Embalagens

15 de dezembro de 2009

Indústria foca os negócios a favor de desenvolvimento baseados na sustentabilidade

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Publicado por: Maria Aparecida de Sino Reto
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    Ambientalistas mais intransigentes, os ecochatos estavam com a razão. Só quando a poluição ambiental beira o insustentável, a discussão em torno de como reverter esse quadro começa a tomar vulto. Nunca se falou tanto em desenvolvimento sustentável, com diretrizes para devolver a saúde à atmosfera, ao solo e às águas, e para economizar os recursos naturais. Nesse contexto, a indústria do plástico, em particular as embalagens, mais visíveis porque flutuam nos rios (os vidros e os metais afundam…), enfrenta uma voracidade crítica. Atacados como o maior vilão ambiental, os polímeros ocupam, contudo, apenas uma fatia no universo de embalagens. Segundo estudos, o impacto proveniente delas é menos da metade do provocado pelos descartes orgânicos. Vale lembrar que o lixo brasileiro é riquíssimo em restos de alimentos: representam 30% dos resíduos. Bom ressaltar, também, que a discussão em torno de um desenvolvimento sustentável deve começar no berço do projeto, antes de qualquer produto ganhar forma.

    Plástico, Indústria foca os negócios a favor de desenvolvimento baseados na sustentabilidade

    Kós planeja inserir no programa 500 pequenas empresas até 2015

    Para entender um pouco da tão propalada sustentabilidade, o programa Atuação Responsável, da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), implantado no país há dezessete anos, a conceitua como parte integrante do ciclo de vida de um produto, abrangendo toda a sua cadeia de valor, até o consumidor final. Termina na reciclagem ou descarte de resíduos.

    O programa da Abiquim vincula empresas importantes da indústria do plástico: Braskem, Quattor, Basf, Solvay Indupa, Dow Química e Innova, entre outras, de um universo atual de 139 companhias químicas e outras sessenta parceiras dos setores de transporte, atendimento a emergências com produtos químicos e de tratamento de resíduos perigosos. Diretor-técnico de assuntos industriais e regulatórios, Marcelo Kós ressalta que participar do Atuação Responsável é condição de filiação à Abiquim desde 1998.

    Até hoje, o programa contabiliza, entre outros resultados, redução de mais de 30% na emissão de gases de efeito estufa, queda superior a 30% no consumo de água nos processos industriais e da ordem de 50% menos acidentes de trabalho, de acordo com informações de Kós. Um total de 62 diretrizes abarca gestão completa dos processos das empresas nos aspectos de saúde, segurança, ambiental, proteção empresarial, qualidade e social.

    Entre as principais metas para os próximos anos, Kós destaca três. Primeiro: implantar o PreparAR, programa baseado no Atuação Responsável para uso por pequenas empresas químicas não associadas à Abiquim, mas filiadas a sindicatos estaduais da indústria química. A intenção dele é estender o programa a 500 pequenas companhias até 2015. Segundo objetivo: reduzir ainda mais as taxas de acidentes nas empresas; e terceiro, consolidar a aplicação do sistema de auditoria de 3ª parte do Atuação Responsável – VerificAR.

    Compromisso antigo – Engajada no programa da Abiquim, a Dow se debruça em busca de respostas para questões tais quais como poluir menos, reduzir o consumo de energia ou elaborar produtos mais seguros, desde 1995. “À época já estabelecíamos metas para 2005”, conta Bruno Pereira, gerente de marketing para embalagens de alimentos e sustentabilidade em plásticos básicos para a Dow na América Latina. Naqueles dez anos, a empresa investiu um bilhão de dólares. Em 2005, o fabricante repensou as suas diretrizes e o foco passou a ser: “Como faço menos mal ao planeta?”

    Plástico, Indústria foca os negócios a favor de desenvolvimento baseados na sustentabilidade

    Pereira: a disposição final do produto também pesa no projeto

    Pereira defende os invólucros poliméricos lembrando que, longe de encarnar um vilão, a embalagem plástica desempenha importante papel como ferramenta para a sustentabilidade e contribui para diminuir outro impacto ambiental menos percebido pela sociedade: o gerado pelos alimentos dispensados, constituintes dos resíduos orgânicos. De acordo com dados do gerente, a análise do impacto da embalagem plástica em toda a cadeia do produto aponta que ela representa apenas 10%, em média.

