Plástico

4 de junho de 2012

Notícias – Europa avança na oferta de bioplástico ecoeficiente

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Publicado por: Anelise Sanches de Roma
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    Uma das principais críticas reservadas às indústrias de bioplástico é o emprego de matérias-primas agrícolas que poderiam ser destinadas à alimentação humana, além dos seus elevados custos. No entanto, os grandes avanços da biotecnologia e o crescente número de políticas governamentais que estimulam pesquisas no setor prometem revolucionar o mercado com lançamentos importantes em termos de produtos ecoeficientes.

    No cenário mundial, a produção de materiais plásticos biodegradáveis não é uma novidade, já que há alguns anos grandes nomes do setor químico investem em pesquisas, buscando alternativas para substituir os plásticos sintéticos compostos por derivados do petróleo. Diversos países, principalmente aqueles situados no Velho Continente, possuem legislações específicas sobre plásticos biodegradáveis e compostáveis e também se esforçam para que a criação de entidades certificadoras possa favorecer esse âmbito industrial.

    A Europa ainda lidera o ranking de investimentos em pesquisas e desenvolvimento no setor, com mais de 1.600 produtos comerciais certificados, mas felizmente outros países também se revelaram altamente competitivos. Juntos, o Japão e a Austrália registram 1.200 itens certificados; Estados Unidos e Canadá, cerca de 600; números que representam uma forte demonstração da expansão do mercado.

    O conceito de sustentabilidade e o estímulo ao gerenciamento inteligente de resíduos se tornaram alguns dos principais pilares da indústria europeia. Por tal motivo, o descarte final de produtos industriais deixou de ser considerado um problema, transformando-se em uma boa oportunidade de negócios. Isso porque com a adoção de medidas como coleta seletiva e reciclagem, as indústrias dependerão cada vez menos de novos recursos não renováveis. Como se não bastasse, por outro lado, ainda terão à disposição uma interessante fonte de renda sem que isso comporte grandes investimentos em outros equipamentos de transformação.

    Reaproveitamento de resíduos – Exemplo significativo desse processo é um projeto coordenado por um consórcio chamado Food and Drink iNet e integrado por estudiosos britânicos vinculados às universidades de Leicester, Nottingham, Lincoln e por investidores públicos e privados. A ideia é transformar em plástico um dos resíduos orgânicos mais populares da indústria alimentar, ou seja, simples cascas de ovos.

    A inovadora proposta de reciclagem concentra-se no estudo das propriedades dos glicosaminoglicanos (GAGs), cadeias polissacarídicas, longas, não ramificadas, compostas por unidades dissacarídicas repetidas. Em outras palavras, proteínas ligadas a açúcares, naturalmente presentes nas cascas de ovos e muito empregadas no campo da biomedicina.

    Por serem hidrofílicos, os glicosaminoglicanos aderem-se facilmente às moléculas de água, hidratando-se e, em consequência, “inchando”. Graças a essa propriedade, os GAGs desempenham funções importantes como a proteção da maior parte dos tecidos humanos. São capazes de conservar uma considerável reserva de água, de manter constante a pressão de turgescência extracelular, além de permitir que as cartilagens funcionem como uma espécie de amortecedor. Esses e outros benefícios conferiram aos glicosaminoglicanos o status de substanciais aliados da indústria farmacêutica e cosmética, em aplicações delicadas como regeneração de tecidos, tratamento de patologias como a osteoartite e também em produtos de beleza combinados ao ácido hialurônico.

    Apesar de tantas vantagens, os glicosaminoglicanos ainda representam um mercado incipiente. Não é raro que os processos de fermentação para a produção de GAGs sejam considerados pouco interessantes para a indústria em razão de sua baixa produtividade e do lento crescimento dos micro-organismos. Isso é devido sobretudo à escassez de fontes nutrientes e à presença de elementos que inibem o crescimento das biomassas como o ácido acético, o ácido láctico e a amoníaca.

    Tudo indica que o suposto problema, porém, começa a ser superado. O centro de pesquisas napolitano BioTekNet, na Itália, por exemplo, é capaz de desenvolver processos de fermentação em biorreatores equipados com inovadores sistemas de microfiltragem, capazes de remover in situ produtos tóxicos e manter constante o nível de crescimento de micro-organismos e células. O sucesso desse processo permitiu que a Bioteknet transferisse essa tecnologia para empresas locais, que hoje produzem toneladas de polissacarídeos de uso farmacêutico como sulfato de condroitina (CHS), um dos principais componentes estruturais da cartilagem, e ácido hialurônico (HA).

    Os resultados obtidos pela BiotekNet representaram um grande passo, mas a equipe de pesquisadores britânicos liderada por Andy Abbott, professor de química e física da Universidade de Leicester, promete ir além.

