o nível de qualidade e a amplitude de famílias de resinas disponíveis.

    Os diretores da Replas engrossam as projeções de destaque levantadas pelas consultorias internacionais para o renascimento da petroquímica americana, graças ao shale gas, e esperam muitas boas-novas para os polietilenos com o amadurecimento dessa tecnologia, que deve promover pesquisas e resultar em novos catalisadores, produtos e aplicações.



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