    O conceito de sustentabilidade na embalagem envolve n questões, na opinião de Pereira. A começar por conhecer os hábitos dos diferentes tipos de consumidores, para dimensioná-la apropriadamente; os requisitos de proteção e conservação do produto e, nesse contexto, analisar quais as alternativas de embalagem seriam mais amigáveis ao meio ambiente.

    “É preciso avaliar nesse universo de consumo quais embalagens terão menor impacto ambiental possível e que protegerão o produto até o final”, pondera. A análise ainda vai além: o fim de vida dessa embalagem precisa ser adequado.

    Após passar pelo crivo de muitas questões complexas, um invólucro para ser sustentável ainda precisa causar menos dano no seu final de vida. Portanto, também a disposição final no local de consumo pesa na concepção do produto. Essa tarefa ainda enfrenta outra ressalva: o projeto deve ser comercialmente viável. “Cada embalagem terá o material ou estrutura de materiais atendendo a todos os critérios avaliados”, explica Pereira.

    Ao contrário do que possa parecer, não é uma meta sustentável reciclar mecanicamente 100% do material, na visão do gerente da Dow. No entender dele, a reciclagem energética pode constituir uma boa saída no país, considerando que o lixo brasileiro é rico em material orgânico. “A energia do plástico é ferramenta para livrar o ambiente de malefícios como a contaminação de solos, provocada pela degradação de resíduos orgânicos”, defende Pereira, em sintonia com a proposta encampada pelo Instituto Sócio-Ambiental dos Plásticos – Plastivida (ver PM nº 395, de setembro de 2007, pág. 18).

    O plástico biodegradável emerge como uma solução sustentável. Uma solução, sim, entre outras. Transformar tudo em biodegradável também teria reflexos deletérios no meio ambiente. Para se decompor, o material necessita de um meio adequado para isso: a presença de oxigênio, temperatura da ordem de 40ºC e micro-organismos – e esse ambiente ideal seria o da compostagem.

    Outro norte conduz a empresa em trabalhos com a sociedade, com o apoio de entidades de classe. “Uma de nossas principais frentes é disseminar esse conhecimento de como fazer a embalagem funcionar como ferramenta para o desenvolvimento sustentável, é divulgar nosso método, que é uma simplificação do estudo de ciclo de vida de um produto, com a vantagem de ser mais rápido”, declara Pereira.

    O primeiro passo da Dow para divulgar esse conhecimento foi firmar uma parceria com a Escola Superior de Propaganda e Marketing. Além disso, a empresa incentivou seus clientes a disseminar o conceito entre seus clientes, ainda que o resultado final premiasse embalagens concorrentes do plástico. “O mais importante para a Dow é o desenvolvimento de uma embalagem sustentável, mesmo que não seja de plástico”, prega Pereira.

    As metas para 2015 são corporativas e gerais. Instituem planos específicos para cada unidade da empresa nas áreas de segurança, redução de resíduos e geração de emissões, saúde do funcionário e preservação de recursos. Sobre os dados de 2005, estabelece elevadas reduções nos índices de incidentes de trabalho, de ocorrências de derramamento e rupturas, entre outros.

    Rotas semelhantes – O comprometimento com práticas de sustentabilidade também é antigo na DuPont, que promove metas de redução no impacto de suas emissões há longa data. Entre 1990 e 2003, a companhia expeliu 72% menos gás de efeito estufa nas suas operações, mesmo elevando em 33% o seu volume produtivo. “Em 2007 já tínhamos atingido os objetivos previstos para 2010, então a empresa decidiu revisar metas e traçar outras mais agressivas”, diz orgulhoso John Julio Jansen, vice-presidente da área de performance polymers – DuPont América Latina e vice-presidente de P&D para a mesma região. Em tempo: a área de plásticos de engenharia passa por um processo de fusão com a de elastômeros, de onde está nascendo a nova unidade polímeros de performance, e Jansen se prepara para substituir o diretor do negócio de polímeros de engenharia da DuPont América do Sul, Horacio Néstor Kantt, que se despede, para se aposentar.