    Do problema à solução– “Cascas de ovos são consideradas descartáveis nas indústrias de alimentos, mas na verdade não deixam de ser compostos altamente sofisticados”, explica Richard Worral, diretor do consórcio Food and Drink

    Plástico,  Europa avança na oferta de bioplástco ecoeficiente

    Da esq.: Pancholi, diretor da Just Egg, e Abbot, professor da Universidade de Leicester

    Inet, que junto com o European Regional Development Fund (Erdf) patrocina a iniciativa. “Os cientistas que participam do projeto identificaram uma série de potenciais aplicações para esses resíduos e isso trará benefícios não só para os fabricantes de alimentos como também para outros setores”, avalia. Para entender o nível de impacto dos rejeitos em uma indústria alimentar basta pensar que a Just Egg – uma das empresas inglesas que colaboram com o consórcio Food and Drink Inet – manipula semanalmente cerca de 1,3 milhão de ovos, obtendo com isso aproximadamente 10 toneladas de cascas.

    Para transportar os resíduos até um aterro, a empresa, que comercializa ovos cozidos, muito comuns em países anglo-saxões, gasta anualmente cerca de 30 mil libras e em âmbito doméstico as cascas de ovos também acabam se misturando ao lixo orgânico porque até então nunca foram consideradas um eventual patrimônio para o mundo acadêmico e farmacêutico. “Com essa mesma soma, poderia contratar outros empregados ou investir em pesquisa e por isso me entusiasmo ao pensar que esses resíduos possam ser reciclados, transformando-se, por exemplo, em embalagens para outros ovos”, comenta Pankaj Pancholi, um dos diretores da Just Egg.

    O projeto dos estudiosos britânicos prevê diferentes fases: um pré-tratamento para esterilizar completamente as cascas de ovos, um processo econômico e eficiente de extração dos glicosaminoglicanos, a realização de bioplásticos pensados para diversos setores e uma série de testes para verificar as propriedades mecânicas e a resistência de tais materiais.

    De acordo com William Wise, um pesquisador de pós-doutorado em química verde, atualmente a equipe da qual participa conseguiu misturar, com grandes resultados, 30% do extrato de casca de ovos ao plástico convencional, mas em breve esse nível chegará a 50%. “Precisamos realizar exaustivos testes de segurança nos materiais para embalagens de alimentos, mas estamos confiantes que nessa fase não enfrentaremos problemas e que será possível manter a estabilidade bacteriana garantindo a pureza do plástico durante todo o processo”, diz.

    Plástico,  William Wise, um pesquisador de pós-doutorado em química verde, Europa avança na oferta de bioplástco ecoeficiente

    William Wise: mistura 30% do extrato de casca de ovo ao plástico

    Assim como acontece em quase todas as grandes nações industrializadas, na Inglaterra a maioria dos plásticos produzidos ainda são sintéticos. Estima-se que anualmente o Reino Unido produza cerca de 5 milhões de toneladas de plásticos derivados de petróleo, enquanto nos Estados Unidos da América, em 2010, esse valor superou 31 milhões de toneladas. No Brasil, um dado recente foi divulgado pelo Cempre (Compromisso Empresarial para Reciclagem). De acordo com essa associação, que incentiva a reciclagem entre as empresas, só em 2010, aproximadamente 5,9 milhões de toneladas de resinas plásticas foram consumidas pelos brasileiros.

    Os esforços para reverter essa tendência existem e representam grandes avanços. Contudo, as dificuldades para reaproveitar os plásticos de uso comum incluem problemas como a separação dos diversos tipos de materiais, os altos custos de lavagem e a logística para o seu manuseio e transporte, além da responsabilidade empresarial no que se refere ao tratamento de efluentes derivados desse processo. Esses fatores quase sempre colaboram para que o inevitável destino dos plásticos descartados seja a incineração.

    Apesar dos aparentes obstáculos, no entanto, a química tradicional e a biotecnologia estão fazendo a sua parte e no ranking da reciclagem mundial países como a Alemanha (34%), a Suécia (33,2%), a Bélgica (29,2%) e a Itália (23%) são os grandes destaques. O Brasil ocupa a nona posição, graças, principalmente, ao processo de reciclagem primária ou pré-consumo.

    Até hoje, os plásticos reciclados raramente são empregados na fabricação de embalagens de alimentos e medicamentos por causa da provável impureza do material, mas pesquisas como aquela realizada pela prestigiosa Universidade de Leicester demonstram que novas portunidades estão surgindo, permitindo eventualmente o nascimento de alternativas de produção mais limpas, que comportem menor consumo de energia e reduzido impacto ambiental.



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