Economia

25 de março de 2015

Perspectivas 2015 – Indústria química: Setor procura uma saída para impasse na definição de preço competitivo para a nafta

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Publicado por: Marcelo Fairbanks
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    Plástico Moderno, Perspectivas 2015 - Indústria química: Setor procura uma saída para impasse na definição de preço competitivo para a nafta
    A indústria química brasileira viverá em 2015 momentos críticos para a sua sobrevivência. Espremida pelo alto custo de sua principal matéria-prima, a nafta, além da elevação dos preços da eletricidade e dos salários, ela precisará se esforçar para competir com produtos fabricados nos Estados Unidos com óleo e gás baratos retirados de folhelhos. Sem mencionar a agressiva concorrência asiática.

    Fundamental para essa indústria será a conclusão das tratativas para renovar o contrato de suprimento de nafta da Petrobras para a Braskem. Desde o ano passado, esse contrato recebeu dois períodos de extensão, o segundo deles deixou o preço em aberto, para admitir o pagamento retroativo da diferença de valores após a sua revisão. Esse aditivo termina no fim de fevereiro.

    A renovação desse contrato coloca todos os produtores a jusante na cadeia química em polvorosa. Caso venha a ser fixado em valor muito elevado, o preço da nafta poderia inviabilizar a operação dos crackers instalados no país. Sem eles, não há como suprir com olefinas e aromáticos o setor, levando à paralisação de parte importante da produção local.

    O mercado aguarda ansiosamente o desfecho das negociações. Todavia, paira no ar um cheiro de nova prorrogação, por W.O., como se diz em competições esportivas. Atingida em cheio pelo escândalo do Petrolão, a diretoria da Petrobras renunciou, entre eles o diretor de abastecimento José Carlos Cosenza, responsável pelos entendimentos com a Braskem.

    Da mesma forma, cumpre lembrar que a estatal detém 36% do capital da gigante petroquímica brasileira. Deixar que a negociação se encerre de forma por demais gravosa para a Braskem seria um tiro no pé da própria estatal, pois implicaria a redução do valor de um dos seus ativos.

    Saliente-se, também, que a disputa pelo preço do insumo começou quando a estatal preferiu engordar o pool de gasolina de suas refinarias com a nafta que deveria ser destinada para uso petroquímico. Acatava, na ocasião, à ordem do governo federal, seu acionista controlador, de vender gasolina com preço muito abaixo do praticado no mercado mundial relevante (desconte-se a situação da Venezuela, cujos preços do combustível beiram a insanidade). Com isso, a estatal queria impor à Braskem o custo de importação do insumo substituto, elevando o seu preço em 5%, aproximadamente.

    No passado esse repasse para a cadeia produtiva não teria maiores dificuldades. No presente, porém, as condições de mercado são bem diversas. Há mais ou menos cinco anos, os Estados Unidos começaram a aplicar a tecnologia de perfuração horizontal, adicionando a ela técnicas de fraturamento de rochas estratificadas, denominadas folhelhos. Isso deu origem à onda do shale gas e do shale oil, que ficaram impropriamente conhecidos como gás e óleo de xisto. A produção desses hidrocarbonetos se tornou abundante a ponto de derrubar a cotação mundial. Em cinco anos, o preço do Brent (óleo leve, referência mundial), despencou de US$ 100 para US$ 50 por barril. Nas regiões produtoras norte-americanas, o preço do gás natural caiu a menos da metade, de US$ 10 para US$ 3 por milhão de BTUs. No mercado europeu, o preço da nafta segue em forte baixa, situando-se pouco abaixo de US$ 400 por tonelada – há oito meses, essas cotações superavam os US$ 900/t, segundo a consultoria Platts.

    A disponibilidade de etano de shale gas a um preço atrativo impulsionou o que parecia absolutamente improvável: a reativação do parque petroquímico dos EUA, a chamada “renaissance”. A estimativa de longo prazo favorável desencadeou uma série de novos projetos produtivos, com partidas previstas para 2016-2017, quando aquele país deverá ter um poderoso excedente de termoplásticos, cujo destino ainda é incerto, mas com forte tendência a invadir a América Latina.

    Plástico Moderno, Fadigas: setor precisa resgatar produtividade e competitividade

    Fadigas: setor precisa resgatar produtividade e competitividade

    Com essa perspectiva, a Braskem não podia arcar com mais esse custo. Carlos Fadigas, presidente da companhia, já alertara para o fato de uma tonelada de polietileno fabricada com shale gas custar apenas um terço da mesma resina sintetizada no Brasil com base em nafta. Nesse quadro, obviamente a petroquímica requer suprimento garantido de insumos e que estes tenham preço competitivo com o cenário atual. A ideia é reduzir custos, não majorá-los, sob pena de inviabilizar toda a cadeia produtiva.

    Sem uma definição do preço da nafta, vários investimentos petroquímicos estão sendo adiados e podem acabar sendo preteridos por outros destinos mais seguros. A própria Braskem investe no México, em associação com o grupo Idesa, onde desenvolve o projeto Etileno XXI, no estado de Vera Cruz, contando com gás natural suprido pela Pemex com preço competitivo com o praticado nos EUA. E estuda produzir polietilenos nos Estados Unidos, aproveitando a disponibilidade de etano de shale gas. A Oxiteno e o grupo Unigel também possuem fábricas no México.


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