    De volta às novas metas, os projetos da empresa envolvem duas frentes. Internamente, inserem planos de operações

    Plástico, Indústria foca os negócios a favor de desenvolvimento baseados na sustentabilidade

    Jansen aposta em produtos com impacto ambiental positivo

    para cortar em mais 15% a emissão de gás de efeito estufa (sobre o do número já reduzido) e usar 30% menos água por unidade de produção. Além disso, planeja dobrar os investimentos em pesquisa e desenvolvimento de produtos e soluções sustentáveis para o mercado.

    Pelos desígnios da companhia, projetados até 2015, produtos que auxiliem os clientes a reduzir seus impactos ambientais e emitir menos dióxido de carbono deverão gerar uma receita de dois bilhões de dólares. “Esses produtos equivaleriam a 40 milhões de toneladas de CO2”, compara Jansen. A Dow também promoveu mudanças em seus processos internos. Ainda segundo o executivo, o conceito introduzido em todas as unidades fabris conduz a medidas que visam pôr um termo à geração de efluentes.

    Voltadas para o segmento do plástico, em particular, as estratégias da Dow focam o desenvolvimento de produtos que embutem fonte renovável ou que causem impacto ambiental positivo. “O importante é gerenciar o impacto total da solução oferecida, desde a sua geração até o seu descarte final”, ressalta Jansen.

    Também signatária do programa da Abiquim, a Braskem divulgou em 2002 um compromisso público de sua contribuição para o desenvolvimento sustentável. Três anos depois, foi listada no Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) da Bovespa. Todas as suas plantas industriais têm a certificação ISO 14001. Ainda alinhada com esse movimento contra as mudanças climáticas, a empresa assinou o Copenhagen Communiqué on Climate Change.

    Impulso à ecoeficiência – Fruto da parceria entre a Basf e a Deutsche Gesellschaft für Technische Zusammenarbeit GmbH (GTZ), uma agência do governo alemão para a cooperação internacional com objetivos de contribuir para a melhoria das condições sociais, de infraestrutura e ambientais em países em desenvolvimento, nascia, em 2005, com o apoio da prefeitura de São Bernardo do Campo-SP, a Fundação Espaço Eco, primeiro Centro de Excelência para Ecoeficiência aplicada na América Latina. Embora sua artífice, a Basf, não interfira na instituição. “A sua atuação é independente”, declara com orgulho Sonia Chapman, diretora-presidente da Fundação, instituída como ONG (organização não-governamental).

    Essa liberdade permite à entidade desenvolver trabalhos até mesmo para empresas concorrentes sob condições de confidencialidade. Tanto é assim, que Braskem e Quattor se encontram no rol de clientes da Fundação. “A Basf tomou essa decisão porque entendeu que deveria compartilhar sua experiência com outros segmentos da sociedade e que essa fundação seria uma forma de disponibilizar esse conhecimento técnico de gestão e orientação à sustentabilidade”, justifica Sonia.

    Os princípios do Espaço Eco apontam para o desenvolvimento sustentável na sociedade e na criação de uma cadeia de valor. Nesse contexto, a Basf criou três pilares que escoram o trabalho da Fundação: ecoeficiência, educação ambiental e reflorestamento.

    Uma ferramenta de análise de ecoeficiência, desenvolvida pela Basf em 1996, constitui a principal contribuição da empresa no Espaço Eco. Trata-se de metodologia inovadora, certificada pelo instituto independente TÜV, na Alemanha, capaz de contribuir para alavancar a sustentabilidade das empresas ao comparar produtos e processos, considerando aspectos ambientais e econômicos, de acordo com a norma NBR ISO 14040 – Análise do Ciclo de Vida.

    “Do berço ao túmulo”, assim foi batizada por Sonia a ferramenta de análises de ecoeficiência, por seu conceito de avaliação de toda a cadeia de processo de um produto (aspectos ambientais, de disponibilidade de recurso etc.), desde a origem das matérias-primas (o berço) até o seu descarte final (o túmulo).

    De acordo com a presidente do Espaço Eco, essa ferramenta possibilita a avaliação de processos e produtos com equilíbrio e integração das questões econômicas, sociais e ambientais, em coerência com os princípios do desenvolvimento sustentável. As empresas ou instituições que contratam o serviço contam ainda com um benefício extra: os resultados podem ser publicados e levados ao conhecimento do consumidor final.

    A Fundação cobra pela execução dos trabalhos com intuito de autogestão. “A ideia é que os recursos recebidos empatem, pois a sustentabilidade financeira é um sinal de que a sociedade reconhece o valor que a Fundação representa”, esclarece Sonia.

    Entre os estudos já elaborados para o setor de plástico, Sonia menciona o Instituto Nacional de Processamento de Embalagens Vazias (inpEV), entidade representante da indústria fabricante de defensivos agrícolas, em sua responsabilidade de destinar as embalagens pós-uso de seus produtos. Esse trabalho mostrou o impacto positivo (ambiental, social e econômico) dessa logística reversa (ver PM nº 413, de março de 2009, pág. 9).

    Moldagem sustentável – Ainda no primeiro trimestre de 2010, a indústria de transformação terá um instrumento facilitador para entrar na era da produção mais limpa. Um manual promete orientar como tornar isso possível. Desenvolvido pelo Sindicato da Indústria do Plástico (Sindiplast) em parceria com a Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb) e a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), o documento propõe ao setor refletir sobre a importância de pensar nos impactos ao meio ambiente em todas as fases do processo produtivo.

    Plástico, Indústria foca os negócios a favor de desenvolvimento baseados na sustentabilidade

    Amaral: guia ambiental ajuda o transformador a melhorar processo

    O guia norteia a indústria sobre como produzir bem e com menor consumo de matéria-prima, energia elétrica, água, ar comprimido e também discute o destino dos resíduos e a reciclagem de materiais.

    A adoção dessas medidas no processo produtivo, além de aumentar a produtividade e a eficiência do transformador, ainda conduz à menor geração de resíduos e de poluentes, segundo propõe Gilmar do Amaral, das relações institucionais do Sindiplast. “Além de guia ambiental, também servirá de boas práticas na produção, pois ensina a tirar o máximo proveito do processo produtivo e a reaproveitar os resíduos.”

    O manual ganhou corpo na Câmara Ambiental da Fiesp, onde o Sindiplast participa. As parceiras Fiesp e Cetesb contribuíram sobremaneira, visto que já colecionam guias de teores valiosos direcionados às áreas mais significativas da indústria paulista.

    Quem esboçou o guia técnico ambiental para o transformador de plástico foi um grupo de trabalho composto por empresas do setor (Tigre, Astra, Raposo), pelo núcleo Frederico Jacob do Senai Mário Amato, Sindiplast, Departamento de Meio Ambiente da Fiesp e Cetesb. Cerca de um ano após o início das discussões, o documento deve sair do prelo, segundo as expectativas de Amaral.

    Embora de âmbito estadual, o documento deve ter alcance nacional ao contar com o apoio direto da Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast), capitaneada por Merheg Cachum. Além disso, o estado de São Paulo concentra fatia significativa do setor, da ordem de 45%, equivalente a cerca de 5.100 empresas, com 142 mil colaboradores.

    O guia apresenta os principais processos da indústria de transformação (injeção, extrusão, sopro, termoformagem, rotomoldagem) e os impactos ambientais a eles relacionados. A indústria de reciclagem merece um capítulo à parte, com especial ênfase, por conta de um dos maiores impactos ambientais do plástico aparecer no fim da vida útil do produto, em seu descarte.

    O documento embute também exemplos práticos de oportunidades de produção mais limpa para reduzir os impactos apontados e alerta: “É de extrema importância que, ao desenvolvermos determinado produto, já se tenha delineada toda a logística do processo, até o descarte da embalagem (ciclo de vida do produto), para que tenhamos certeza de que esse produto está sendo ecologicamente desenvolvido.”

    Independentemente do porte, as empresas só ganham com a adoção dessas medidas. Apenas para mencionar alguns benefícios afora os ambientais: redução expressiva de custos, aumento substancial de eficiência e competitividade, melhorias contínuas em segurança e medicina do trabalho, facilidades em linhas de financiamento, além de outros tantos.



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